Estes adoráveis esquilos também são assassinos infanticidas canibais

Você acha que esquilos são bonitos e fofinhos? Então repense. Cientistas encontram evidências de infanticídio e canibalismo em Yukon.

Publicado 21 de mar de 2018 11:27 BRT, Atualizado 5 de nov de 2020 04:22 BRST
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Uma bióloga flagrou este esquilo-vermelho macho matando um filhote da própria espécie.
Foto de Jessica Haines, Unversidade de Alberta

A morte chega de diferentes formas para o esquilo-vermelho de Yukon: aves de rapina atacam pelo ar enquanto linces silenciosos vigiam a neve abaixo. E, às vezes, os próprios esquilos-vermelhos se enfrentam.

Em um estudo publicado esta semana na revista científica The Scientific Naturalist, pesquisadores relatam que filhotes de esquilo-vermelho norte americano são muitas vezes vítimas de ataques de machos próximos. Às vezes, esses machos assassinos também comem os jovens que matam.

Jessica Haines, da Universidade de Alberta, presenciou algumas dessas agressões, conhecidas como infanticídio, como parte do Projeto Kluane Esquilo-Vermelho, próximo ao Lago Kluane, no estado de Yukon, Canadá.

A primeira vez que Haines testemunhou o comportamento assustador foi em 2014. Um esquilo macho que ela conhecia de vista – cada um deles é marcado com pedaços de arame colorido nas orelhas – subiu uma árvore até o ninho de uma fêmea e fincou seus dentes em um filhote, que caiu por entre os galhos e morreu. Uma semana depois, Haines encontrou outro filhote morto, até que um dia, toda a ninhada desapareceu.

Cientistas retiraram temporariamente este filhote de esquilo do ninho para a pesquisa. Os filhotes são marcados e rastreados pelo resto de suas vidas. Uma pequena amostra de tecido da orelha é testado por DNA a fim de determinar a paternidade de cada esquilo.
Foto de Jessica Haines, Unversidade de Alberta

Através de análises de DNA, Haines e os coautores do estudo determinaram que os esquilos responsáveis pela matança não eram os pais dos filhotes mortos. Além disso, observações persistentes revelaram que o infanticídio dispara em anos em que há alimento em abundância.

Pode parecer contra-intuitivo que haja mais mortes em anos de fartura, mas faz sentido quando observamos que esquilos fêmeas também têm uma maior probabilidade de terem uma segunda ninhada de filhotes quando há mais comida disponível. Durante a primeira procriação, as fêmeas acasalam com diversos machos, sendo impossível para o macho saber quais são seus filhotes. Mas se o macho matar os filhotes, o corpo da fêmea interromperá a lactação e ela estará pronta para acasalar novamente, permitindo que ele faça guarda e tenha a certeza de que será o pai dos próximos filhotes da fêmea.

Haines diz estar animada em mostrar às pessoas outro lado de um animal que elas acreditam já conhecer bem.

“Esquilos também comem filhotes de coelhos, de pássaros e ovos de aves”, ela disse.

Animais perigosos

O infanticídio não é algo inédito no reino animal. Na verdade, algumas espécies, como os leões, são conhecidas por terem alguns machos que matam todos os filhotes quando assumem o bando.

Mas muitas pessoas não imaginariam que esquilos fofinhos estariam entre os animais que matam outros da própria espécie.

Os filhotes deste esquilo-vermelho fêmea foram mortos por um macho. A bióloga Jessica Haines diz ser comum ver a mãe sentada perto do ninho (à direita) próximo ao momento do ataque, talvez na tentativa de proteger seus filhotes de serem atacados.
Foto de Jessica Haines, Unversidade de Alberta

Haines diz que as pessoas normalmente enxergam os esquilos como animais de estimação ou pestes. Mas, na verdade, esquilos-vermelhos norte americanos são animais selvagens que farão o que for preciso para sobreviver.

Às vezes, diz Haines, a carcaça do filhote mostra sinais de ter sido comida pelos machos. Outras vezes, é possível ver os machos escondendo as carcaças, talvez para que possam comê-las depois.

Esse tipo de estocagem é comum entre os esquilos, sendo conhecidos por acumularem todo tipo de coisa interessante em suas tocas, ou armazéns. Haines diz já ter visto cogumelos secos, pernas de coelhos e, uma vez, a mandíbula de um coiote.

“Estava próximo à rodovia, então ele pode ter sido morto por um carro,” ela explica.

Esquilos-vermelhos parecem saber com antecedência quando os pinheiros brancos terão um “ano abundante”, o que cria um aumento na quantidade de sementes que os esquilos comem.
Foto de Jessica Haines, Universidade de Alberta

Muitas, se não todas, as espécies de esquilo mostram evidências de infanticídio, diz John Koprowski, biólogo conservacionista da Universidade do Arizona e autor do livro Squirrels of the World (Esquilos do Mundo, em tradução livre).

“O infanticídio pode ter uma influência muito mais importante na evolução do comportamento dos animais do que compreendemos hoje”, ele diz.

Segredos dos pinheiros

Apesar de já estar claro que os esquilos-vermelhos de Yukon cometam infanticídio e que a prática aumente em “anos abundantes”, ou seja, anos em que há um grande aumento na quantidade de sementes de pinheiro branco, um grande mistério ainda permanece.

“O que é interessante sobre os esquilos é que eles conseguem prever um ‘ano abundante’ antes que ele ocorra”, diz Haines.

Fêmeas têm mais filhotes por ninhada em anos abundantes. Mas os pinheiros brancos não produzem pinhas antes do outono, enquanto o acasalamento ocorre nos meses de fevereiro e março anteriores. O aumento no infanticídio também ocorre antes que as pinhas comecem a brotar. Assim, como os esquilos “sabem” que um ano desses está a caminho?

Este filhote de esquilo, irmão de um que foi observado ter sido morto por um macho, também foi atacado e morto.
Foto de Jessica Haines, Universidade de Alberta

Haines diz que os esquilos têm um pressentimento. Em anos abundantes, observou-se que as plantas possuem uma maior concentração de um hormônio chamado giberelina, então talvez os esquilos sejam capazes de sentir esse composto durante a primavera, quando comem os brotos das árvores.

Isso mostra o quanto ainda temos a aprender sobre essas criaturas aparentemente comuns. O Projeto Kluane Esquilo-Vermelho existe há quase três décadas, disse Haines.

Este filhote recém-nascido tinha ferimentos similares às marcas de mordidas vistas em outros filhotes atacados por machos adultos.
Foto de Jessica Haines, Universidade de Alberta

“E mesmo depois de todo esse tempo, ainda estamos aprendendo coisas sobre os esquilos.”

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