Autoridades tentaram encobrir a peste bubônica quando ela atingiu os Estados Unidos

Em 1900, a temida Peste Negra chegou à Califórnia, desencadeando uma disputa política que durou dois anos.

sexta-feira, 8 de maio de 2020,
Por Andrew Lawler
Dissecar ratos no início do século 20 foi fundamental para rastrear a propagação da peste bubônica, ...

Dissecar ratos no início do século 20 foi fundamental para rastrear a propagação da peste bubônica, pois os roedores infectados eram os principais portadores das bactérias mortais.

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Em 6 de março de 1900, o corpo de Chick Gin, um trabalhador norte-americano de 41 anos e ascendência chinesa, foi encontrado no porão de um hotel em Chinatown, na cidade de São Francisco, EUA. Enquanto redigia o atestado de óbito, um médico da cidade notou nódulos estranhos no cadáver. Testes realizados por um laboratório municipal revelaram que a causa da morte havia sido a temida peste bubônica, o primeiro caso identificado em solo norte-americano. O recém-criado Conselho de Saúde da cidade imediatamente colocou Chinatown sob rigorosa quarentena.

Nos dois anos seguintes, se desenrolou uma séria disputa entre autoridades da Califórnia, que negavam a existência da peste, e cientistas federais que lutavam para conter a epidemia. A controvérsia tomou conta do país, atraindo a atenção do presidente e de quase vinte governadores, e acabou forçando o governador da Califórnia a deixar o cargo — mas não antes de um cientista-chefe ser demonizado e mais de cem vítimas morrerem em decorrência da terrível doença.

Os agentes federais de saúde de São Francisco usavam vassouras e pás para limpar áreas com a ocorrência de ratos potencialmente infectados.

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“A apreensão de que uma epidemia pudesse gerar alarde e causar graves consequências econômicas colocou os interesses comerciais acima da verdade”, escreveu o falecido historiador Philip Kalisch, da Universidade de Michigan, que estudou o evento.

A Peste Negra chega à América

O que foi chamado de Peste Negra nos tempos medievais passou a assolar a Ásia. Milhões haviam morrido e as autoridades de saúde pública dos Estados Unidos temiam havia bastante tempo que a doença pudesse atravessar os portos do Pacífico e chegar até a costa oeste do país. A doença altamente infecciosa, normalmente transmitida por roedores, era fatal na maioria dos casos.

Contudo, dois dias após o corpo de Gin ser encontrado, o jornal San Francisco Chronicle publicou uma matéria na primeira página com a manchete: “A farsa da peste faz parte de um plano de destruição”. Os empresários locais temiam que as notícias de um surto da peste devastassem a economia e contestavam ferozmente as alegações do Conselho de Saúde da cidade. Devido à pressão exercida, a cidade suspendeu a quarentena no dia seguinte. O jornal comemorou a decisão, reclamando que a medida de isolamento havia causado “um grande prejuízo aos negócios”.

Outra publicação local, o Bulletin, dizia que a peste era, para todos os efeitos, menos perigosa do que “sarampo, caxumba ou qualquer um dos males comuns que conhecemos”. O jornal acrescentou com alarde que as notícias da peste estavam afastando turistas e cargas do movimentado porto.

Ilustre pesquisador médico, Joseph Kinyoun foi atacado pelas empresas da Califórnia e pela comunidade chinesa por ter soado o alarme em relação à propagação da peste bubônica em São Francisco, em 1900.

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Em 11 de março, um oficial federal chamado Joseph Kinyoun confirmou que Gin havia sido vítima da peste. Kinyoun liderava o Serviço de Saúde da Marinha existente no porto, órgão federal responsável por lidar com ameaças de doenças que poderiam ingressar pelos portos do país. Médico respeitado, ele ajudou a fundar o Laboratório de Saneamento dos Estados Unidos que posteriormente foi transformado nos Institutos Nacionais de Saúde.

Mais mortes foram causadas pela peste. Em maio, Kinyoun alertou o cirurgião geral de que o surto estava se transformando em epidemia. “Tenho que solicitar que o assunto seja levado ao conhecimento do presidente”, escreveu o cirurgião geral ao seu superior, então Secretário do Tesouro, em 21 de maio. Ele pediu que o presidente promulgasse “as regulamentações necessárias para impedir a propagação da doença”.

O presidente William McKinley atendeu à solicitação naquele dia. Mas o governo federal relutou em tomar medidas drásticas que pudessem irritar o governador republicano da Califórnia, Henry Gage, e a poderosa comunidade empresarial do estado. Suas ações se limitaram a ordenar que a quarentena fosse instituída novamente em Chinatown e a colocar patrulhas armadas nas ruas para impedir o deslocamento de todos os chineses que tentavam entrar ou sair da cidade.

Os supervisores de São Francisco continuaram insistindo que não havia epidemia, apenas alguns casos isolados que haviam sido contidos. E a comunidade chinesa lutou contra o que seus líderes consideravam uma discriminação escancarada. Um tribunal ordenou a suspensão da quarentena em 15 de junho, tomando o partido de uma associação comercial chinesa que alegava que o surto se baseava mais na raça das vítimas do que na ciência. O juiz também decidiu que não havia provas suficientes sobre a existência da peste. Até o periódico Pacific Medical Journal negou que houvesse uma epidemia, alegando que os testes para detecção da doença não haviam gerado resultados corretos.

Havia muita coisa em jogo: outros países estavam pensando em interromper o comércio com a Califórnia e o turismo estava em declínio. Jornais como o Chronicle continuaram insistindo que as alegações sobre a peste faziam parte de um esforço secreto para arruinar a economia da cidade.

Kinyoun rapidamente se tornou o principal alvo dos opositores, apesar de seu excelente currículo. Na Europa, ele havia estudado com especialistas na doença — incluindo um dos dois homens que descobriu o bacilo responsável — e havia sido colocado no cargo especialmente para proteger a Califórnia da possível chegada da peste. Quando se recusou a aceitar subornos para falsificar informações, foi impiedosamente atacado, sendo chamado de corrupto e incompetente, e até mesmo considerado suspeito de plantar o bacilo no corpo de Gin.

Kinyoun continuou notificando o cirurgião geral a respeito da epidemia. Em outubro, ele constatou mais três casos da peste. “Todos tiveram desfechos fatais”, escreveu ele. “A área de ocorrência da infecção está aumentando gradualmente.”

O governador da Califórnia, Henry Gage, negou veementemente a existência da peste em seu estado e perdeu a chance de se reeleger quando os republicanos recusaram sua nomeação ao cargo.

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Em janeiro seguinte, o governador Gage castigou publicamente os “responsáveis pela farsa da peste” e acusou Kinyoun de realizar uma “inoculação post mortem” com “bacilos importados da doença”. Tal crime, acrescentou, seria punível com prisão perpétua. Kinyoun foi preso por oficiais do estado e ficou em reclusão por pouco tempo.

Outros estados começam a se preocupar

Uma comissão nomeada naquele mês pelo Secretário do Tesouro para averiguar os fatos sobre a peste levou Gage a enviar um telegrama furioso ao presidente McKinley dizendo que a comissão era um insulto ao estado da Califórnia. O presidente temia alienar Gage, então o Secretário do Tesouro respondeu que os resultados da investigação seriam mantidos em sigilo. Em troca desse silêncio, Gage daria início a operações sanitárias em Chinatown.

O painel identificou seis novos casos da doença, mas o Serviço de Saúde da Marinha foi ordenado por Washington a não mencionar a peste. Kinyoun foi transferido, de forma humilhante, para Detroit.

“O crime de Dr. Kinyoun foi que ele simplesmente disse a verdade e não trabalhou ativamente para ocultá-la”, concluiu o editorial do periódico Journal of the American Medical Association. O governador Gage continuou se recusando a admitir a existência da peste no estado, apesar de novos casos terem sido relatados ao seu gabinete, que não foram divulgados ao público.

A Casa Branca se recusou a pressionar a Califórnia, mas outros governadores sabiam da peste e temiam as consequências de uma epidemia que poderia assolar o país. Em janeiro de 1903, mais de 20 delegações estaduais se reuniram em Washington, D.C. para avisar que colocariam a Califórnia em quarentena a menos que uma medida rápida fosse tomada, e dirigiram críticas a Gage. Ele continuou a culpar Kinyoun e o governo federal pela criação de uma crise falsa.

No entanto, a posição contrária de Gage havia alienado até mesmo seu próprio Partido Republicano. Ele não pôde concorrer ao cargo de governador novamente. O novo governador — um médico — tomou medidas mais incisivas, incluindo um ataque mais eficaz à população de ratos da cidade. O último caso de peste na epidemia foi relatado no início de 1904. No fim, 121 casos foram registrados, provavelmente houve subnotificação, e apenas duas vítimas sobreviveram à doença.

Kinyoun nunca conseguiu recuperar sua reputação profissional. Mas suas realizações, que permitiram que o campo da ciência da saúde tivesse acesso a pesquisas de qualidade, não foram esquecidas. Em um artigo de 2012, dois pesquisadores elogiaram um homem que chamaram de “antecessor esquecido”, que ajudou a criar os Institutos Nacionais de Saúde. Um dos coautores do artigo foi Anthony Fauci, atualmente um dos principais membros da força-tarefa do presidente Trump contra o coronavírus.

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