Vida selvagem em movimento: do tráfico ao resgate e à reintegração na natureza

Animais silvestres seguem sendo vítimas de tráfico em todo o mundo e a vida selvagem apresenta um declínio médio de 69% desde 1970. As iniciativas de resgate e reintegração na natureza são fundamentais para interromper essa tendência.

Por Johnny Langenheim
Publicado 16 de jan. de 2023 11:21 BRT
Grandes felinos em todo o mundo enfrentam múltiplas ameaças, incluindo declínio populacional, tráfico ilegal e cativeiro desumano. A fotógrafa da National Geographic Nichole Sobecki explora como ainda existe esperança.

Khatu olha por um momento para a pequena multidão de pessoas que a observa atentamente. Mas ela perde rapidamente o interesse em nosso murmúrio de admiração e volta sua atenção à gazela que ela e seus cinco filhotes estão comendo. Khatu é um fenômeno: um guepardo fêmea que antes vivia em cativeiro e habita hoje a reserva de proteção animal do Cabo Oriental (África do Sul) e já teve três ninhadas com 15 filhotes no total, 11 deles sobreviventes. A esperança é que esses filhotes possam acabar desempenhando um papel crucial na diversificação das ações genéticas nas populações de guepardos selvagens…

A cerca de 185 quilômetros do Santuário de Vida Selvagem de Simbonga, cinco leões estão se adaptando a um ambiente desconhecido. Esses grandes felinos também foram criados em cativeiro, não para fins de conservação, mas para entreter seres humanos. Agora, eles foram resgatados de recintos de concreto e do gelado inverno da Europa Oriental e transportados milhares de quilômetros para uma savana semiárida que conta com aproximadamente 3.000 horas de sol por ano. Esses leões vão sempre precisar de cuidados — eles nunca aprenderam a caçar ou sobreviver na natureza —, mas podem hoje percorrer livremente uma importante reserva de proteção.

Quatro filhotes de guepardo confiscados de traficantes na Somalilândia, uma república autodeclarada autônoma no Norte da África. Guepardos são traficados do Norte da África para o Oriente Médio, onde são comprados como animais de estimação altamente prestigiados. Esses felinos são geralmente retirados de populações selvagens que já sofrem com falta de diversidade genética, perda de habitat e conflito entre seres humanos e vida selvagem.

Foto de Nichole Sobecki

Animais silvestres são mantidos hoje em cativeiro por todo o mundo, muitas vezes longe de seu habitat natural. Eles são traficados por sua pele, ossos e órgãos, para serem atrações de circos e zoológicos, ou apenas animais de estimação. Mas conservacionistas estão devolvendo a seus habitat naturais através de fronteiras internacionais essas vítimas do cativeiro, muitas vezes resgatadas de condições precárias e, em alguns casos, possivelmente contribuindo para a sobrevivência de uma espécie. É o caso do animal terrestre mais rápido do mundo.

Só restam cerca de 7.000 guepardos adultos na vida selvagem. Eles enfrentam as mesmas ameaças que muitas outras espécies de felinos selvagens: tráfico, perda de habitat e conflitos entre a vida humana e a vida selvagem. Mas os guepardos são especialmente vulneráveis, porque as populações selvagens — ou “metapopulações” — não têm diversidade genética, um resultado de eventos de quase extinção no passado e de seu sucesso reprodutivo relativamente baixo. 

Khatu é um guepardo fêmea que pariu recentemente sua terceira ninhada. Criada em cativeiro, ela e outros de sua espécie fazem parte da estratégia de introduzir genética de animais de cativeiro em populações selvagens, também conhecidas como “metapopulações”, em que endogamia, perda de habitat, conflitos e tráfico ameaçam a sobrevivência da espécie.

Foto de Nichole Sobecki

“O que Ashia está fazendo é adicionar genética”, diz Marna Smit. “Talvez possamos introduzir genética de animais em cativeiro. São cerca de sete ou oito gerações removidas até agora. Assim, começamos a diversificar o que já é uma população com relações muito estreitas.” Smit é a diretora de conservação do Centro de Guepardos Ashia, uma instalação de criação em cativeiro nos arredores da Cidade do Cabo que retira guepardos mantidos em cativeiro e os preparam para a vida na natureza. “Como nos concentramos na dieta corretiva, só alimentamos os animais com caça selvagem, e ficamos atentos à forma física e à saúde dos felinos.”

Khatu é uma das histórias de sucesso de Ashia. Criada em uma instalação em Pretória, ela foi transportada para Ashia e, depois, para uma instalação maior de reintegração na vida selvagem onde aprendeu a caçar e, finalmente, para seu lar atual em uma reserva no Cabo Oriental. “Um felino criado em cativeiro e hoje reintegrado à natureza conseguiu produzir 11 guepardos que serão colocados em diferentes reservas de proteção animal na África do Sul. Isso vai introduzir genética totalmente nova”, explica Smit.

Seis dos filhotes de Khatu das ninhadas anteriores já foram transportados para reservas próximas, e Ashia também envia felinos para reservas em outros países da África Meridional como Moçambique e Zâmbia. “O transporte de qualquer guepardo é em si muito difícil e perigoso. Essa é uma espécie muito agressiva e não pode ser mantida sedada durante toda a viagem, mas sempre que abro aquela caixa e liberto um felino em uma reserva, fico muito emocionada. Até agora, já libertamos 26 animais e propiciamos o nascimento de 42 filhotes”, conta Smit.

Ao contrário de guepardos, leões e tigres podem ser mantidos sedados durante longas viagens, algo que Lionel de Lange, fundador dos Warriors of Wildlife entende bem. De Lange se dedica a resgatar animais silvestres de condições desumanas, transportando-os de zoológicos, circos e até mesmo residências na Europa Oriental para o Cabo Oriental na África do Sul, seu país de origem. Em janeiro de 2022, ele e sua equipe conseguiram transportar cinco leões (Hercules, Cher, Khaya, Jen e Aslan) — e um tigre (Gina) — de um cativeiro na Ucrânia até a Reserva e Santuário de Proteção Animal de Simbonga. Esse resgate só foi possível graças a ações rápidas e à longa experiência da empresa de logística DHL.

À esquerda: No alto:

Um comboio da Warriors of Wildlife transporta leões de avião da Europa Oriental até o Cabo Oriental, África do Sul, na última etapa de uma viagem que levou 87 horas. Os felinos são sedados e monitorados por veterinários por cada etapa de uma viagem que envolve verificações alfandegárias, inspeções de raios X e muita papelada.

Foto de National Geographic CreativeWorks
À direita: Acima:

Membros da equipe da Warrior for Wildlife chegam à Reserva de Vida Selvagem de Simbonga — no Cabo Oriental (África do Sul) — com as caixas especialmente construídas pela DHL e preparam para transferir um leão sedado para seu novo lar. Ele passará a primeira noite em uma instalação noturna para se adaptar a seu novo ambiente antes de ser solto em um local maior.

Foto de Mike Dexter

“Não é algo simples como alguém que resolve viajar de avião”, explica De Lange. “Esses felinos precisam passar por máquinas de raios X, autorizações e liberação alfandegária. Liguei para o escritório da DHL em Joanesburgo e, em poucos dias, fiquei surpreso… Eles decidiram apoiar a iniciativa em muito pouco tempo.”

Os felinos passaram 87 horas em caixas de viagem, com paradas regulares para exames de saúde e alimentação. Eles viajaram por terra e ar pela Ucrânia, Istambul, Joanesburgo e, finalmente, Baía de Jeffreys, na província sul-africana do Cabo Oriental. Tendo passado toda a vida em cativeiro, muitas vezes em pequenos recintos de concreto, esses animais nunca poderão se readaptar totalmente à vida selvagem como o guepardo. “Todos eles têm áreas delimitadas de pelo menos 2.500 metros quadrados para percorrer”, explica De Lange. “Você percebe que eles estão felizes. Eles sabem que algo positivo aconteceu. Não são animais bobos.”

Embora ações assim não aconteçam todos os dias, a DHL lida com realocações de animais selvagens relacionadas à conservação com bastante frequência. Em 2020, a empresa virou notícia quando ajudou a mudar Kaavan, um elefante-asiático de 36 anos de idade conhecido como “o elefante mais solitário do mundo” após a morte de sua parceira em 2012. Ele foi transportado do Paquistão até um santuário de vida selvagem no Camboja, um ambiente mais adequado a sua espécie.

Kisa deixa seu aposento noturno provisório no sul-africano Santuário de Vida Selvagem de Simbonga pouco depois de sua chegada da Ucrânia. Embora os tigres não sejam endêmicos da África do Sul, Kisa foi transferido com cinco leões pela Warriors of Wildlife para salvá-lo do abate. Todos os grandes felinos em Simbonga contam com pelo menos 2.500 metros quadrados [26.900 pés quadrados] para percorrer livremente.

Foto de National Geographic CreativeWorks

E em julho de 2022, a DHL fez parceria com a Liberia Chimpanzee Rescue & Protection (LCRP) — uma ONG que resgata chimpanzés do tráfico de animais de estimação e carne de caça — para transportar quatro chimpanzés vulneráveis de avião da vizinha Guiné-Bissau até o Santuário da LCRP na Libéria.

Movimentando bilhões de dólares, o tráfico de animais silvestres continua sendo uma das atividades internacionais ilegais mais lucrativas; na verdade, juntamente com tráfico de armas, pessoas e falsificação, é uma das maiores redes comerciais ilícitas do mundo. Por outro lado, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) identificou a perda de habitat como uma principal ameaça para 85% das espécies na Lista Vermelha da IUCN (uma lista abrangente de espécies e seus respectivos status de conservação). Esse problema é causado pela destruição de florestas, savanas, pântanos e recifes, ou por sua transformação em locais de habitação ou para consumo humanos. 

Mas com estratégias bem fundamentadas e ação organizada, espécies vulneráveis e ameaçadas podem se recuperar. Em julho de 2022, a IUCN relatou que a população de tigres em vida selvagem é estimada hoje entre 3.726 e 5.578 animais, 40% mais do que as estimativas anteriores em 2015. Mas isso vai exigir esforços organizados, o que inclui educação, recuperação de habitat selvagens, aplicação da lei e a realocação estratégica de espécies sitiadas para reservas bem administradas com a ajuda de empresas como a DHL, seja para dar aos animais maltratados uma oportunidade de vida melhor ou literalmente salvar da extinção uma espécie emblemática como o guepardo.

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