Fofas, espinhosas e cobiçadas, equidnas selvagens são vítimas do comércio ilegal de animais

A reprodução desses mamíferos monotremados em cativeiro é muito difícil, o que tem levado contrabandistas a retirarem-nos da natureza e ludibriarem o mercado internacional. terça-feira, 8 de outubro de 2019

Por Danielle Beurteaux
As equidnas-de-focinho-curto, encontradas na Austrália e na Nova Guiné, são muito difíceis de reproduzir em cativeiro. Como resultado, falsos criadores as tiram da natureza.
As equidnas-de-focinho-curto, encontradas na Austrália e na Nova Guiné, são muito difíceis de reproduzir em cativeiro. Como resultado, falsos criadores as tiram da natureza.
Foto de Reg Morrison, Minden Pictures

A equidna é um animal com espinhos que parece um pequeno porco-espinho redondo e de nariz comprido. Cego e com menos de um centímetro de comprimento ao nascer, o filhote  permanece na bolsa da mãe por mais ou menos dois meses, até que seus espinhos crescentes comecem a cutuca-las, fazendo com que a mãe os mova para uma toca protetora que ela mesma construiu.

Equidnas-de-focinho-curto são encontradas na Austrália e na ilha de Nova Guiné. Eles são um dos cinco mamíferos do mundo que botam ovos, chamados monotremados: quatro espécies de equidna e o ornitorrinco de bico de pato. Eles usam suas pernas curtas e fortes, garras afiadas, focinho e língua comprida para desenterrar e comer cupins (os preferidos) e formigas. São escavadores tão ativos que são considerados engenheiros naturais—animais que ajudam a manter os ecossistemas saudáveis revertendo o solo.  Equidnas-de-focinho-curto são fofas o suficiente para que os zoológicos os desejem e algumas pessoas os queiram como animais domésticos. Mas com sua dieta altamente específica,  comportamento de escavação e vida útil longa – cerca de 60 anos – eles não são bons animais de estimação.

Não se sabe quantas equidnas-de-focinho-curto existem na natureza. Na Austrália, elas são uma espécie protegida, tornando ilegal capturá-las ou comercializá-las. A Indonésia, onde elas não são protegidas, estabelece-se uma cota anual para o número que pode ser criado em instalações comerciais e existe um sistema de permissão para negociá-las.

Desde 2014, cinco instituições credenciadas na Austrália criaram apenas 39 puggles, como são chamados os filhotes de equidnas. O último nascimento de um puggle em um zoológico credenciado nos EUA foi em 2008. Em um único ano, a Indonésia vendeu 40 equidnas-de-focinho-curto registradas como criadas cativas para o comércio de animais exóticos, de acordo com a organização que monitora o comércio transfronteiriço de animais selvagens.
Desde 2014, cinco instituições credenciadas na Austrália criaram apenas 39 puggles, como são chamados os filhotes de equidnas. O último nascimento de um puggle em um zoológico credenciado nos EUA foi em 2008. Em um único ano, a Indonésia vendeu 40 equidnas-de-focinho-curto registradas como criadas cativas para o comércio de animais exóticos, de acordo com a organização que monitora o comércio transfronteiriço de animais selvagens.
Foto de D. Parer and E. Parer-Cook, Minden Pictures

Em cativeiro, diz Arthur Ferguson, supervisor de fauna australiana no Zoológico de Perth, na Austrália Ocidental, "elas são uma espécie muito desafiadora de se reproduzir, e a criação é bastante esporádica nos zoológicos". O Zoológico de Perth é uma das poucas instalações que têm programas bem-sucedidos de reprodução da equidna.

A Species360, organização de conservação sem fins lucrativos com sede em Minnesota, EUA, observa que as populações de zoológicos nos 96 países monitorados abrigam 180 equidnas-de-focinho-curto. E, em todos os anos, de 1902 a 2013, zoológicos americanos que mantiveram um total de 119 animais criaram apenas 19 filhotes. Hoje, zoológicos americanos têm 28 equidnas-de-focinho-curto em 11 instalações, e, segundo a Associação de Zoológicos e Aquários, o nascimento do último filhote foi em 2008.

Em 2012, somente na Indonésia, no entanto, negociantes venderam até 40 equidnas-de-focinho-curto registradas como cativas e criadas para o comércio de animais exóticos, de acordo com a Traffic, organização sem fins lucrativos que monitora o comércio transfronteiriço de animais selvagens.

Chris Shepherd, cofundador da Monitor Conservation Society — organização sem fins lucrativos sediada em British Columbia, no Canadá, que se concentra no comércio ilegal de vida selvagem – duvida que as instalações indonésias possam ter gerado 40 equidnas em 2012. Da mesma forma, um estudo recente questiona se as mesmas instalações indonésias poderiam ter criado 50 animais como declararam em 2016.

Os comerciantes, diz Shepherd, estão "claramente tirando-os da natureza". Declarar animais furtados como criados em cativeiro – “lavá-los” - faz parte da complexa cadeia de suprimentos do comércio ilegal de animais. Normalmente, o que acontece, diz ele, é que uma equidna selvagem é capturada e contrabandeada para um revendedor que solicita uma permissão declarando que ela foi criada em cativeiro. O animal, com a papelada completa, entra no comércio internacional da vida selvagem.

O desafio da criação

Na natureza, o comportamento de acasalamento de equidnas pode envolver uma fila de até 10 machos seguindo uma fêmea, diz Alexandra Summerell, candidata a Ph.D. no Museu Australiano e na Universidade de Tecnologia, ambos em Sydney, Austrália. "Isso pode durar até duas semanas até que ela esteja pronta para acasalar."

Foi recentemente que Ferguson e pesquisadores do Zoológico de Perth descobriram as condições que equidnas precisam para se reproduzirem em cativeiro. Eles observaram de perto o comportamento dos animais no período que antecedeu a época de procriação e, após o acasalamento, removeram os machos do recinto. Eles também construíram caixas como toca protetora equipadas com lâmpadas de calor para a fêmea se isolar durante a incubação. Como Ferguson diz, a toca protetora "é realmente importante para proporcionar à fêmea um local para depositar os filhotes e um gerenciamento cuidadoso dessa toca ajuda na criação bem-sucedida da prole". 

Mas mesmo com essa quebra do código na reprodução da equidna, o Zoológico de Perth conseguiu criar apenas 12 filhotes entre 2007 e 2016, e dois deles morreram. Desde 2014, cinco instituições na Austrália (incluindo o Zoológico de Perth) credenciadas pela  Associação de Zoológicos e Aquários, uma organização sem fins lucrativos para zoológicos e aquários da Australásia, procriaram apenas 39 filhotes, também chamados de puggles – não confundir com o cachorro.

Um estudo  feito por pesquisadores usando monitoramento de tráfego observou que a Indonésia relatou ter 33 equidnas em instalações de criação em 2016, incluindo 15 adultos maduros e 18 equidnas nascidas durante a temporada de reprodução anterior. A cota da Indonésia para criar (e exportar) equidnas em 2016 foi fixada em 50. Quinze animais adultos, se forem todos fêmeas, provavelmente produziriam apenas sete bebês, explica o coautor Jordi Janssen. E, como as equidnas não se tornam sexualmente maduras até os três anos de idade, os 18 animais criados em 2015 não poderiam adicionar novos nascimentos aos números de 2016. Contar novamente animais de épocas de reprodução anteriores, diz Janssen, é uma maneira de aumentar o estoque - criando uma brecha que possibilita afirmar que equidnas capturadas na natureza foram criadas em cativeiro.  

Pesquisadores estão trabalhando para desenvolver dispositivos que ajudem os policiais a determinar se os animais registrados como criados em cativeiro foram retirados da natureza e comercializados ilegalmente.
Pesquisadores estão trabalhando para desenvolver dispositivos que ajudem os policiais a determinar se os animais registrados como criados em cativeiro foram retirados da natureza e comercializados ilegalmente.
Foto de Kevin Schafer, Minden Pictures/Nat Geo Image Collection

"Os números que as instalações de criação [indonésias] estão divulgando são simplesmente loucos", diz Summerell, que não estava envolvido no estudo. "Não há como você criar isso dentro desse período, já que pesquisadores australianos fizeram muita pesquisa sobre esses animais e não estão obtendo esses números".

Shepherd diz que ele e outras pessoas visitaram armazéns nos arredores da capital da Indonésia, Jacarta, onde supostamente as equidnas são criadas. As construções, diz ele, estão cheias de prateleiras com centenas de caixas plásticas ou pequenas gaiolas de arame contendo vários animais, de répteis a mamíferos. Segundo ele, esses lugares não podem ser cativeiros - eles carecem de infraestrutura, como espaço e abrigo adequados em longo prazo. Em vez disso, eles apresentam todos os sinais de um lugar de tráfico de animais selvagens para os mercados do exterior.

 “As instalações não são adequadas para criar equidnas, e as equidnas, enquanto espécie, não são adequadas para reprodução em cativeiro”, diz Shepherd.

De acordo com os registros do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA nos anos de 2009 a 2017, a S&S Exotic Animals - uma empresa em Houston, Texas - adquiriu 16 equidnas da Indonésia entre 2011 e 2013. Em 2013, a S&S Exotics, cuja conta do Twitter possui a foto de uma equidna, importou seis animais de um exportador indonésio, PT Alam Nussantara Jayatama, com um valor total declarado de US$ 15 mil. Esse número é a metade das equidnas que o Zoológico de Perth produziu em um período de 11 anos.

O PT Alam Nussantara Jayatama é dirigido por Danny Gunalen,  autor e proprietário do zoológico Faunaland, em Jacarta. Dos 16 animais vendidos à S&S Exotics, 11 estão listados nos registros do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA como fonte F - uma designação para animais nascidos em cativeiro que não atendem à definição mais rigorosa de criados cativos da Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Ameaçadas de Extinção, que regula o comércio transfronteiriço de animais selvagens.

Nossas tentativas de entrar em contato com Gunalen para obter informações sobre seu programa de criação não tiveram êxito. Além disso, a S&S Exotic Animals não respondeu nenhum de nossos vários pedidos de comentários sobre as equidnas que obtiveram de PT Alam Nussantara Jayatama.

O Departamento de Recursos Naturais e Conservação de Ecossistemas da Indonésia, do Ministério do Meio Ambiente e Florestas, é responsável por administrar cotas de equidna e emitir permissões de comércio. Inúmeras tentativas de pedir a Wiratno, diretor geral do departamento, a cota de equidna de 2019 e as informações sobre o número de animais sendo criados e vendidos não tiveram êxito. Perguntas sobre cotas endereçadas a Indra Exploitasia, diretora de Conservação da Biodiversidade, outro departamento do Ministério do Meio Ambiente e Florestas que supervisiona a criação em cativeiro, também não foram respondidas. Tentativas de estabelecer quantas equidnas são criadas e comercializadas a partir de Papua Nova Guiné não tiveram sucesso.

Dificuldade em identificar

Determinar se um equidna é natural - e, portanto, ilegal - é algo difícil de ser feito nos portos de entrada, como observa este Relatório Mundial Sobre Crimes de Animais Selvagens da ONU, e a aplicação da lei é ainda menos provável nos países de origem que nos pontos de entrada dos países importadores. As autoridades testam parasitas, que diferem entre animais selvagens e em cativeiro, mas esse indicador é imperfeito porque os animais mantidos juntos podem compartilhar os mesmos parasitas.  

Rara equidna albina é flagrada na Tasmânia
Rara equidna albina é flagrada na Tasmânia
Um dos raros mamíferos ovíparos, estes pequenos animais são parentes dos ornitorrincos e ocorrem somente na Oceania.

"Não há nenhuma ferramenta que os oficiais tenham para afirmar se um animal foi retirado da natureza ou criado legalmente", diz Kate Brandis, pesquisadora do Center for Ecosystem Science, da University of New South Wales, em Sydney. Para ajudar a resolver esse problema, Brandis diz que é necessária uma ferramenta para "uso em campo que não seja destrutiva e que forneça uma resposta relativamente rápida".

Ela e seus colegas estão trabalhando nessa solução. Eles desenvolveram um teste nos espinhos da equidna, que são feitos de queratina, o mesmo material das nossas unhas. (Com o tempo, os espinhos caem naturalmente ou se tornam fracos e podem ser extraídos sem dor.) A dieta de uma equidna, identificada na queratina, pode indicar com certeza de onde ela veio. Usando fluorescência de raios-X de alta resolução, os pesquisadores escanearam os espinhos e classificaram os resultados em criadas em cativeiro e capturadas na natureza. Agora eles precisam de financiamento para produzir um protótipo de um dispositivo portátil para os agentes da lei experimentarem.

Enquanto isso, Alexandra Summerell desenvolveu um teste de laboratório que usa DNA mitocondrial obtido da raiz de espinhos de equidna para determinar se um animal se originou, digamos, na Nova Guiné ou na Austrália. Ela validou o teste para garantir sua consistência, tornando-o aceitável como prova em processos judiciais. 

“Se um zoológico quiser saber se [uma equidna] é legítima ou não, eles podem me enviar um espinho, e eu posso inseri-lo nos meus dados e ver onde ele se encaixa. Se estiver com os da Nova Guiné, uma boa ideia é rever a origem do animal.” Isso ocorre porque há uma boa chance de que uma equidna originária da Nova Guiné tenha sido traficada, enquanto uma equidna australiana pode ter sido negociada entre instituições ou ferida na natureza e enviada para um centro de recuperação.

Summerell diz que seus resultados de pesquisa sugerem que o teste também será capaz de identificar a região específica de onde a equidna veio.

O próximo passo será usar as descobertas sobre o pedigree das equidnas-de-focinho-curto para avaliar as relações entre os animais e saber se as equidnas vieram do mesmo criador. Summerell quer estender o teste para determinar a procedência de equidnas-de-focinho-longo-ocidentais, criticamente ameaçadas, uma das quais foi encontrada recentemente durante uma apreensão de animais nas Filipinas.

Fraca aplicação da lei

Nenhum teste, por mais preciso e fácil de aplicar, é eficaz sem aplicação rigorosa da lei.

Se as regras de licenciamento e a supervisão dos países exportadores forem frouxas, diz Chris Shepherd, da Monitor, o comércio ilegal de equidnas selvagens continuará. Os países importadores devem ser mais rigorosos na aplicação de regulamentos e controles. Os exportadores de animais selvagens conhecem as leis, mas geralmente aproveitam a indulgência dos países importadores e a corrupção ao longo da cadeia de suprimentos, diz ele.

Quando animais selvagens exóticos fraudulentamente declarados como criados em cativeiro entram em um país, cabe às autoridades do país importador provar o contrário, e isso, ele diz, é praticamente impossível. Faltam fundos, treinamento, equipe e ferramentas, como o dispositivo que Brandis está desenvolvendo. Os EUA, por exemplo, têm apenas 122 inspetores de vida selvagem em seus portos de entrada - muito poucos para examinar todas as importações, de acordo com o relatório  da Defenders of Wildlife, organização de conservação sem fins lucrativos.

"Os países importadores devem começar a jogar duro", diz Shepherd. “Se você não pode provar que esses animais são provenientes de uma operação legítima de criação em cativeiro que está legitimamente criando animais para a segunda geração, não permitiremos importação. Essa seria a coisa responsável a fazer.”

Além disso, diz Shepherd, importadores e compradores de equidnas devem se educar sobre lavagem de animais silvestres e compras ilegais antes de adquiri-las. As equidnas não estão ameaçadas agora, mas tirar animais da natureza pode levar a isso. “Onde vamos determinar o limite? Você pode ter qualquer animal como um animal de estimação, não importa se ele será extinto ou não, desde que você consiga uma permissão para isso, isso está certo?

Ele acrescentou que é assim que um animal fica criticamente ameaçado - ou pior.

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