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Sexo, mentiras e larvas: como os escaravelhos parasitas enganam as abelhas

O ciclo de vida de um escaravelho da família Meloidae não é apenas fascinante: pode também estar nos mostrando como uma nova espécie se forma.Monday, October 1, 2018

Por Jason Bittel
Uma abelha-burguesa-de-Dawson coberta de larvas parasitas de escaravelho, que produzem feromônios que imitam os de uma abelha fêmea pronta para acasalar.

Imagine ir a um primeiro encontro com alguém que está com um perfume que te enlouquece. Mas, quando você se aproxima para dar o primeiro beijo, percebe que seu parceiro não é nada além de uma massa contorcida de larvas de escaravelhos parasitas.

Essa é a situação da abelha burguesa de Dawson.

Sabe, às vezes quando uma abelha macho está voando pelas dunas de areia, ele sente o cheiro do que parecem ser feromônios femininos. O acasalamento é competitivo nessa espécie, então vale a pena o macho ir dar uma olhada.

Infelizmente para ele, as larvas do escaravelho desenvolveram a habilidade de criar compostos químicos que as fazem cheirar como a fêmea da abelha. As criaturas até aumentam o perfil de seu aroma subindo na grama e formando uma bola do tamanho de uma abelha formada de filhotes de escaravelhos. Essas larvas são conhecidas como triungulinos, por causa de seus pés, que têm três garras que se parecem com ganchos.

Quando a abelha macho tenta acasalar, os triungulinos se prendem a ele com suas garras e o derrubam. Eventualmente, quando o macho sai em busca de uma fêmea de verdade, ele leva consigo vários companheiros presos ao seu corpo peludo. As larvas, então, se prendem a uma fêmea e vão com ela até a toca.

As larvas de escaravelho pegam carona até a toca da fêmea e comem a nutrição deixada para o filhote da abelha.

Lá, ela coloca um único ovo e deposita muito pólen e néctar. Mas esses nutrientes podem não chegar ao filhote de abelha, porque os triungulinos comem tudo antes de se transformarem em adultos.

Mas essa nem é a parte mais interessante.

Estudo publicado na Proceedingds of the National Academy of Sciences reportou que, dependendo de onde estiverem no mundo, escaravelhos da mesma espécie podem alterar seus coquetéis visando outras espécies de abelhas de outros locais.

Isso significa que os escaravelhos literalmente têm um cheiro diferente na Califórnia e no Oregon. Essas divergências extremas levaram os pesquisadores a suspeitar que os escaravelhos possam estar se transformando em outra espécie.

Leslie Saul-Gershenz, uma ecóloga química da Universidade da Califórnia, Davis, e autora do estudo, diz que essa especiação provavelmente está acontecendo, “mas está demorando”.

O nariz sabe

O nariz humano não consegue detectar feromônios de abelha ou de escaravelhos, mas há outro aspecto do novo estudo que pode ser visto a olho nu.

Quando larvas de escaravelhos armam sua armadilha nas areias do Deserto de Mojave na Califórnia, elas sempre sobem pelo menos 28 centímetros em talos de grama. No entanto, triungulinos da mesma espécie nunca sobem mais do que 10 centímetros nas dunas do Oregon.

Pode haver duas razões para isso.

“No Mojave, a areia é muito quente”, diz Saul-Gershenz, que nota que as temperaturas ultrapassam os 48 graus Celsius.

Mas não é só que os escaravelhos não gostem da areia quente. De fato, as alturas dos triungulinos refletem as alturas de patrulha das abelhas que parasitam.

Mais do que isso, quando Saul-Gershenz e seus colegas colheram ovos de escaravelhos do Oregon e deixaram os filhotes nascerem em Mojave, as larvas ficaram na parte baixa da grama. Semelhantemente, larvas da Califórnia subiram mais na grama quando colocadas no Noroeste do Pacífico.

Então, não apenas as duas populações estão desenvolvendo cheiros diferentes, mas também estão desenvolvendo comportamentos de caça.

Nesse momento, Saul-Gershenz diz que pode ser interessante olhar para os feromônios que os escaravelhos produzem para atrair uns aos outros para ver se esses cheiros mudaram. Se as fêmeas do Oregon não vão acasalar com os machos da Califórnia, ou vice-versa, isso seria mais evidências de que a espécie está se dividindo.

“A história de seleção natural e adaptação nessa espécie de escaravelho está escrita em sua química”, diz Gwen Pearson, uma entomóloga na Universidade Purdue, que não estava envolvida no estudo.

Pequenas fábricas

O estudo é mais um exemplo de “como insetos são pequenas fábricas químicas”, diz Pearson.

De fato, vale notar que você provavelmente já viu compostos químicos de escaravelhos nas notícias antes, mas com outro nome – mosca-espanhola.

Escaravelhos produzem uma secreção defensiva chamada cantaridina, que há muito tempo acredita-se que seja afrodisíaca para humanos. Na realidade, é como um veneno, que causa vômito e diarreia quando consumido. Mesmo uma gota na pele humana pode causar bolhas, foi assim que o escaravelho recebeu o nome “blister beetle” (escaravelho-bolha) em inglês.

“Não os lamba nem esfregue”, diz Pearson. “Você vai se arrepender amargamente.”

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