Quando o mundo reabrir, será que ainda existirão museus de arte?

Com as dificuldades enfrentadas devido aos fechamentos causados pela pandemia de covid-19 e a consequente perda de receitas, as galerias reagem com exposições inovadoras, atividades on-line e protocolos de segurança.

Por Christine Spolar
Published 15 de jan de 2021 13:00 BRST
Visitantes descem a Escadaria Bramante, nos Museus do Vaticano na Itália, em 8 de junho de ...

Visitantes descem a Escadaria Bramante, nos Museus do Vaticano na Itália, em 8 de junho de 2020. Antes da pandemia de covid-19, o local tinha uma média de 25 mil visitantes por dia. Mas durante sua reabertura no meio do ano, os museus de antiguidades e de arte receberam apenas cerca de três mil pessoas por dia. No fim de 2020, os Museus do Vaticano fecharam novamente devido aos fechamentos do governo.

Foto de Marco Di Lauro, Getty Images

NO INÍCIO DE MARÇO de 2020, a escultora e videoartista Andrea Stanislav planejou passar alguns poucos dias em Pittsburgh, no estado da Pensilvânia, nos EUA, para se preparar para uma exposição que ocorreria no segundo semestre, uma parada no caminho entre seu trabalho como professora em Indiana e seu estúdio em casa, em Nova York. Ela havia agendado algumas conversas no Mattress Factory, museu de arte contemporânea onde ficaria como artista residente no fim do ano.

Mas em 13 de março, no meio de sua primeira reunião de negócios, Stanislav se tornou uma artista residente desesperada no museu, ocupando diversos prédios industriais do século 20 com obras de Yayoi Kusama e do alquimista da luz James Turrell. A covid-19 estava chegando.

“Eram 11 horas da manhã. De repente, durante a reunião, as pessoas agarraram os telefones e olhavam ansiosas para todos os lados. Ficou claro que algo estava acontecendo”, contou ela. “Finalmente, disseram: ‘se você deseja pesquisar sobre qualquer um dos outros museus, precisa fazê-lo ‘hoje’.”

“Fiz uma maratona ao Centro Heinz, os museus Carnegieo museu Warhol. Tomei uma vodca com tônica depois de tudo para acalmar os nervos”, conta Stanislav. “Rapidamente, tudo estava se transformando em um mundo desconhecido.”

No dia seguinte, museus e outras instituições culturais em Pittsburgh e em todo o mundo interromperam suas atividades. Stanislav acabou morando por meses no apartamento destinado a artistas, mantido pelo Mattress Factory, uma temporada que mudou radicalmente o enfoque de sua instalação. Ela se tornou um dos milhares de artistas e funcionários de museus, galerias e salas de exposição que perceberam como a pandemia de covid-19 poderia alterar tudo.

O ano de 2020 foi uma época de crise, inovação, ansiedade e introspecção para todas as empresas, especialmente para museus. As proibições de viagens quase arruinaram os modelos de negócios de grandes galerias em cidades com turismo internacional intenso. Museus regionais menores encontraram uma oportunidade surpreendente à medida que suas instituições emergiram como símbolos de criatividade colaboradora em suas comunidades. Veja como alguns espaços de exibição dos Estados Unidos estão enfrentando os desafios criados pela covid-19.

Pittsburgh, na Pensilvânia, que costumava ser um grande centro industrial, hoje é também um centro cultural com diversas galerias de arte, como o Museu de Arte Carnegie.

Foto de Emiliano Granado, Redux

Inovações com origens na necessidade

Alguns museus usufruíram de uma nova onda de interesse por parte de moradores ou residentes de cidades vizinhas. “As pessoas estão visitando museus locais em suas comunidades”, afirmou Colleen Dilenschneider, diretora de engajamento de mercado da Impacts Experience, empresa de pesquisa que avalia o comportamento de consumidores em 224 centros culturais e de museus dos Estados Unidos. “As pessoas estão buscando passeios de um dia.”

Quase todos os museus do país aumentaram suas opções digitais com exibições on-line, videochamadas com curadores e atividades virtuais infantis. Muitos também estão repensando seu alcance e acervos em uma época de turbulência e mudanças tecnológicas aceleradas nos Estados Unidos, debatendo como a injustiça racial e social se reflete em sua arte.

Em dezembro de 2020, por exemplo, o Museu de Arte de Baltimore, em Maryland, anunciou que só iria adquirir obras de artistas mulheres no próximo ano fiscal. Como parte de uma resposta mais ampla às questões levantadas pelos protestos do movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter), o Museu de Arte de Nova Orleans fechou seu Salão Greenwood, no qual havia uma exposição sobre a decoração de casas de latifúndios da década de 1850, que muitas pessoas consideravam uma glorificação de donos de escravos.

Com uma perspectiva prática de combate à covid-19, os diretores e funcionários passaram a entender a mecânica de seus ambientes de trabalho, como a ventilação e a transmissão de vírus pelo ar. Esse conhecimento levou muitas instituições a reabrirem no meio do ano com precauções de segurança (máscaras, distanciamento social) e a fecharem novamente quando o contágio pelo novo coronavírus aumentou em novembro.

“Ao tomar decisões, estamos tentando ser o mais claros, justos e transparentes possível. Após observar a taxa de infecção, todos sabíamos que era uma questão de quando fecharíamos novamente, e não se o faríamos”, afirmou Hayley Haldeman, diretora executiva interina do Mattress Factory. “É uma faca de dois gumes, ambos os lados cegos e dolorosos. Não há muito mais que possa ser feito em 2020”.

A reabertura em 2021 certamente será mais fácil, com exposições como a de Stanislav atualmente agendada para o segundo trimestre.

O preço dos fechamentos

Nenhum museu escapou das incertezas e dúvidas sobre sua sobrevivência devido ao fechamento da pandemia de covid-19 e à queda nas receitas. Entre abril e maio de 2020, o Conselho Internacional de Museus pesquisou a respeito dos efeitos da pandemia sobre museus de 106 países, constatando que mais de 80% deles esperavam reduzir sua programação e 10% poderiam fechar permanentemente.

Oscilações nos casos do novo coronavírus fizeram com que galerias em LondresParisRoma reabrissem no fim de junho e fechassem novamente no fim de setembro durante novos bloqueios. Nos Estados Unidos, a Aliança Americana de Museus descobriu que um terço dos 850 museus pesquisados ainda estavam fechados em outubro e mais de 10% estavam preocupados em nunca mais reabrirem as portas. Em algumas cidades menores dos Estados Unidos, a crise levou diretores de museus a liderarem iniciativas amplas e criativas para sobreviverem.

Visitantes do Museu Tate Modern de Londres ao redor da Fons Americanus, de Kara Walker, em março de 2020, pouco antes do fechamento da galeria devido à covid-19. Este e outros museus de arte fecharam novamente no fim de 2020 em todo o Reino Unido, devido às restrições governamentais em razão da pandemia em curso.

Foto de Mary Turner, The New York Times/Redux

Veja o exemplo de Pittsburgh, cidade de 300 mil habitantes, que conta com 50 museus e centros culturais, um legado de sua riqueza industrial do início do século 20. Steven Knapp, o novo executivo dos quatro Museus Carnegie, assumiu seu cargo em 1o de fevereiro, poucas semanas antes de uma paralisação na Pensilvânia, imposta pelo governo.

Durante os primeiros dias da pandemia de covid-19, Knapp e líderes de outras instituições locais (a casa Fallingwater de Frank Lloyd Wright, o Centro Cultural Afro-americano August Wilson) recorreram a teleconferências quinzenais pelo Zoom para definir normas de segurança e protocolos de reabertura.

“Para uma cidade de seu porte, Pittsburgh é uma das cidades culturais mais ricas do país. Queríamos que as pessoas voltassem e sentissem que tiveram uma boa experiência”, comentou Knapp. Para tanto, quando os museus começaram a permitir o retorno dos turistas no meio do ano, havia adesivos indicativos do distanciamento social no chão, guardas exigindo o uso de máscaras e, na maioria dos locais, ingressos com horário marcado.

As medidas de segurança resultaram em taxas de visitação maiores nos museus de Pittsburgh do que em museus nacionais. “Em julho, tínhamos um quarto do movimento normal. Atualmente há entre 40% e 50%, e houve um aumento de 80% da frequência em relação ao ano passado”, afirmou Knapp. “É apenas uma questão de administrar a circulação e manter os padrões de fluxo de visitantes em um único sentido.”

Em Ohio, o Museu de Arte de Toledo — com suas obras modernas e renascentistas impressionantes — teve um aumento no número de visitantes pela primeira vez durante a pandemia. Por quê? “É algo natural, uma maneira de sair de casa”, explicou o diretor Adam M. Levine. Ele acredita que os frequentadores de museus buscam entretenimento, ânimo e lições sobre como outras pessoas enfrentaram tempos difíceis no passado.

Adaptando museus aos tempos difíceis

Os museus dispõem de uma ampla gama de modelos de negócios, alguns dependem intensamente de doações, outros dos preços dos ingressos ou de locações para eventos especiais. Muitos não esperam que suas receitas retornem aos níveis de 2019 por pelo menos mais um ano. Mas alguns museus mantidos por impostos locais ou grandes doações têm um futuro financeiro menos sombrio.

Mesmo museus que não estão ameaçados de fecharem ou que não sofreram cortes nos programas foram paralisados pela pandemia de covid-19. O Museu de Arte de Saint Louis (SLAM), aberto desde 1879 na cidade de Saint Louis, próxima ao rio Missouri, precisou reformular sua programação de exposições, pois os credores internacionais relutaram em enviar verdadeiros tesouros ao exterior sem garantias de como e quando suas obras de arte poderiam voltar ao seu local de origem. Seus curadores decidiram “fazer exposições com o que havia disponível”, afirmou o porta-voz Matthew Hathaway, o que resultou na Storm of Progress (“Tempestade do Progresso”, em tradução livre), exposição de 120 peças de artistas alemães encontradas nos acervos do SLAM.

“Temos orgulho de ter um acervo alemão equiparável a qualquer outro fora da Alemanha”, afirmou Hathaway. “Ele estabelece uma conexão direta com nossa comunidade e cultura. Era óbvio o que podia ser feito”. A mostra resultante é protagonizada por obras que incluem Cristo e a Pecadora, a mensagem de não violência do pintor Max Beckmann em 1917, e os diagramas irônicos de Sigmar Polke.

“Os museus estão analisando seus acervos e se questionando: ‘como explorar esses acervos de uma maneira inédita?’”, contou Hathaway.

A pandemia atual como catalisador criativo

A escultura italiana de mármore do século 16, “Pã reclinando-se”, é uma das obras europeias em exposição no Museu de Arte de St. Louis. O local contou com seu próprio acervo para montar uma mostra de arte alemã durante a pandemia de covid-19.

Foto de Saint Louis Art Museum

Em Pittsburgh, Stanislav descobriu que a covid-19 redirecionou sua arte.

Durante o período de sua residência, ela planejou filmar os rios e colinas de florestas da região com um drone, explorando a paisagem natural da Pensilvânia.

Mas após passar meses no lado norte da cidade, caminhando pelas ruas onde antes viviam operários de usinas e observando os vizinhos tocando violino ou cantando de suas sacadas, ela voltou a concentrar seu trabalho na comunidade local. Stanislav, cujos ancestrais vieram de Praga, começou a prestar atenção à população de imigrantes da cidade e a considerar as pragas biológicas e artificiais às quais essa população sobreviveu.

Depois de conhecer o Tamburitzans, trupe de dança folclórica croata afiliada à Universidade Duquesne da região, Stanislav decidiu aproveitar o movimento para se aprofundar na experiência da imigração em Pittsburgh. Ela filmou a trupe em ação no Carrie Blast Furnaces, marco histórico nacional com ruínas imponentes da indústria siderúrgica de Pittsburgh entre o século 19 e o início do século 20.

O medo imposto pelo novo coronavírus e a chuva atrasaram algumas filmagens. “Passei muito tempo ali”, disse Stanislav. “Esse período proporcionou ao projeto uma maneira de permear e assimilar diretamente a época atual.”

Em um dia ensolarado no início de novembro, Stanislav se encontrou com uma dezena de dançarinos utilizando máscaras, túnicas bordadas e chapéus de feltro. Alguns deles tiveram bisavós que outrora trabalharam nos bairros pobres próximos à usina siderúrgica. A maioria estava ciente das condições difíceis na usina e dos motivos dos protestos contra os turnos de 12 horas e baixos salários no fim da década de 1890. A Greve de Homestead, conflito sangrento ocorrido em 1892 entre metalúrgicos e uma milícia comandada pela siderúrgica, deixou ao menos 10 pessoas mortas de ambos os lados e muitas outras feridas, silenciando esse solo sagrado.

Durante as filmagens de Stanislav, os dançarinos começaram a girar cada vez mais rápido em meio aos cascos de metal enferrujados, evocando uma dança macabra misteriosa. Posteriormente, um cavalo branco apareceu. Uma única dançarina montou nele e foi embora.

“Foi uma homenagem aos seus ancestrais”, contou Stanislav. “Era preciso fazer uma pausa e apreciar a beleza e o momento. Foi um momento de catarse a todos e uma metáfora de que a dança é uma forma de observação e de permanecermos humanos”.

 
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