Cultura

Depois de décadas de guerra civil, a esperança retorna à Colômbia

Um acordo acabou com a guerra, mas o interior está repleto de minas terrestres e o número de gangues está aumentando.sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Por Alma Guillermoprieto
Fotos de Juan Arredondo
Um dos aviões utilizados pelo barão da droga Pablo Escobar para o tráfico de cocaína decora a entrada da Hacienda Nápoles. Sua luxuosa propriedade é hoje um parque temático, com animais, toboáguas, e estátuas de dinossauros.
Leia a reportagem completa na edição de fevereiro de 2018 da revista National Geographic Brasil.

“Corra”, gritou o irmão de María Magdalena Padilla para a sua mãe. “Desta vez, é sério. Fujam já!”

María Magdalena, de 10 anos, apelidada de Mayito, viu fumaça preta vindo da parte baixa da encosta. Eram paramilitares, criminosos com viés ideológico de direita, que avançavam sobre a cidade de El Salado, incendiando as casas vizinhas. A mãe de Mayito despejou todo o milho de um saco de estopa, para que as galinhas tivessem o que comer, pôs umas roupas dentro do saco e montou no jumento da família com Mayito, acompanhada a pé pelos dois irmãos mais velhos da menina. Esconderam-se por uma semana, com pouca água e quase sem comida, nas choças que as famílias de campesinos mantêm nas suas plantações.

“Eu me lembro de que nós, as crianças, ficávamos quietas nesse período. Parecia que nem os bebês choravam”, conta ela agora.

Em fevereiro de 2000, paramilitares chacinaram moradores de El Salado – entre eles Miguel Ángel Contreras. O pai dele, Jesús Contreras, desde então nunca mais visitou a cidade. Hoje com 86 anos, cego e surdo, ele mora com a filha em Cartagena.

Na distância em que estavam, a aterrorizada família não tinha como avaliar tudo o que estava acontecendo em El Salado, uma cidade próspera pelos padrões rurais, no centro do território disputado pelos guerrilheiros de esquerda e os seus oponentes paramilitares. O ataque foi um dos episódios mais medonhos das cinco décadas de uma guerra ideológica brutal na Colômbia.

Os moradores que não tiveram tempo de fugir foram reunidos na frente da igreja, em uma área normalmente usada para jogos de futebol improvisados. Com as suas famílias forçadas a assistir, as vítimas, acusadas de serem simpatizantes dos guerrilheiros, foram levadas uma a uma ao centro do campo, torturadas, ridicularizadas, esfaqueadas e, por fim, estranguladas ou fuziladas. Entre os que assistiam, quem gritasse era espancado pelos paramilitares. Estupraram moças antes de matá-las. Saquearam o centro comunitário e, nessa área ao norte da Colômbia em que a música e a dança são partes essenciais da vida, eles se apossaram dos instrumentos da banda local e celebraram bêbados cada assassinato tocando alto.

A chacina em El Salado e cidades vizinhas durou seis dias, de 16 a 21 de fevereiro de 2000. Foram trucidadas 66 pessoas. Quando voltou para casa, a menina Mayito horrorizou-se diante das casas calcinadas e do cheiro da morte. Dessa vez, nenhum dos seus parentes mais próximos perdera a vida, mas a família já tinha sido traumatizada anos antes, quando o pai de Mayito fora assassinado, acusado de ser simpatizante da guerrilha. A sua mãe juntou os pertences enquanto outros sobreviventes enterravam às pressas os seus mortos em quatro covas coletivas. Dentro de uma semana, todos os 4 mil moradores de El Salado haviam fugido e se tornado parte dos mais de 2 milhões de colombianos desalojados internamente, despojados de casa, sustento e paz.  

O que diferencia essa história de outros episódios de horror e sofrimento na Colômbia é o fato de que o povo de El Salado voltou. Em um teimoso retorno à sua infausta terra prometida, os moradores retomaram dois anos depois da chacina, limparam o cipoal que subira por ruas, paredes e cômodos vazios, caiaram as casas de adobe e replantaram as roças de tabaco, que, não muito tempo atrás, lhes davam uma renda tolerável. Não havia escola para as crianças, mas Mayito Padilla, então com 12 anos, decidiu criar uma, com exercícios de alfabetização e tabuada, além de um curso de história no qual os 37 alunos relatavam experiências para que os acontecimentos do passado recente não fossem esquecidos.

Agora, El Salado e a Colômbia estão transformando a sua herança cruenta. Aquela menina, hoje chamada de “senhorita Mayito”, conseguiu se formar em educação infantil e se tornou chefe de relações comunitárias da cidade. E, depois de meio século de um ciclo vicioso de guerra e quatro anos de negociações, o mais antigo grupo guerrilheiro do país, as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), entregou o resto das suas armas, em junho de 2017, a uma equipe das Nações Unidas. O país inteiro foi remodelado pela violência. Será preciso conquistar, aos poucos, uma paz duradoura. El Salado, que saiu na frente na tarefa da reconstrução, trouxe ao povo a esperança de que o país também possa se curar.

O fato é que, nos dois séculos desde que se tornou independente da Espanha, raras vezes a Colômbia esteve livre de conflitos violentos. Alguns dizem que o ciclo de carnificina mais recente começou em 9 de abril de 1948, com o assassinato de um líder muito popular do tradicional Partido Liberal, Jorge Eliécer Gaitán. A sua morte desencadeou tumultos letais na capital Bogotá, e uma onda de matanças sectárias no interior. Porém, bem antes disso, membros do Partido Conservador já vinham matando liberais e, muito frequentemente, vice-versa.

Em 1957, um acordo para encerrar a violência com o revezamento dos dois partidos no poder trouxe, mais ou menos, uma década de relativa paz e, nas cidades, poucos notaram as dezenas de famílias de campesinos liberais que haviam sido radicalizadas por um enérgico organizador comunista. Entre os que perceberam estavam o Exército, o presidente e um senador arquiconservador que acusou as famílias rurais de pretenderem criar “repúblicas independentes” em território colombiano. Em 1964, uma operação militar envolvendo milhares de soldados desbaratou os pequenos redutos dos liberais nos alcantilados contrafortes dos Andes. Os campesinos, ainda mais radicalizados por esses bombardeios, adotaram o nome Farc e se lançaram em uma guerrilha contra o Estado que duraria 52 anos.

Pouco a pouco, o pequeno grupo de camponeses radicais, sem boas armas e sem treinamento militar adequado, recrutou vizinhos e moradores da região, e os seus números acabaram excedendo as mais mirabolantes expectativas. Nos anos 1980, as Farc voltaram a crescer explosivamente devido a uma guerra ao narcotráfico que começou nos Estados Unidos e foi travada no México e nos países andinos, onde a coca é cultivada. As folhas do arbusto de coca são medicinais, sagradas para as populações nativas dos Andes. E também são o principal ingrediente da cocaína, um composto químico produzido pela primeira vez na Alemanha, em meados do século 19. Mais de 100 anos depois, quando o cultivo de coca foi declarado atividade criminosa, os camponeses andinos simplesmente transferiram as plantações, que eram, incomparavelmente, a sua maior fonte de renda, para partes cada vez mais remotas do vasto interior da Colômbia. Afinal de contas, sempre havia alguma máfia sedenta de sangue disposta a pagar bons dólares por aquela planta sem muitas outras utilidades.

Com instrumentos roubados, paramilitares tocaram música durante os massacres que promoveram em El Salado. Estudantes tentam hoje apagar essas memórias. Uma vez por semana, um professor vem ensinar os jovens, de 7 a 23 anos, que ensaiam em um parque local.

Dada a incessante demanda por drogas mundo afora, a guerra ao narcotráfico serviu para forçar a alta constante dos preços. As Farc notaram aí uma oportunidade e entraram na jogada. Em troca da proteção aos campesinos contra os traficantes cruéis e da garantia de um patamar de preços regular para as folhas de coca que eles colhessem, as Farc cobravam uma taxa de exportação por quilo de pasta da coca processada que saísse dos territórios sob o seu controle.

Logo os soldados das Farc já tinham uniformes e botas – além de armas de combate padronizadas. Segundo estimativas, à época eles eram 20 mil guerrilheiros. O dinheiro era farto e, obviamente, os líderes tornaram-se corruptos, perversos e ávidos por mais. Nada tinham de revolucionários: extorquiam, sequestravam, explodiam bombas. E, como os guerrilheiros atraíam a atenção dos grupos paramilitares que surgiram para combatê-los, infligiam grande sofrimento aos próprios campesinos entre os quais viviam. Era com as Farc que os assassinos paramilitares acusaram os moradores de El Salado de simpatizar, e foram as Farc que, militarmente acuadas, por fim assinaram um acordo de paz com o governo colombiano, em 24 de novembro de 2016, e entregaram as armas em junho do ano passado.  

Leia a reportagem completa na edição de fevereiro de 2018 da revista National Geographic Brasil.
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