Erva-alheira prejudica espécies nativas, mas efeitos nocivos reduzem com o tempo

Essa planta invasora pode ser menos perigosa do que se pensava: ela é apenas um sintoma e não a causa principal dos danos causados às espécies nativas. Ela também é comestível — mas é preciso tomar cuidado com o cianeto.

Publicado 12 de mai. de 2021 07:00 BRT
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A erva-alheira (Alliaria petiolata) é uma planta invasora nociva, porém comestível. Pesquisas sugerem que seus efeitos destrutivos são reduzidos com o passar do tempo.

Foto de DeAgostini, Getty Images

Eu me lembro da primeira vez que vi uma erva-alheira. Foi na década de 1990, em um passeio da quinta série a um parque na região central de Illinois. Meus pais já haviam me contado sobre esse invasor botânico que estava começando a nascer em várias partes do estado e espalhando-se para o interior, interferindo no desenvolvimento de espécies nativas. Eu nunca tinha visto uma erva-alheira antes, mas sabia que tinha flores brancas e um odor forte e diferente. 

Então eu disse aos meus amigos, enquanto esmagava e cheirava as folhas da erva-alheira: “se tem cheiro de alho, vou arrancar.” Arranquei a planta pela raiz e percebi que estava certo: ela tinha cheiro de alho. Surpresos com esse ato aparentemente destrutivo, os colegas da escola católica em que eu estudava se divertiram com aquela cena. Mas, na verdade, conforme tentei explicar depois, aquela atitude foi ecologicamente correta.

As plantas invasoras são um grande problema nos Estados Unidos. E poucos problemas ecológicos são tão preocupantes quanto a presença das ervas-alheiras nas florestas e nos espaços abertos das regiões do centro-oeste e da costa leste do país, onde a planta está florescendo atualmente. A erva-alheira é uma ameaça para as florestas: segundo Don Cipollini , professor de fisiologia vegetal e ecologia química na Wright State University em Dayton, Ohio, as raízes da erva-alheira produzem substâncias químicas nocivas que matam fungos simbióticos, dos quais as espécies nativas dependem. A maioria dos animais não se alimenta dessa planta, colaborando com sua proliferação descontrolada.

Cada planta de erva-alheira pode produzir centenas de sementes. Por isso, é muito difícil, senão impossível, erradicá-la, uma vez estabelecida em áreas mais extensas. Atualmente a erva-alheira está em um período de plena floração e de fácil identificação, o que torna o momento ideal para exterminá-la, acrescenta Cipollini.

Mas essa encrenqueira magricela tem suas limitações. Pesquisas sugerem que essa espécie se torna menos abundante e destrutiva com o passar do tempo e, por essa razão, pode ser melhor não intervir. Inclusive, aprendi em um passeio recente que a erva-alheira é comestível — e, em pequenas quantidades, muito saborosa e nutritiva.

Mas cuidado com o cianeto. 

Multiplicação da planta invasora

A erva-alheira tem um ciclo de vida de dois anos. No primeiro ano, ela se estende até o solo, formando pequenas folhas em forma de roseta. No segundo ano, no início da primavera, ela brota e atinge uma boa altura, produzindo flores brancas e brilhantes.

Populações de ervas-alheiras “podem se multiplicar rapidamente”, afirma  Jeffrey Corbin , ecologista vegetal no Union College, em Schenectady, Nova York.  A espécie tem se multiplicado lentamente por todo o país desde o início do século 19, quando foi trazida da Europa e introduzida deliberadamente em Long Island.

Essa planta invasora produz glucosinolatos — compostos químicos que contêm enxofre e conferem a vários outros tipos de mostardas um cheiro forte e gosto picante. Eles são responsáveis pela acidez do rábano-silvestre e ardência da mostarda-amarela. Mas, no caso das ervas-alheiras, os glucosinolatos são expelidos pelas raízes, eliminando fungos micorrízicos simbióticos com os quais a maioria das espécies de plantas e árvores nativas se associa para extrair nutrientes do solo. Assim como outros membros de sua família, a erva-alheira não precisa desses fungos para se desenvolver.

Segundo Mark Anthony, ecologista especialista em fungos e pós-doutorando no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), pode levar muitos anos após a erradicação dessa planta para que a quantidade e diversidade desses fungos de fato reduza.

Há também algumas pesquisas que revelam que esses efeitos prejudiciais aos fungos talvez enfraqueçam as plantas nativas e prejudiquem a germinação, embora os registros científicos não sejam conclusivos quanto à intensidade da ação da erva-alheira. 

Embora todos os pesquisadores estejam de acordo sobre importância de evitar que a erva-alheira se espalhe para outras áreas, alguns acreditam que não valha a pena gastar recursos para erradicar a espécie que já estiver estabelecida em alguma área.

O esforço vale a pena? 

Bernd Blossey, ecologista vegetal na Cornell University, é um desses pesquisadores que acreditam que os esforços para erradicar a erva-alheira não compensam. Uma pesquisa conduzida por Blossey, em conjunto com outros pesquisadores, mostra que a presença da erva-alheira diminuiu significativamente nos últimos anos em dezenas de terrenos em todo o nordeste e centro-oeste. O solo reage contrariamente à planta nesses locais, pois são regiões onde há o acúmulo de micróbios que prejudicam a mostarda, afirma o ecologista vegetal.

Os micróbios provavelmente se alimentam de substâncias químicas excretadas pelas raízes, incluindo glucosinolatos, diz ele. Basta permitir que os processos naturais ocorram e que esses micróbios se acumulem para que a erva-alheira se torne mais escassa, embora seja improvável que desapareça completamente, acrescenta. O extermínio da erva-alheira pode, na verdade, causar mais danos, pois essas interferências podem fazer com que suas sementes se espalhem, causar o sufocamento de espécies nativas e afetar a capacidade do solo de repelir o invasor, segundo ele: “Causando um efeito contrário.”

Alguns pesquisadores acreditam que a erva-alheira seja mais prejudicial do que Blossey sugere e que esse fenômeno de declínio espontâneo não seja universal. Mas parece haver um consenso de que a erva-alheira não seja tão temível quanto se acreditava na década de 1990, por exemplo, quando era novidade em diversas áreas do região centro-oeste dos Estados Unidos. (Era novidade para mim também.) 

Um estudo conduzido por Corbin no nordeste de Nova York revelou que erradicar a erva-alheira, uma vez que ela esteja estabelecida em uma área extensa, é praticamente impossível  . Para se livrar dela, seria preciso arrancar quase 100% das plantas todos os anos durante uma década, porque até um quinto das sementes podem retardar a germinação por anos. Os pesquisadores calcularam que, se apenas 90% das plantas fossem removidas, o trabalho poderia levar 50 anos.

Os pesquisadores dizem que a melhor opção é evitar que a erva-alheira se estabeleça, ou então bloquear sua multiplicação no início da invasão, afirma Cipollini. 

Mas pode não ser necessário erradicá-la para salvar as florestas. “Em muitos casos, a presença da erva-alheira é mais um sintoma de uma doença do que a causa”, diz Richard Lankau , pesquisador da Universidade de Wisconsin. “Interferências, grande ocorrência de veados-de-cauda-branca e o surgimento de minhocas exóticas são elementos indicadores de invasões de ervas-alheiras.” 

Blossey reconhece que populações descontroladas de veados são a maior ameaça às plantas nativas, pois esses herbívoros evitam a erva-alheira enquanto se alimentam de suas concorrentes. As minhocas, que não são nativas de grande parte do nordeste dos Estados Unidos, também ajudam as bactérias em decomposição a se proliferar no solo e reduzem a serrapilheira, o que, de alguma forma, ajuda no desenvolvimento da erva-alheira. 

Além de prejudicar as plantas, a erva-alheira também tem como vítimas alguns insetos nativos, como a linda borboleta-branca da Virgínia Ocidental. A pesquisa de Cipollini revela que esses insetos, que eram comuns em florestas do leste dos Estados Unidos, mas agora são raros, preferem depositar seus ovos na erva-alheira em vez de espécies nativas de mostarda. O problema é que, quando depositam seus ovos em ervas-alheiras, todos os seus ovos morrem. O mesmo ocorre com outra espécie de borboleta nativa denominada Anthocharis midea.

Invasor nutritivo 

Mas, como descobri naquele passeio, a planta é comestível para humanos. Durante uma caminhada em um parque, em Washington DC, em abril do ano passado, ainda no início das restrições impostas para conter a covid-19, vi algumas pessoas se esticando para pegar alguma coisa no mato. Quando perguntei, eles me disseram alegremente que estavam colhendo ervas-alheiras. “A planta pode ser salteada e ingerida”, disse um deles. “E se você moer e cozinhar dá um ótimo pesto”, acrescentou.

Intrigado, fui pesquisar na internet. Descobri que a erva-alheira realmente pode ser servida em saladas e sopas. Mas Cipollini explica que a erva-alheira produz quantidades significativas de cianeto de hidrogênio — o conhecido gás tóxico — quando suas folhas são cortadas ou mordidas. A substância funciona como um tipo de defesa contra o predador. Ela entra em ação quando uma enzima da erva-alheira atua sobre os mesmos glucosinolatos que dão à planta seu sabor apimentado de alho.

Mas o cianeto pode ser facilmente driblado: basta cortar a planta, pois em poucos minutos ela libera boa parte do gás. Deixar de molho e cozinhar também reduz a presença de cianeto a níveis insignificantes, explica Cipollini. Algumas pessoas comem a erva crua, o que em pequenas quantidades e ocasionalmente também não é prejudicial. Na verdade, como acrescenta o ecologista, provavelmente seja até saudável, já que a planta é rica em vitamina C, zinco e vitamina E. A planta contém menos cianeto do que diversos outros alimentos básicos, como a mandioca e outros de consumo bastante comum nos Estados Unidos, como o feijão-de-lima e o sorgo, que são todos processados para eliminar o cianeto.

Austin Arrington, fundador de uma empresa de consultoria ambiental chamada Plant Group, estudou a viabilidade de forrageamento como uma forma de ajudar a controlar espécies invasoras (embora avise que fazer isso em áreas urbanas possa trazer alguns riscos, como contaminação por herbicidas ou contaminação do solo causadas por substâncias químicas). Ele recomenda refogar a erva-alheira “com manteiga ou azeite, como se faz com espinafre ou outras verduras. Acho que cairia bem com frango ou algum prato com carne de porco.” 

Depois da minha descoberta na floresta, experimentei a erva-alheira e apreciei seu sabor de alho e cebola, que dá um toque especial a prato com refogados, embora seja melhor usá-la em pequenas quantidades e bem cozida, o que reduz o seu amargor. Embora eu planeje continuar colhendo e comendo de vez em quando, da próxima vez que passar pela erva-alheira na floresta, provavelmente a deixarei lá, sabendo o que quando criança eu não sabia: arrancar uma planta aqui ou ali não ajuda muito a combater essas plantas invasoras.

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