Cacatuas selvagens aprendem a abrir lixeiras umas com as outras

Há algumas décadas, esses comportamentos culturais eram considerados uma característica exclusivamente humana.

Publicado 9 de ago. de 2021 07:00 BRT
cockatoo

Cacatuas-de-crista-amarela são aves comuns em áreas desenvolvidas habitadas por humanos no leste da Austrália.

Foto de ROBERT CLARK, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

 

Os psitacídeos podem imitar a fala humana, mover-se no ritmo da música e até mesmo ajudar outras aves. Uma nova pesquisa mostra que essas aves, que possuem um cérebro grande, também podem aprender novos comportamentos umas com as outras, o que décadas atrás era considerado uma característica exclusivamente humana.

Em Sydney, na Austrália, algumas cacatuas-de-crista-amarela — uma ave barulhenta e gregária comum nas cidades do leste da Austrália — descobriram como abrir latas de lixo, um comportamento que outras cacatuas copiaram rapidamente, permitindo-lhes explorar um novo recurso alimentar.

Essa descoberta significa que os papagaios “entraram para o grupo de animais que apresentam comportamentos culturais”, revela a ecologista comportamental Barbara Klump, líder do estudo publicado recentemente na revista científica Science.

Outras espécies sociais com cérebros grandes e que vivem por muitos anos, como corvos, grandes símios e cetáceos, praticam a chamada cultura de forrageamento — por exemplo, os chimpanzés mostram uns aos outros novas maneiras de abrir nozes. “Era de se esperar que os psitacídeos também apresentassem todos esses comportamentos, mas não tínhamos evidências disso” — até agora, esclarece Klump, explorador da National Geographic que faz parte da equipe do Instituto Max Planck de Comportamento Animal da Alemanha.

Em parte, essa falta de evidência é devido ao fato de que, embora os psitacídeos criados em cativeiro sejam amplamente estudados — considere o Alex, o papagaio-cinzento, que tinha a inteligência de uma criança de 3 anos de idade — é mais difícil observar o comportamento cultural em papagaios selvagens. Por um lado, em uma paisagem selvagem é difícil observar todos os fatores que podem influenciar as ações das aves.

Mas, como as cacatuas-de-crista-amarela de Sydney vão sempre às mesmas latas de lixo, foi possível obter uma configuração de estudo ideal para Klump observar esses atrevidos “exploradores urbanos”, conta ela.

Essas belas aves brancas de 60 centímetros de altura com cristas na cabeça de cor amarelo vibrante são nativas do leste da Austrália e das ilhas vizinhas do Pacífico. Ao contrário da maioria das 350 espécies conhecidas de papagaios, a população de cacatuas-de-crista-amarela está aumentando, principalmente em ambientes urbanos. Mas muitas vezes são consideradas pragas nesses ambientes devido aos seus hábitos destrutivos, como mastigar varandas.

Pessoas que estudam psitacídeos não estão de fato surpresas com a descoberta de sua característica de aprendizado social, afirma Timothy Wright, biólogo da Universidade Estadual do Novo México que estuda o aprendizado vocal em psitacídeos e que não participou do estudo. Ainda assim, segundo Wright, a pesquisa amplia nosso conhecimento sobre os psitacídeos como seres altamente inteligentes.

“Gosto de chamar os psitacídeos de aves mais humanas”, brinca ele, “e isso é mais uma evidência nesse sentido”.

 

Padrão previsível de aprendizagem das cacatuas

Em meados da década de 2010, os cientistas ouviram falar sobre cacatuas que abriam latas de lixo nos subúrbios ao sul de Sydney. “A parte interessante é que esse recurso alimentar está em toda parte e as aves também, mas não observamos o comportamento em todos os lugares”, diz Klump.

Ela e sua equipe realizaram uma pesquisa on-line nas áreas metropolitanas de Sydney e Wollongong, perguntando às pessoas se as cacatuas residentes naquela área conseguiam abrir latas de lixo. Moradores de cerca de 400 subúrbios responderam.

A primeira pesquisa, realizada em 2018, confirmou que pessoas em três subúrbios ao sul notaram as aves abrindo latas de lixo com seus bicos e garras. No fim de 2019, as pesquisas mostraram que o número de subúrbios onde aves apresentavam esse comportamento havia subido para 44. Traçar os dados em um mapa revelou que o comportamento se espalhava em um padrão previsível — segundo Klump, uma evidência de que a abertura do compartimento foi algo aprendido e não aleatório.

Com o tempo, as aves desenvolveram diversas técnicas para abrir as latas de lixo, como usar os pés ou o bico de maneiras diferentes. Esta é uma evidência de subculturas regionais, de acordo com o estudo.

No decorrer do estudo, os cientistas passaram um tempo se familiarizando com o habitat de cerca de 500 cacatuas suburbanas. Depois que os pássaros se acostumaram com a presença dos cientistas, foram utilizadas esponjas de maquiagem para pintar a pena dos pássaros com tinta não tóxica, de forma a rastrear quais animais conseguiam abrir as latas.

Dos 500 que foram marcados, apenas 10% as abriam. A maioria deles era macho — possivelmente porque os machos são mais dominantes na hierarquia social da cacatua-de-crista-amarela, ou porque são maiores e, portanto, mais fisicamente capazes de abrir as latas, explica Klump. O comportamento não era mais prevalente em nenhuma faixa etária, as aves jovens foram tão capazes de abrir lixeiras quanto as mais velhas.

Ciência de colaboração pública

O estudo “demonstra claramente que as cacatuas podem e mudam seus comportamentos alimentares para explorar novos recursos. E que o comportamento é transmitido e sustentado ao longo do tempo — pelo menos no decorrer desse estudo”, afirma Daniella Teixeira, ecologista da Universidade de Queensland, na Austrália, que estuda cacatuas-australianas.

Ela diz que a pesquisa “nos dá alguma esperança” de que as espécies de cacatua ameaçadas de extinção possam aprender novas maneiras de encontrar alimento e compartilhar esse conhecimento com seu bando, ela diz. Espécies ameaçadas de extinção incluem a cacatua-preta-de-cauda-vermelha do sudeste da Austrália, que possui menos de 1,5 mil exemplar na natureza.

Teixeira também elogia o estudo por usar a ciência cidadã, ou ciência comunitária, como ferramenta de pesquisa para estudar psitacídeos selvagens. “É legal ver essa disseminação de comportamento em um curto espaço de tempo, e ainda mais legal que isso seja feito por meio da ciência cidadã”, conta ela. “É uma abordagem inovadora.”

Essa colaboração pública, bem como a técnica não invasiva dos cientistas de marcar as aves com cores, também impressiona Wright. “O estudo como um todo é muito inovador por utilizar abordagens variadas”, comenta ele, particularmente em psitacídeos selvagens pouco estudados.

“Sempre soubemos que os psitacídeos eram animais muito espertos”, conclui ele.

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