Uma dessas astronautas pode ser a primeira mulher a pisar na Lua

Dezoito astronautas norte-americanos foram escolhidos para participar de treinamento para as missões Artemis, que visam levar os humanos à superfície lunar novamente.

Publicado 16 de dez de 2020 08:00 BRST
Astronauta da Nasa, Christina Koch, tira uma selfie no espaço com a Terra atrás dela. Ela ...

Astronauta da Nasa, Christina Koch, tira uma selfie no espaço com a Terra atrás dela. Ela e sua colega Jessica Meir, também astronauta da Nasa, aventuraram-se no vácuo do espaço por sete horas e 17 minutos durante a primeira caminhada espacial exclusivamente feminina em 18 de outubro de 2019.

Foto de Christina Koch, NASA

QUASE 50 ANOS se passaram desde a última vez que pisamos na Lua, quando a missão Apollo 17 da Nasa, com três tripulantes, pousou próxima à borda de um mar de lava antigo, conhecido como Mare Serenitatis.

Agora, a agência espacial está novamente trabalhando para chegar à superfície lunar, acelerando um programa chamado Artemis, que poderia levar seres humanos de volta à Lua ainda nesta década. Desta vez, porém, os homens não serão os únicos participantes da jornada: a Nasa promete que o voo inaugural da missão Artemis levará a primeira mulher a fincar suas botas na poeira lunar, repleta de partículas pontiagudas.

Hoje, a agência espacial finalmente revelou quais de seus 47 astronautas em operação foram designados à Artemis para receberem treinamento com o objetivo de permitir o retorno da humanidade à Lua.

“Nosso objetivo é ir à Lua de forma sustentável, para aprender como viver e trabalhar em outro mundo”, disse o administrador da Nasa, Jim Bridenstine, durante uma reunião do Conselho Espacial Nacional, ao anunciar o nome dos 18 astronautas selecionados para o treinamento.

O astronauta da Nasa Scott Tingle (à direita) está entre os selecionados para o treinamento para as missões Artemis. Nesta imagem, ele e seu colega Steve Swanson treinam para caminhadas espaciais no Laborátório de Flutuação Neutra, próximo ao Centro Espacial Johnson da Nasa, em Houston, Texas.

Foto de NASA

Enviar humanos em uma viagem de ida e volta à superfície de outro mundo talvez seja a principal conquista de um programa espacial. Mas essas viagens são traiçoeiras, e concluí-las com segurança requer anos de treinamento — justamente por isso que os astronautas da Nasa estão começando a se preparar para uma possível missão lunar.

“O voo espacial não é para os impacientes. É perigoso e muito complicado”, afirma a astronauta da Nasa Nicole Mann, piloto de testes da marinha e veterana de combate que participará do treinamento para a Artemis. “Temos um grupo de pessoas trabalhando juntas, não apenas nos Estados Unidos, mas também na comunidade internacional, que se unirá para que a missão seja bem-sucedida.”

Nenhum dos 18 astronautas foi designado para missões específicas da Artemis ainda. A Nasa também divulgou que outros astronautas, incluindo alguns de parceiros internacionais, irão se juntar à equipe no futuro. Mas esse grupo é o primeiro a começar a se preparar para as missões lunares do século 21 da Nasa.

Dos 18, nove são mulheres — e uma delas tem grandes chances de ser a primeira a andar na Lua. O grupo conta com pilotos experientes, como Christina Koch, dona do mais novo recorde de voo espacial de maior duração para uma mulher, além de Victor Glover e Kate Rubins, que estão atualmente a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS). Os outros são novatos, a maior parte das turmas de astronautas de 2013 e 2017.

“Quando penso sobre o programa Artemis, minha criança interior fica super animada, como aconteceria com qualquer pessoa”, conta o astronauta da Nasa Frank Rubio, veterano da linha de frente do exército e médico das forças especiais que foi selecionado para a Artemis. “Como norte-americano, como ser humano, fico entusiasmado com a missão.”

Me leve até a Lua

A Lua é um mundo próprio, repleto de mistério e mitologia, e nossas incursões até ela têm sido demonstrações cativantes — embora angustiantes — da capacidade humana.

Essas viagens também contextualizaram nosso planeta, ilustrado pela icônica imagem “Earthrise”. Tirada pela tripulação da Apollo 8 na véspera do Natal de 1968 enquanto voavam ao redor da Lua, a foto retrata nosso planeta multicolorido pairando sobre um horizonte monótono de crateras. Pela primeira vez na história, os humanos viram a Terra de longe o suficiente para compreender o vasto reino cósmico que abriga o nosso mundo e a fragilidade de nosso pequeno ‘planeta água’. A primeira missão tripulada do programa Artemis, a Artemis II, tem um objetivo semelhante — circundar a Lua e retornar, talvez até 2023.

“Se eu puder contribuir com essas missões de qualquer forma, será a realização de um verdadeiro sonho”, afirma a astronauta da Nasa Jessica Meir, que está sendo treinada para a Artemis e já soma em seu currículo mais de 200 dias no espaço a bordo da ISS. “Há muito a ser explorado com o programa Artemis. Iremos a novos locais. Diversas novas hipóteses e experimentos científicos serão realizados.”

Mas chegar à Lua — e mais importante que isso, retornar à Terra — é uma missão difícil. Entrar na órbita lunar envolve uma mudança delicada e precisa na dinâmica gravitacional. Pousar na Lua — algo que Neil Armstrong e Buzz Aldrin quase não conseguiram fazer em 20 de julho de 1969 — é ainda mais arriscado. E, finalmente, decolar da superfície lunar, reunir-se com outra espaçonave e então voltar para casa requer manobras igualmente complicadas, realizadas na direção oposta.

Mas os astronautas da Nasa não apenas aceitaram o desafio, como estão ansiosos para superá-lo.

Quando pediram que Meir desenhasse, no primeiro ano escolar, a profissão dos seus sonhos, ela conta: “lembro-me claramente de ter desenhado a imagem de uma astronauta ao lado da bandeira, a bandeira dos Estados Unidos na superfície da Lua. Não era apenas o fato de eu estar no espaço. Eu estava pisando na superfície da Lua. Então, acho que para mim, essa sempre foi a minha missão dos sonhos — essa exploração e curiosidade inspiradoras.

Astronauta da Nasa Jessica Meir em uma cadeira giratória para testar seu sistema vestibular nos alojamentos da tripulação no Hotel Cosmonaut, em Baikonur, Cazaquistão, em 18 de setembro de 2019. Ela foi enviada à Estação Espacial Internacional uma semana depois na espaçonave russa Soyuz.

Foto de NASA

Voltando para ficar

Nos últimos dois anos, o programa Artemis da Nasa foi gradualmente ganhando força. Inicialmente criada para ser a irmã do programa Apollo, Artemis — em sua forma mais básica — irá replicar a série de missões que enviou astronautas à Lua nas décadas de 1960 e 1970. Se Artemis II retornar com sucesso da órbita lunar, a Nasa poderia lançar a Artemis III logo em seguida para pousar na Lua, talvez já em 2024. Contudo a missão pode sofrer atrasos se o cronograma continuar sendo adiado e problemas com custos altíssimos continuarem presentes.

Conforme previsto, a Artemis utilizará um enorme foguete parte do Sistema de Lançamento Espacial (SLS, na sigla em inglês) e a cápsula espacial Orion para enviar os astronautas à órbita lunar. Mais tarde, durante a Artemis III, Orion irá se acoplar a um veículo desenvolvido e projetado para levar a tripulação à superfície, talvez para um local próximo ao polo sul da Lua, que é gelado.

Mas o plano Artemis é ambicioso em diversos níveis. Se for realizado por completo, o programa incluiria a construção de um posto avançado espacial em órbita lunar chamado Gateway. Essa pequena estação pode ser utilizada como um ponto de passagem para astronautas indo e voltando da superfície lunar. Em determinado momento, poderia até mesmo servir de apoio a missões mais distantes no Sistema Solar.

A Nasa planeja trabalhar com parceiros internacionais para estabelecer presença em longo prazo na Lua e espera que seus aliados estrangeiros concordem com uma série de princípios definidos em um documento denominado Artemis Accords. O documento inclui o compromisso de usar a Lua para fins pacíficos, cooperar em casos de emergência, compartilhar conhecimento e dados científicos e preservar locais de interesse histórico, como o local onde a Apollo 11 pousou.

Durante o treinamento de astronautas, Jessica Meir e Victor Glover participaram de um treinamento de sobrevivência na selva que durou três dias, perto de Rangeley, no estado do Maine.

Foto de L. Harnett, NASA

Em um cenário de lideranças políticas em constante mudança, orçamentos incertos, uma pandemia e repetidos atrasos envolvendo o SLS e a Orion, não se sabe ao certo se Artemis cumprirá o prazo definido inicialmente.

“É um empreendimento realmente oneroso”, comenta Rubio. “Mas acredito que já provamos diversas vezes que quando realizamos projetos difíceis e nos dispomos a enfrentar grandes desafios, ficamos mais unidos. E isso nos impulsiona a desenvolver novas tecnologias, novas ideias.”

Uma perspectiva lunar

Os objetivos científicos da Artemis III, definidos nesta semana, incluem coletar mais rochas lunares e trazê-las à Terra. As missões também irão estudar a história dos impactos de asteróides na Terra e na Lua, e buscarão compostos enterrados sob a superfície, incluindo água congelada. Em algum momento, a Nasa pretende coletar gelo na Lua, que poderia ser utilizado na produção de combustível para foguetes e em sistemas de suporte à vida humana no espaço.

Embora todos os astronautas que conversaram com a National Geographic tenham enfatizado que completar com sucesso uma missão lunar seria sua prioridade máxima, também disseram que gostariam de se divertir um pouco lá no espaço se tiverem a sorte de ir.

“Eu definitivamente gostaria de pular — pular mesmo, o mais alto que conseguir”, conta Mann. “Imagine se tivermos acesso ao nosso próprio transporte lunar”, acrescenta Rubio. “Por mais importante que seja a ciência, acho cada um de nós iria querer desenhar um donut na superfície da Lua.”

Meir conta que desfrutaria da beleza e profundidade de ver a Terra da superfície lunar. “Eu adoraria poder trazer os olhos de todos os humanos do planeta para o espaço comigo para que apreciassem a visão que temos de lá”, diz ela. “A imagem da Terra vista da Estação Espacial Internacional foi muito poderosa no meu entendimento sobre a fragilidade e a beleza do nosso planeta, como precisamos protegê-lo, como todos nós estamos interconectados.”

Por enquanto, porém, os astronautas da Artemis estão focados em treinar para dar o próximo passo ousado da humanidade no espaço. E talvez, como Mann e seu filho de oito anos, também estão aproveitando para contemplar a Lua.

“Sempre nos sentamos do lado de fora, adoramos observar as estrelas e a Lua — mas agora acho que nós dois olhamos para ela com uma luz e um brilho especiais e diferentes nos olhos”, conclui ela. “Realmente espero que, algum dia, ele veja a mamãe voar até a Lua e caminhar sobre ela.”

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