Espaço

Mistério da "megaestrutura alienígena" em estrela é revelado

A estrela de Tabby ficou famosa quando alguns cientistas propuseram que as falhas na luz emitida pelo astro eram causadas pela passagem de uma estrutura construída por ETs.quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Por Nadia Drake
Cientistas dizem que o brilho errático da estrela KIC 8462852, também chamada de estrela de Tabby, não pode ser explicado pela presença de uma megaestrutura alienígena que filtraria igualmente todos os comprimentos de luz.

Más notícias para os ufólogos e aficionados por vida alienígena: cientistas concluíram que o brilho errático da estrela mais misteriosa do céu não é fruto do trabalho de ET’s, mas de poeira.

Por anos, essa estrela enigmática da constelação de Cisne intrigou astrônomos com seus surtos aleatórios de brilho. Maior e mais brilhante que o Sol e apelidada de Estrela de Tabby, o estranho astro ganhou fama quando cientistas propuseram que megaestruturas construídas por alienígenas poderiam bloquear sua luz ao passar na frente da estrela.

Mas novas observações sugerem que a culpada é a poeira – talvez restos de um planeta ou uma lua destruídos recentemente. Mas mesmo sendo a velha conhecida poeira, menos empolgante que ET’s engenheiros, ainda há muita investigação cósmica a ser feita.

“Adoro um bom mistério, especialmente quando todas as nossas melhores ideias são jogadas pela janela. Significa que precisamos nos divertir mais”, fala Jason Wright, da Universidade Estadual da Pensilvânia. “O fato de no fim das contas ser a velha e tediosa poeira, segundo alguns, é o que todos esperávamos. Mas fico feliz que ainda temos um bom e saudável mistério para nos ocupar”.

Piscadela misteriosa

O mistério começou em 2011, quando cientistas amadores do projeto Planet Hunters analisavam dados da espaçonave Kepler, da Nasa, que nos seus quatro anos de observações primárias identificou mais de 2,3 mil planetas. Quando planetas passam entre suas estrelas e a Terra, eles causam uma pequena e previsível falha na luz de sua estrela.

Mas as falhas, ou piscadas, que Kepler observou na estrela de Tabby não correspondiam a nada remotamente parecido com a sombra de um planeta. Em vez disso, pareciam muito mais intensas e quase que totalmente aleatórias. Alertados sobre o comportamento esquisito da estrela, antes chamada de KIC 8462852, astrônomos não conseguiram elaborar uma explicação razoável para o que observaram.

Ela simplesmente não se comportava como nenhuma outra estrela no céu – e as falhas na luz eram apenas um pedaço do quebra-cabeças.

As hipóteses eram muitas. Podia ser uma chuva de cometas que orbitava a estrela, um empoeirado disco entre um buraco-negro e a Terra, material dentro do nosso próprio sistema solar, ou, finalmente, megaestruturas alienígenas.

A ideia, publicada por Wright em 2015, colocou a estrela no imaginário público. Notícias sobre a ideia saíram em todos os jornais e a cada nova pista novas reportagens eram publicadas.

“Acredito que a conexão com SETI é absolutamente a razão pelo interesse do público na estrela de Tabby ser tão grande”,  disse Andrew Siemion, diretor do Centro de Pesquisa SETI de Berkeley. “Todos nos perguntamos a mesma coisa quando olhamos o céu noturno: tem alguém aí?”

Detetive de estrelas

Motivado pelo novo mistério, equipes de cientistas analisaram dados de mais de um século em busca de padrões que poderiam revelar a fonte do enigmático brilho da estrela. No começo, parecia que as falhas na luz da estrela aconteciam em períodos de aproximadamente 800 e 1,5 mil dias, o que poderia significar detritos em órbita (hoje, cientistas não têm tanta certeza sobre isso). Outros dados sugerem que, independente das eventuais falhas, a luz da estrela está ficando consistentemente mais fraca (os cientistas também já não estão mais completamente certos sobre isso).

Astrônomos apontaram um de seus radiotelescópios mais sensíveis em direção à estrela. Eles esperavam ouvir murmúrios de uma civilização inteligente o suficiente para construir estruturas tão grandes que às vezes bloqueavam a luz da estrela. Não ouviram nada.

Ilustração mostra cometas passando na frente da estrela de Tabby, outra teoria sobre o que estaria causando o brilho errático.

Resumindo, nenhuma explicação dava conta das observações atuais.

Então, a astrônoma Tabetha Boyajian, de quem a estrela ganhou seu atual nome informal, começou uma campanha na plataforma de financiamento coletivo Kickstarter que arrecadou 100 mil dólares.  O montante a permitiu utilizar o poder de uma variedade de instrumentos terrestres. Seu objetivo? Flagrar a estrela no momento da falha e ter uma melhor visão do que estaria bloqueando a luz – em tempo real.

As observações começaram em março de 2016 e continuaram até dezembro de 2017. Em maio do ano passado, Boyajian teve sorte: sua estrela começou a se apagar. Quase que imediatamente, uma dezena de telescópios da Terra se viraram para observar a estrela – cientistas furiosamente coletando dados em praticamente todos os comprimentos de onda de luz. Depois de muitos meses e quatro falhas diferentes (chamadas de Elsie, Celeste, Scara Brae e Angkor), a estrela deixou de ser visível para telescópios do hemisfério norte.

“Foi meio surreal ver acontecer em tempo real e poder fazer o que sempre falamos que queríamos fazer: observá-la durante uma falha”,  ela diz.

Hoje, Boyajian e mais de 200 colaboradores analisaram dados dos últimos 22 meses e reportaram no periódico The Astrophysical Journal Letter que poeira faz a luz falhar – a teoria das megaestruturas alienígena foi definitivamente descartada.

 A equipe sabe disso porque seja lá o que for que causa a falha, não se trata de uma estrutura sólida.

“Se um objeto sólido e opaco como uma megaestrutura passasse na frente da estrela, ele bloquearia a luz igualmente em todas as cores”, disse Boyajian, na Universidade Estadual da Lousiana. “Isso vai de encontro ao que observamos”.

Em vez disso, a poeira filtra diferentes cores de formas diferentes. Basicamente, é mais parecido com olhar a luz de uma estrela através de um pano fino do que através de uma tela rígida de aço.

“A teoria das megaestruturas sempre foi um chute distante, mas a história de como ela surgiu é válida. Tinha que ser ventilada”, disse SteinN Sigurdsson, da Universidade Estadual da Pensilvânia, que propôs de um buraco-negro cercado por detritos.

Estrela da morte?

A origem da poeira em torno da estrela de Tabby ainda é um mistério. Seu comportamento – que produz falhas de intensidade e tempo variados – não é o que cientistas esperavam ver de aglomerados de matéria circulando regularmente a estrela. A poeira deveria escurecer a estrela em intervalos previsíveis enquanto oscila em órbita. Também não há indicações de que a poeira é quente, o que significa que ela deve estar bem distante da estrela. Além disso, os grãos de poeira são muito pequenos, bem menores que os da fumaça de cigarro, e tão finos que deveriam ter sido soprados para longe pela luz da estrela.

Essa última observação indica que deve existir uma reserva de onde a poeira é abastecida – uma pista de que algo catastrófico aconteceu, ou ainda está acontecendo, próximo a estrela de Tabby. Isso se a poeira for circunstelar, isto é, estiver em torno da estrela.

“Se ela for circunstelar, precisamos entender porque uma banal estrela F está fazendo isso e quão comum é esse comportamento”, disse Sigurdsson. “ Pode ser que precisemos observar mais de 10% das estrelas para flagrar uma durante o ato, o que também é curioso”.

Em 2016, Brian Metzger, da Universidade Columbia, propôs que, talvez, a estrela de Tabby tinha pulverizado um planeta rochoso ou uma lua maligna que se aproximou demais, deixando um cadáver empoeirado em sua órbita. Ou talvez ela despedaçou uma nuvem de objetos congelados como os que vivem além de Netuno e que depois foi puxada pela estrela mais próxima, uma anã-vermelha.

A verdade é que, mesmo os cientistas sabendo que o comportamento errático da estrela de Tabby não é coisa de ET, eles ainda estão só um pouco mais perto de explicar o quebra-cabeça interestelar.

“Muitas dessas coisas são pistas tentadoras, e nós não sabemos se são falsas ou são a peça que falta no quebra-cabeça”, disse Wright. “Mas meio que parece um mistério de Sherlock Holmes. Você não tem certeza quais indícios vão ser importantes no fim ou quais são uma grande perda de tempo”.  

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