Nat Geo Podcast | Episódio 6: Influência do bem

André Carvalhal conversa com a criadora de conteúdo Nataly Neri e a atriz e comunicadora Laila Zaid, personalidades que aproveitam a comunidade ativa de seguidores que tem para conscientizar e influenciar positivamente mais e mais pessoas.

Por Redação National Geographic Brasil
Publicado 6 de set. de 2022 19:00 BRT

André Carvalhal (apresentador): Olá! Eu sou o André Carvalhal, escritor, especialista em design para sustentabilidade e apresentador do Nat Geo Podcast, que tem o propósito de pensar em caminhos para uma vida mais sustentável. E o episódio de hoje está muito incrível, eu sei que eu sempre falo isso, mas realmente está muito incrível, porque a gente vai entrar num tema que eu adoro conversar, que é sobre a nossa capacidade de influenciar positivamente outras pessoas através das nossas ações. Com o boom da internet, os influenciadores digitais ganharam muito espaço e visibilidade na mídia e no mercado. São pessoas, celebridades, criadores de conteúdo que têm uma comunidade ativa de muitos seguidores. E por que não aproveitar essa comunidade para gerar uma influência positiva?

Do outro lado, a gente tem um público que parece estar cada vez mais interessado em acompanhar pessoas com propósito e com compromisso social, e eu acho que todos nós temos muito o que aprender com quem consegue criar essa influência do bem. Quem veio falar para a gente sobre isso hoje são duas mulheres que me influenciam muito em muitas coisas boas e que eu acompanho já há bastante tempo, e que tem a sustentabilidade e a preocupação ambiental como um traço comum, mas elas têm trajetórias muito diferentes, que a gente vai conhecer aqui hoje. Eu tenho a honra e o prazer de convidar: Nátaly Neri e Laila Zaid. Olá, meninas!

Laila Zaid: E aí, André? Tudo bem? Tudo bem, Nátaly? 

Nátaly Neri: Tudo ótimo, gente. Prazer imenso estar aqui com vocês.

André: É um prazer estar com vocês aqui também, meninas. Nossa, eu estava super esperando por esse episódio. A lógica da propaganda sempre estimulou muito a gente a comprar coisas que a gente não precisa, muitas vezes com o dinheiro que a gente nem tem, como dizem por aí. E isso traz uma série de consequências para o mundo que vão desde o desperdício dos recursos naturais até a geração de muito lixo, como a gente já falou aqui em episódios anteriores. Depois a internet surgiu e parece que complicou ainda muito mais tudo isso.

A gente viu surgir o fenômeno das blogueiras, muitas vezes com nem tanta consciência sobre todas as coisas que a gente fala por aqui, com os seus looks do dia, que começaram como um movimento leve, e depois, quando a gente viu, estavam influenciando super o consumo. E hoje, por sorte, parece que a gente vê esse jogo virando, e, além desse movimento, a gente tem visto muita gente bacana usando esses espaços justamente para falar sobre o contrário, sobre um consumo desacelerado, sobre práticas mais conscientes e sobre sustentabilidade. Pessoas que trabalham diretamente com produção de conteúdo e outras que não, que vieram de outras áreas, mas acabando utilizando esses espaços para isso, como é o caso da Laila, que tem uma trajetória super importante de atriz, né, e, depois de uma carreira muito consolidada, vem usando a sua influência nas redes sociais para apoiar causas sociais, ambientais, de educação infantil, enfim, um monte de coisa que a gente vai falar aqui. Laila, queria começar ouvindo um pouquinho de você e que você contasse para a gente como é que foi esse seu despertar, como é que você viu que você poderia começar a usar o seu espaço para falar sobre todas essas coisas.

Laila: Cara, para ser bem honesta, André, eu nunca gostei de rede social...

André: Gente!

Laila: ...Eu não entendia rede social, eu não entendia as pessoas irem lá para se expor, para, enfim, seguir a vida dos outros. Eu tinha uma resistência imensa. E aí, sendo mais honesta ainda, eu resolvi usar minha rede social quando eu fui lançar meu livro. Eu falei: "Bom, eu vou lançar meu livro, que é um manual de sustentabilidade para a infância, eu vou dar uma bombada no meu Instagram", que existia por conta da Laila atriz, então eu já tinha os meus seguidores, né, por conta da das novelas e dos filmes. E aí, eu falei: "Bom, mas o que que eu vou fazer com essa rede social?", porque eu não vou fazer foto de biquíni, que era, na época, o que rolava lá.

Eu falei: "Bom, eu vou compartilhar um pouco do meu estilo de vida mais ecológico, porque se é para expor, eu vou expor o que eu acho que pode ser bacana". E aí comecei, comecei a mostrar como é que eu compostava o meu lixo, como é que eu consumia, como é que eu educava os meus filhos. E aí eu fui vendo que tinha uma resposta dos meus seguidores, um interesse, “Opa! Dá para fazer isso, é simples. Pô, e se a Laila faz, eu também posso.”

André: Legal.

Laila: Aí eu falei "Caramba! Então dá para usar essa ferramenta aqui de uma maneira legal, positiva". Aí que eu comecei a entender o poder dessa troca. Perdi meus preconceitos que haviam e comecei a fazer um filtro também de quem eu seguia e o que que eu queria consumir ali. E aí hoje, eu tenho uma relação muito bacana com as mídias sociais. Na época, eu só tinha o Instagram, hoje eu tenho o TikTok também, porque alguém da minha equipe falou "Olha só, vamos democratizar esse conteúdo aí", mas eu ainda bato cabeça, né? É uma coisa muito dinâmica, mas é muito prazeroso, porque você está em contato com as pessoas de uma forma muito direta, né? Você está vendo ali as pessoas, quais são as dúvidas, quais são as dificuldades. Eu adoro abrir os directs assim, não tenho tempo para tudo, mas, sempre que tenho tempo, gosto realmente de trocar com as pessoas e me relacionar. Então, eu acho que foi meio que por aí que eu, hoje, consigo dizer com tranquilidade que, além de atriz e autora, eu sou uma influenciadora dentro do meu ativismo socioambiental.

André: Legal, muito legal. E tem uma coisa também que você deve sentir que a gente acaba aprendendo muito também, né? Você falou... Quando você falou de receber as respostas, conversar com as pessoas, trocar...

Laila: Muito, muito. Eu tinha uma bagagem que eu, eu sempre fui a "eco chata", e eu levava isso na boa, mas era esse o termo, né, antes da sustentabilidade começar a ganhar a visibilidade que tem agora. Eu fazia o que eu sabia que era bacana, e eu também dava aula para criança, então eu sempre tive essa comunicação, como voluntária mesmo na rede municipal do Rio de Janeiro. Então, eu sempre tive essa comunicação fluida com o universo infantil, com as crianças e com os jovens, mas quando eu entendi que agora eu tinha uma responsabilidade nas mídias, aí você começa a se aprofundar, aí você começa a estudar e aí você, aí você mergulha de cabeça, né?

André: Legal. Nátaly, como eu disse aqui no início, né, eu super sigo você há bastante tempo, adoro, admiro o seu trabalho demais e tenho a sensação que ele foi um pouco diferente da Laila, né, que como contou aqui, ela tinha uma carreira, e aí ela acabou entrando na internet, né, como uma consequência ali, uma necessidade que ela tinha. Mas você surgiu para mim, no meu feed, já como uma influenciadora digital, uma comunicadora de sustentabilidade, falando de causas muito importantes, né, com um ativismo muito forte e muito coerente, formada em Ciências Sociais, né? Quando eu vi, de uma hora para outra, você era uma pessoa que tinha mais de um milhão de seguidores, somando em todas as redes. E aí eu queria que você contasse para a gente como é que foi um pouco dessa construção e dessa trajetória.

Nátaly: Eu acho que a internet, ela acabou acontecendo sem querer, né? Às vezes eu penso "Como isso aconteceu? De que forma e por que que foi como foi, falando sobre o que eu falava, né?". Eu sabia que eu queria fazer Ciências Sociais, eu sempre soube que eu queria estudar sobre a sociedade, eu admirava muito as minhas professoras de sociologia, era basicamente essa a única motivação, e quando eu entrei na universidade, muito jovem, 17 anos, vindo de uma realidade de muitas ausências financeiras, informacionais, tipo, estruturais na família, eu estava em situações de constantes vulnerabilidades. E quando eu entro na universidade e eu tiro esse peso do indivíduo, eu começo a perceber que não foi um azar, que não fui eu que nasci com má sorte, mas que, na verdade, eu nasci num país muito desigual, que eu nasci num país muito violento, que eu nasci num país muito racista, muito LGBTQIAPfóbico. Então quando eu começo a entender que a culpa não era minha, eu começo a sentir uma ansiedade de "Meu Deus! Será que as pessoas estão se culpando? Será que as pessoas estão achando que está tudo uma merda porque elas não têm sorte, a família delas é ruim, elas são feias, elas são, sei lá, não merecedoras de algo bom?". E aí foi nessa ânsia por compartilhar, porque eu queria ser professora, eu estava estudando para ser professora de sociologia.

André: Uau.

Nátaly: Eu ia fazer minha graduação, meu mestrado, meu doutorado, não esperava demorar nove anos para me formar em Ciências Sociais, mas acabou acontecendo porque eu entendi que eu pude pular, né? Eu consegui fazer na internet o que eu achei que eu só ia conseguir fazer depois de um doutorado, dando aula. E de repente, eu estava fazendo... Eu estava comunicando e mostrando para as pessoas possíveis caminhos, e antes eu só tinha ser professora como a única possibilidade de fazer isso. Eu, sei lá, eu comecei o meu ensino médio em 2009 e terminei em 2011. Os influenciadores digitais, como a gente chama hoje, que antes eram mais os youtubers, estavam surgindo, e você ainda não tinha um conteúdo tipo fixo, sabe, que fosse um pouco mais intenso.

Eu tinha um canal que eu admirava muito que era o Canal das Bee, que falava muito sobre essas questões LGBTQIAP+, então foi... A minha entrada na internet, ela foi muito ligada às minhas identidades primeiras, à negritude, à questão de gênero e à sexualidade, então, eu sentia um desejo de compartilhar com as pessoas sobre isso. E, paralelamente, bem ali no escurinho, eu não comia carne, eu só consumia roupas de brechó, mas essa não era uma pauta. O meu ponto era a questão racial porque era uma dor primeira, sabe?

Era o que me batia primeiro, era como eu me identificava primeiro. Era um ambiente em que, sei lá, nos últimos 10 anos, todo mundo, a maior parte das mulheres negras parou de alisar o cabelo, a gente começou a ler intelectuais negras, fora de um espaço, sei lá, da academia ou fora do movimento social, você estava tendo discussões sobre como assumir o seu cabelo crespo ativava o racismo na sua vida e fazia você ter compreensão da sua negritude, em grupos do Facebook, então isso tomou uma parte muito grande da minha vida e, paralelamente, eu seguia consumindo com responsabilidade, mas por ter inicialmente estado em um lugar de ausência. Então, eu não consumi em fast fashion durante a minha adolescência inteira porque eu não tinha dinheiro.

Meu pai era um rato de brechó, me levava para comprar roupa de brechó e eu só oferecia isso como uma alternativa para construção da autoestima das pessoas. O processo de ter dado um nome a isso, de entender, sei lá, o impacto da fast fashion e da indústria têxtil no meio ambiente, ele só foi começando a fazer sentido junto com tudo o que já falava depois, quando eu comecei a entender que estava tudo interligado, né, que raça está diretamente ligada a gênero, que está diretamente ligada à questões socioambientais, e demorou para fazer essa ligação.

E aí quando eu começo a fazer essa ligação, eu tenho uma resposta muito complicada das pessoas que me acompanhavam porque as nossas dores primeiras, elas gritavam muito mais. “Como assim eu vou parar de comer carne se eu não consigo nem viver? Como que eu vou parar, como que eu vou pensar sobre veganismo ou sobre sustentabilidade se a polícia me para todos os dias ali e eu tenho que me preocupar se eu vou entrar ou não na universidade?”

Então, durante muito tempo, eu tive que entender como equilibrar isso e como unir essas lutas e esses desejos de transformação que estavam fracionados tanto para mim, quanto para as pessoas que eu acabava conversando. E aí, com o tempo, eu consegui, né, faz sete anos que eu crio aí conteúdo e eu tenho conseguido tratar cada vez mais, as pessoas têm estado cada vez mais confortáveis em falar isso e entender que a luta socioambiental é tão importante quanto a luta racial e de gênero, por exemplo.

André: Total, total. E você faz isso de uma forma muito legal, muito positiva...

Nátaly: Obrigada. 

André: É muito importante, eu acho que tem mostrado para as pessoas cada vez mais, de fato, a conexão entre todas essas causas. Isso é algo que eu vou querer investigar mais com você daqui a pouquinho, mas, enquanto você estava falando, eu fiquei pensando na Laila, né, assim, que também tem um posicionamento muito forte, né, que fala, enfim, do seu estilo de vida, de como ela cria os filhos, de como faz, enfim, né, todas as coisas e, paralelamente à essa vida, que acaba virando quase que uma vida paralela, né, Laila, você tem a sua profissão, você tem o seu trabalho, que deve ser extremamente desafiador de conciliar. Eu queria que você contasse um pouquinho para a gente como é que você consegue fazer isso, mas, principalmente, o quanto você acha que esse seu posicionamento nas redes ajuda ou atrapalha no seu trabalho como atriz e a sua relação com o mercado.

Laila: Pergunta super complexa. Bom, eu acho que, assim, o lado bom de eu ter a minha carreira como atriz ali em paralelo é que eu não dependo financeiramente da renda que vem das mídias sociais, então eu posso ter um compromisso muito fiel ao que eu acredito.

André: Boa.

Laila: Então, volta e meia, eu recebo o pedido de fazer publicidade em que eu digo "Ó, não vou fazer porque não acredito nesse produto, porque eu não acredito nessa ideia de sustentabilidade que essa empresa ou esse produto ou essa marca está tentando passar". E eu acho que se eu vivesse das mídias sociais, talvez isso ficasse um pouco mais desafiador para mim, portanto, tento não julgar os meus parceiros influenciadores. Por outro lado, tento não julgar os meus parceiros artistas que têm uma visibilidade, um tamanho de voz imensa e que não usa para transformação, para impacto positivo, para ativismo.

Eu acho que a gente está vivendo momentos muito sombrios e que a gente não se colocar, principalmente quem tem voz, é bem delicado. Enfim, então eu fico meio que no meio do caminho, não em termos de tempo, porque eu acho que tempo eu consigo administrar bem, assim, quando eu estou mergulhada dentro de um estúdio, eu estou mergulhada dentro de um estúdio, eu tento mudar ali a sustentabilidade do estúdio. Você deve saber, assim, como é difícil, né, você levar a sustentabilidade para as produtoras e tudo mais, mas é uma luta.

Mas eu fico meio no meio do caminho nesse lugar de, quando eu estou ali com os artistas, eu estou provocando eles, dizendo "Vocês têm responsabilidade, vocês têm uma responsabilidade social imensa", e quando eu estou ali no meio dos influenciadores também é uma responsabilidade em outro lugar.

André: Sim.

Laila: O que que você quer provocar nos seus seguidores? O que que você... Que mensagem você está passando? Então eu acho que eu fico no meio do caminho nesse sentido. Agora se está me atrapalhando ou me ajudando, já me perguntaram isso, eu volta e meia paro para pensar e eu chego à conclusão de que se está atrapalhando, é isso aí, eu não tenho mais como voltar.

André: Boa!

Laila: É porque eu sempre fui uma ativista, eu sempre fui engajada com a causa ambiental e social, e botar isso no mundo é como um artista mesmo que precisa escrever, precisa pintar, precisa atuar, então a arte, ela anda muito em paralelo, né, com o que a gente está vivendo. Então a gente tem aí muito material surgindo incrível sobre mudanças climáticas, sobre justiça de todas as formas, sobre todas as pautas, né, sociais que a gente está tendo que lutar e gritar. Então, eu acho que, eu acho e eu espero do fundo do coração que não atrapalhe.

André: Que bom, tomara que não porque a gente precisa dessa conexão, né? A gente precisa das pessoas que têm muita voz, né, que têm bastante alcance e espaço, e a gente precisa que esses espaços, eles realmente sejam bem usados. Nátaly, e agora eu queria investigar com você um pouquinho sobre o público, se você sente que, ao longo desses sete anos que você está atuando na internet, se você sente que as pessoas estão mais conscientes, se as pessoas, elas estão mais exigentes.

Eu acredito que você deva ter visto muita gente aprender, e crescer e se desenvolver junto com você também, mas o que que você sente sobre as novas pessoas que chegam também, né? Se são pessoas que estão chegando para aprender, se são pessoas que estão chegando, enfim, para discordar. Também acredito que possa ter um pouquinho de tudo, mas, de uma forma geral, o que que você sente do público nesse momento de influência, né, tão grande, né, onde as pessoas têm uma influência tão grande na internet?

Nátaly: Nossa, André, eu acho que é exatamente o que a Laila falou, não dá mais para voltar atrás, sabe, eu acho que está todo mundo vivendo exatamente o que ela está vivendo, o que eu, você... Uma vez que você vê, você não consegue desver. Uma vez que você pensa, você não consegue não pensar. Se a ignorância é uma benção, esse é o auge dessa ideia, porque saber, ter o mínimo de conhecimento automaticamente te compromete com algo...

André: Total.

Nátaly: ...E as pessoas começaram a se enxergar como parte de uma equação. Eu sinto essa mobilização, que, claro, sempre existiu, mas é isso, sempre existiu nesses ambientes mais intelectualizados, e aí, de repente, você está vendo muito "o cidadão comum", que não está ligado à nenhuma instituição ativista ou não está ligado a nenhum, sei lá, à nenhuma universidade ou nenhum campo, né, que pense intelectualmente essas questões do mundo. Sei lá, a pessoa que acorda de manhã, trabalha, vai para a escola, volta e pensa em um dia ter uma casa, filhos, família, tudo isso tem sido questionado, né?

As pessoas têm se entendido mais ao olhar para o outro, e quando a gente olha para o outro, e eu acho que esse é uma das maiores questões que a internet trouxe, quando você olha para o outro para se construir na autoridade, né, quando você olha para aquele para entender quem você é, e, de repente, diferentemente de 10, 20, 30 anos atrás, você tem um milhão de outros para se olhar e se compreender, meu, as possibilidades de construção e compreensão de quem você pode ser são infinitas. Então, chega um ponto em que pensar sobre o que está fora da gente faz parte da gente.

Talvez se há 10 anos atrás, menos, cinco anos atrás, quando eu estava começando na internet, eu ainda tinha uma dificuldade de unir a questão racial com a ambiental, porque como é que eu vou falar para as pessoas pensarem no lixo e no impacto ambiental se elas estão sendo assassinadas? É até injusto para eu pensar e falar "Parem de comer carne", tipo é injusto porque vocês estão morrendo, sabe? Estão sendo encarceradas em massa, principalmente falando sobre negritude. Então, se antes eu enxergava isso e tinha dificuldade de aglutinar, eu acho que eu vi também esse processo acontecendo com muita gente...

André: Legal.

Nátaly: ...E muita gente jovem. Eu lembro que eu saí do ensino médio e eu fui logo para a universidade e fiz estágio em sociologia, então a gente ia para várias escolas de Guarulhos, né? E aí, foi muito louco porque eu me formei licenciada, né, justamente queria dar aula e fiz estágio quase durante toda a minha formação, porque, fora do meu estágio, eu também fazia parte de um programa de incentivo à docência, né, eu não queria ser pesquisadora, eu queria ser professora, então, a gente ia nas escolas e eu vi isso mudar, eu vi a gente conversando sobre, sei lá, vamos trazer uma aula sobre democracia e movimentos sociais, então vamos tratar movimentos sociais negros e LGBTs que é uma grande porção dos alunos dessa escola.

E aí, de repente, você tem uma conversa. "Nossa, Nátaly, como que a gente pode montar um coletivo? Você falou de coletivo, o que que é isso? É para a gente se organizar para quê?". A gente "Não, vem cá, olha só, olha os coletivos da universidade, vocês podem fazer isso aqui". Para dois anos depois, na mesma escola ou em outras escolas, eu estou falando na periferia de Guarulhos, eu não estou falando num bairro chique de São Paulo com pais desconstruídos querendo levar os seus filhos para isso. Eu estou falando crianças, com famílias evangélicas conservadoras. "Nátaly, montei meu coletivo, está incrível. A gente peitou a diretora, não deitou para ela e ela vai aceitar bicha e sapatão sim".

E eu assim, “Caraca! Faz pouquíssimo tempo que eu saí da escola e a galera já está letrada, ela já está entendendo como as marcas que a gente carrega e o que a gente faz no mundo transforma a vida que a gente tem”. Eu fui agora na Marcha Trans, né? E aí, eu estava lá passeando e encontrei um grupo de secundaristas LGBTs, tipo, uniformizados, fazendo petição, pedindo... Eu fiquei "Quantos anos vocês têm?", e eles "16, 17", eu falei "Caramba! As pessoas estão entendendo que o político é pessoal, que o que a gente faz em casa, que o que a gente escolhe para a nossa vida, que quem a gente é, que a forma como a gente lida com isso impacta completamente no mundo". Então, tem sido mais fácil, tem sido muito mais fácil porque as pessoas também têm percebido, elas têm conseguido identificar muito mais a ignorância, o conservadorismo, coisas que antes não ficavam muito claras porque elas estavam perdidas nos valores cristãos, da família, da moral, dos bons costumes.

Hoje em dia, a gente está em um ponto, a gente chegou num ponto de conservadorismo tão radical e violento, que a moral, e os bons costumes e a família são péssimos, são horríveis, então, o jovem ou a pessoa que passou por esse processo de se repensar, ou as senhoras, que passaram a vida inteira valorizando essa família que só as inferiorizou, começam a refletir o que que é essa moral, né? “O que que a gente vai fazer com isso? Para que que isso serve no mundo se só trouxe destruição?”. Claro que a gente está falando aí com... Eu estou falando de um setor que já está mais ali tentando pensar sobre si, nem sobre as coisas do mundo, sobre si, sobre o meu direito de ir e vir, sobre a segurança do meu filho, sobre o meu direito, como uma professora de ensinar tal matéria no meu curso. Eu não estou falando de me juntar ao movimento social, institucionalizado, mas essa mudança, ela foi tão clara, e eu acho que está mais fácil agora, está muito mais fácil, porque eu acho que a gente não precisa mais convencer as pessoas a entenderem que aquilo é sobre elas.

O que você faz hoje é tocar o dedo na ferida, é tipo "Vamos olhar aqui, eu sei que você quer olhar. Eu sei que você não tem tempo, mas vamos dar uma olhadinha". E aí eu acho que essa é a diferença. Antes, você... Era um processo de convencimento, isso é a sua vida, isso faz parte da sua vida. Então, hoje em dia, esse processo de oferecer informações, ele não é mais unilateral como era há sete anos atrás. Você vai com uma coisa e o povo já está voltando com 30. “Mas, Nátaly, isso, aqui, isso, aqui, não sei o quê.” Tipo, sei lá, eu comecei a falar muito sobre saúde menstrual e dignidade menstrual porque muitas mulheres vivem em situação de pobreza menstrual, em que você não tem acesso, né, a itens básicos e higiênicos para menstruar ou para, sei lá, ter controle de natalidade ou se proteger de ISTs.

E aí, de repente, você manda, mas essa resposta já vem, tipo, e como é que a gente fala isso em lugares que não tem saneamento básico? Como é que a gente traz essa discussão e o acesso a esses produtos sustentáveis em lugares que as pessoas não têm nem banheiro? Como é que vou esterilizar um item que eu preciso colocar no meu corpo se eu não tenho banheiro, se eu não tenho água limpa? Então, hoje em dia, está todo mundo pensando junto e eu acho que isso é maravilhoso. E é isso, não dá mais para não ver, não tem mais como voltar atrás, né?

Laila: Nátaly, me provocando aqui, como as nossas primeiras lutas são as nossas primeiras dores, né? E aí nesse lugar, tanto a pauta LGBTQIA+, quanto a pauta antirracista, ela vem com mais força porque são pautas que falam da dor do indivíduo, né, do espaço que ela precisa ocupar. Já a pauta do meio ambiente e da sustentabilidade, ela não vem naturalmente, ela não é alguém, né? Você não é um ativista ambiental porque você é, você precisa olhar para aquilo, você precisa se envolver com aquilo e você precisa entender o porquê dessa urgência, né?

E aí, isso me provoca em dois lugares, um dessa nossa dificuldade de trazer a necessidade de olhar para essa pauta e, em segundo lugar, deselitizar esse assunto, que a Nátaly já falou isso várias vezes e que é uma questão muito séria na minha troca com os meus seguidores, que eu só posso parar e falar disso porque eu tenho uma situação muito privilegiada. Eu tenho tempo para compostar, eu tenho dinheiro para comprar os produtos que são biodegradáveis e orgânicos e os alimentos mais naturais, enfim. E sempre que eu proponho isso, eu sei que é de um lugar de fala muito privilegiado e que não comunica com todo mundo, então acho que a gente tem dois grandessíssimos desafios nessa comunicação que são esses, né? Chamar atenção para a necessidade e a urgência de olhar para o meio ambiente e sair da bolha que consegue falar sobre isso e consegue estar envolvida, então, enfim, assim, eu acho que esse é um grandessíssimo desafio para a gente, né, Nátaly?

André: Nossa, Laila, maravilhoso você ter trazido isso. É realmente um insight muito forte e muito importante, e eu acho que ele comprova algo, que a gente já falou aqui em outros episódios, o quanto a gente está afastado da natureza, né, do quanto a gente não se vê como parte disso tudo. Então, né, o próprio fato da gente chamar de natureza, né, falar como se fosse alguma coisa externa, porque a gente deveria ter essa noção de que a gente não está falando de defender a floresta, de limpar o oceano, né, de, enfim, de cuidar do clima, a gente está falando de cuidar da gente.

Laila: Da nossa sobrevivência.

André: Da nossa sobrevivência, exatamente, da mesma forma como as questões sociais. E eu achei, assim, muito, muito incrível esse seu insight e, de fato, realmente, esse é o caminho, né? Eu acho que esse é o poder dessa influência do bem que a gente está falando aqui hoje, e o lado positivo também da consciência ser um caminho sem volta, porque quanto mais a gente vai aprendendo, quanto mais a gente vai compartilhando, a gente vai vendo a conexão entre todas essas causas e criando aí uma onda positiva de influência.

Bom, então, agora, a gente está indo para o nosso último bloco que é onde a gente explora os caminhos e as soluções, depois de ter entendido um pouco o cenário e o mundo que a gente está vivendo. E eu queria voltar para você, Laila, que, como você disse no início, você tem um trabalho muito legal e importante com crianças. Você teve um livro, você tem um livro sobre isso também. Queria que você contasse para a gente um pouco também dessa experiência, dos desafios, das facilidades e sobre a importância da gente também preparar e educar essa nova geração que vem aí. 

Laila: Então, André, eu acho que, assim, falar sobre infância, eu vejo dois caminhos assim. Ao mesmo tempo que eu vejo uma galera vindo com força total, engajadíssima e, é o que a Nátaly falou, não é mais uma galera só ali que está com pais desconstruídos e acesso à informação, é uma galera periférica vindo com muita força e já tem pesquisas que apontam para isso, né, para essa geração alfa, Z, Y, sei lá, já com um padrão de consumo totalmente diferenciado.

Eles não vão querer fazer parte, nem consumir marcas, produtos que não tenham uma ideologia social, ambiental e de governança. Por outro lado, e, aqui no Brasil, isso é ainda maior, a gente ainda tem uma massa imensa de jovens e crianças absolutamente desconectadas dessa pauta, não só pela falta total de educação ambiental nas escolas, como por falta de contato com a natureza, que foi o que você falou no outro bloco. As crianças não têm mais acesso à natureza. Os centros urbanos hoje, eles não facilitam esse contato. As crianças de comunidades, então, menos ainda. Então, eu quando dou aula, quando eu estou ali em contato direto com as crianças, eu fico muito preocupada, porque não existe educação ambiental, não existe educação alimentar, não existe educação social, emocional, e daí veio essa minha vontade de escrever um manual, que a princípio ia ser uma apostila para os meus alunos e acabou se tornando um livro. Então, assim, eu sinto que há uma mudança global vindo, a gente sente, a gente está vendo e isso é lindo, isso me enche de otimismo e esperança.

Por outro lado, o nosso trabalho de formiguinha ainda é muito importante aqui. Então, eu continuo em contato com os jovens. Às vezes, me chamam assim, para umas coisas que assim... Outro dia, eu fui sábado à noite falar com os jovens no meio do... Aí eu falei "Ah, meu Deus! Mas vamo nessa!”, porque se isso reverberar em um e se isso se multiplica... Se eu tiver que resumir, eu acho que tinha que parar tudo. Para de ensinar qualquer coisa antes de trazer para essas crianças educação emocional, porque seres humanos inseguros são esses seres humanos que levam a gente para abismos, e educação ambiental, porque a gente está falando de números assustadores para os próximos anos, né? E você, nos outros episódios, com certeza, isso já foi levantado milhões de vezes.

A gente está falando de coisas assustadoras, é o futuro dessa geração que está em risco. Então, é isso, eu acho que a gente tem que... A gente tem que confiar nessa geração, mas a gente tem que capacitar eles, a gente tem que ferramentar eles. Não só para eles conseguirem ser atuantes na transformação, mas para eles lidarem com os desafios que estão vindo por aí.

André: Total.

Laila: Sigamos, sigamos nas lutas todas, de todas as formas possíveis.

André: Muito bom. Eu acho super importante a gente falar sobre educação infantil, falar sobre essa preparação para essa nova geração, e adorei que você trouxe isso da gente falar sempre do lado positivo, e também preparar para as dificuldades, para os desafios. Tem algo que eu acho sempre muito importante da gente falar quando a gente entra nesse assunto de novas gerações e tal, que eu sinto um risco, né, um perigo muito grande da gente, às vezes, transferir toda a responsabilidade para as novas gerações, né? Então, tem uma coisa de quase que beirar ali um etarismo, como se as pessoas, né, de outras gerações não pudessem fazer nada e também jogar uma responsabilidade muito grande numa galera que está chegando, né, e que está recebendo um mundo já assim com muita coisa ruim, né, com muita coisa zoada.

Então, acho que tem um desafio muito grande nisso, mas um ponto de atenção muito bom e eu adorei que você trouxe. E eu estou adorando que a gente começou a falar de influência, a gente foi para educação, a Nátaly dizendo que gostaria de ser professora, então, né, e, enfim, também não teria como ser diferente, né, se a gente está falando de influência, a gente falar de educação. E aí, Nátaly, eu queria agora conversar com você um pouco sobre educação para pessoas grandes, né, para adultos. Você acha que é possível educar pessoas de todas as gerações, de mudar o comportamento, o que que você sente sobre isso?

Nátaly: Eu acho que isso é possível mais hoje do que já foi possível em outros momentos, né? A gente vive em um ambiente de caos, apocalíptico, em que é exatamente isso, o que está fora bate para dentro, né, bate na porta. Tem uma pesquisa muito importante que saiu recentemente, porque as pesquisas, né, e os estudos nesse mercado verde e nesse mundo ambientalista, eles, às vezes, passam um pouco pelas identidades subalternizadas, né? Essas conexões de dados, elas demoram a surgir, e aí recentemente, a ONU Mulheres com algumas professoras da universidade, da UFRJ do Rio de Janeiro, a Federal do Rio de Janeiro, lançaram uma pesquisa chamada “A Dimensão do Gênero no Grande Impulso para a Sustentabilidade”, e essa é uma das primeiras pesquisas que analisa a nossa situação, em América Latina, especificamente no Brasil, e o impacto das mudanças climáticas fundamentalmente em mulheres. Então, esse tipo de de reflexão e de consciência sempre talvez tenha sido percebido, né? Nós sabemos que mulheres, por estarem nesse lugar de cuidado, acabam sofrendo muito mais os impactos de uma economia inferiorizada, degladeada por conta de crises ambientais. Crises não, né? Na verdade, por conta de crimes ambientais que tem ocorrido. A gente tem uma série de tragédias ambientais no Brasil.

A gente tem Brumadinho, a gente tem tudo o que você possa imaginar. E mulheres, aqui fazendo um recorte mais simples e generalizado, acabam sendo as grandes violentadas nesse processo, mulheres, crianças. E eu acho que, acho que a pesquisa é interessante para a gente entender de que forma isso acontece, fica aqui a indicação para todo mundo que quiser entender um pouco mais, ela está disponível online. Mas eu acho que as pessoas começaram a perceber isso, sabe? Grande parte das mulheres, principalmente das trabalhadoras domésticas, perderam o serviço, o número é alarmante, é mais de 90%, só que vai me faltar aqui a fonte porque eu vi em uma entrevista na TV, desculpem, gente, mas mais de 90% das trabalhadoras domésticas foram demitidas, e isso é um número muito... Mulheres, no caso, e grande parte dessas mulheres, mulheres negras. Então, as pessoas começaram a perceber isso na pele, que é sobre mim e que isso impacta a minha vida, e que, sei lá, a destruição de uma barragem e inundação de uma cidade inteira vai mudar a forma como eu vivo, como eu como, como eu transporto a minha família e os meus filhos e como essas questões têm sido ainda mais constantes e severas porque a gente está vivendo uma emergência climática.

Quando as pessoas começam a perceber o quão violentadas elas acabam sendo, elas passam a olhar para isso com um pouco mais de preocupação e atenção porque aí se torna, talvez seja o grande centro da nossa conversa, se a gente for chegar à uma conclusão, uma luta primeira. Quando eu entendo que aquilo muda a minha vida, não é mais fora, não é mais a luta do meio ambiente, não é mais essa natureza externa, neutra e que eu exploro quando necessário e que é infinita.

Quando você começa a perceber que a gente não tem comida e que o valor do do arroz e do feijão está absurdo nos mercados porque se planta menos por conta das crises climáticas e porque se exporta e manda para fora demais, por conta de uma política interna totalmente devastadora, que não acredita e não valoriza o nosso país, as pessoas começam a perceber que "Opa! Eu preciso de comida, eu preciso de terra", né? E até esse não contato com a natureza, ele acaba se tornando um peso, né, e uma consciência de que eu preciso fazer alguma coisa, não é porque eu não vivo, não toco, não cheiro, não planto, não colho a comida que isso não faz parte da minha vida. E eu acho que tem sido, achar nesse lugar de dor aí, a conversa, né? Eu acho que infelizmente é só quando a gente mostra para a pessoa que falar sobre ambientalismo é sim falar sobre existência humana, porque, enfim, a gente vive em um mundo muito especista.

Trazer os animais e o meio ambiente sozinho é tipo “Eu quero vaca para comer, eu quero galinha para comer”. Não... Isso não funciona para mim como uma vegana, mas eu sei também que é um discurso que bate na trave quando a gente vai falar com muita gente. Então, trazer, falar com os grandinhos, né, trazer os adultos para essa conversa vem muito no apontar de dedo, é tipo "Se liga, hein? Se liga porque está vindo, está vindo e pode pegar eu, você”, já está acontecendo, sabe? E infelizmente é triste que a gente tenha que fazer isso, que a gente tenha que, para acordar, para despertar desejo de luta, de compreensão, de informação, a gente tenha que mostrar o quão grave é isso e como já interfere na vida das pessoas, sabe?

É como a Laila falou, não é um processo orgânico e autônomo. Eu não vou começar a pensar sobre ambientalismo, eu vou entender que isso faz parte da minha vida e como um ser humano altamente individualista, como todos nós somos, por mais que a gente lute contra, aí eu vou começar a olhar para algo, quando eu perceber que incomoda a minha vida e a minha existência. E por mais que seja um defeito, aqui vira uma ferramenta didática, então, gente, vai ferrar com todo mundo, mas eu acho que mostrar que interfere na nossa vida é o primeiro passo.

Laila: Inclusive quando a gente vai, quando a gente fala assim nas nossas redes, a gente assusta, né?

Nátaly: Assusta.

Laila: É muito delicada as nossas escolhas de linguagem e comunicação, né?

Nátaly: Exato. Dá para fazer isso e aí é uma linha muito, é um limiar muito delicado ali, e eu estou sempre dançando nele, que é trazer a autorresponsabilização, mostrar para a pessoa que a ação, a reflexão e a interação com outros dela tem impacto, sem culpabilizar o indivíduo. Então, não é seu banho, relaxa, não é o seu banho, mas você pode me ajudar a educar sobre como a pecuária tem gastado muita água.

Laila: Exatamente.

Nátaly: A gente tenta no geral, mas é muito delicado. Como é que você chama para a ação, mostrando que impacta na vida do indivíduo, sem culpabilizar o indivíduo? Eu acho que está na coletividade, impacta a todos nós, não vai impactar só você também, né?

Laila: É, e quando traz para o indivíduo, mostrar que ele é exemplo, e aí a gente volta para a educação, independente de idade. A melhor forma de você ensinar é sendo, é sendo exemplo. Então, se você toma banho mais rápido, você está passando consciência ambiental para os seus, ao arredor ali, e sabe lá se os seus pequenos um dia vão ser grandes tomadores de decisão, né, dentro da indústria, dentro do governo. Então, quando falam assim "Ah, mas o meu banho não faz a diferença", eu falo "Mas o seu exemplo faz". 

Nátaly: Eu acho que eu, nesse ponto, eu sou vegana e converso com muitas pessoas que não comem carne e é muito fácil você imprimir na pessoa a dor de você comer carne, você é um assassino, você está matando esses animais, e como as pessoas que eu falo também já estão em um lugar de vulnerabilidade social, né, negros, LGBTQIAP+, não todos, claro, mas, enfim, pessoas sem muita estrutura financeira também, esse lugar de como é que a gente faz essa conversa sem fazer com que a pessoa se sinta mal depois, porque a culpa, ela não faz nada. É a mesma coisa “Ah, eu quero veganizar alguém”, bota três documentários lá, mostrando o porquinho gritando. Eu não tenho coragem de assistir esses documentários, são absolutamente cruéis.

Você imprime a culpa na pessoa, você faz ela se sentir muito mal por comer carne, aquilo não dura dois dias, aquilo vai durar uma semana e, de repente, ela vai esquecer, porque a gente está na paixão, né? A culpa é um sentimento muito íntimo, a culpa, o ódio, a raiva, a paixão. Eu tenho um conteúdo muito legal que eu fiz sobre isso que é isso, eu não quero que você se apaixone pelas lutas ambientais, eu não quero que você se apaixone pelos animais, porque a paixão, ela é passageira. Eu quero que você tome consciência do problema que isso é, como isso está destruindo todas as nossas outras questões e, como isso... Reforma agrária é a base da desigualdade no Brasil, isso está ligado direto à agricultura familiar, à autonomia alimentar, ao meio ambiente, à terras quilombolas e indígenas.

Então, falar que raça, meio ambiente e alimentação estão colados, é tipo “Sem culpa, mas você tem consciência de quão grande é isso?”. E que é justamente isso, você é não só um exemplo, como em um mundo tão digitalizado, em que, às vezes, você viraliza em um tweet ou em um TikTok ou em um vídeo no Instagram, a gente pode educar. Então, eu tenho uma visão muito cética em relação à internet, assim, eu acho que a gente não vai fazer a revolução nos reels e nem no Instagram e nem no TikTok, mas eu acho que a gente tem esse papel, o papel da comunicação e que muda, vai mudando o inconsciente coletivo e preparando essas gerações, as anteriores e as futuras para uma mudança real.

André: Nossa, maravilhoso, Nátaly, muito obrigado mesmo por essa fala. Acredito super que é bem por aí também. "O que você faz importa" é uma campanha da National Geographic Brasil, que tem como objetivo conscientizar e engajar as pessoas sobre a importância das suas ações. Esse é o nosso bloco de encerramento, e, como você já deve ter percebido, a gente sempre vai encerrar trazendo dicas práticas do que que a gente pode fazer no nosso dia a dia. E, hoje, eu vou falar sobre compartilhar. Como as meninas acabaram de dizer agora, a sua atitude individual, mesmo que você não tenha uma grande rede, que você não tenha um grande número de seguidores, ela pode ser o exemplo para alguém, para uma pessoa que está perto de você, e eu acredito muito de que para que as nossas ações individuais, elas ganhem escala e elas se transformem em mudanças sistêmicas, que a gente precisa compartilhar aquilo que a gente aprende, aquilo que a gente está fazendo com outras pessoas. Então, hoje, eu convido você que está ouvindo a gente, a compartilhar com alguém da sua rede um livro que você gostou e que fala sobre isso que a gente trouxe aqui, sobre...

Sei lá, algum filme, um documentário, alguma coisa que você também se lembrou a partir de tudo isso que a gente trouxe aqui hoje e até mesmo esse podcast com alguma pessoa que você gosta e que você acha que ela poderia ficar feliz ouvindo e aprendendo isso que a gente trouxe aqui hoje. E para encerrar, meninas, eu queria pedir para vocês compartilharem com quem está ouvindo a gente. Se vocês fossem dar uma dica ou de um livro, um filme, sei lá, uma fala, uma pessoa, alguém que vocês acham que poderia ser inspiração e que se relaciona com esse tema aqui da educação e da influência que a gente trouxe hoje. Queria pedir para vocês compartilharem aqui na fala final de vocês.

Nátaly: Gente, eu vou deixar aqui de indicação, eu acho que é importante, às vezes, a gente se enxergar nessas discussões, eu tenho certeza que quando a gente começa pesquisar, né, o meio ambientalista e essas discussões, elas podem ser muito masculinas às vezes e muito gringas, então é importante, às vezes, a gente ter referências brasileiras, com os nossos casos, e de mulheres que estão pensando e existindo, e entendendo os nossos problemas também como seres, né, com recortes e dificuldades específicas nesse Brasil.

E aí eu quero só falar um pouquinho mais sobre o relatório que eu falei, ele se chama “O Grande Impulso para a Sustentabilidade e a Dimensão do Gênero no Brasil”. Ele foi lançado em 30 de março de 2021, então ele está com dados super fresquinhos e ele foi feito pela CEPAL, pela Fundação Friedrich Ebert e pela ONU Mulheres juntos. E aí as autoras, né, duas delas, uma é a professora Margarita Oliveira, que é doutora em Economia pela Universidade de Roma e ela também é professora em... Foi professora em Buenos Aires, mas tem dado aula aqui no Brasil também. A Maria Gabriela Podcameni, que é professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro no curso de Gestão Ambiental. E eu acho que esse relatório, ele é muito simples de entender, ele passa por muitas vertentes. Não é tão curtinho, mas ele é profundo o suficiente, e a gente vai entender o problema das iniciativas verdes no Brasil e como elas não tem pensado em gênero para se realizarem.

A gente vai entender como a pandemia impactou a vida de mulheres recentemente aqui fundamentalmente, e como as crises ambientais só colocam em uma situação de maior vulnerabilidade aqueles grupos que, historicamente, já são violentados e esquecidos no Brasil, né, que já são inferiorizados no geral, então, eu acredito que é uma boa base para a gente entender um pouco mais sobre a nossa vida, sobre a nossa realidade. Claro que as referências internacionais também são incríveis, tem muito livro maravilhoso, mas, às vezes, é muito bom a gente ler algo recente e que se ressoa tanto na nossa realidade, na nossa trajetória, porque a gente tem ainda mais ferramenta para se servir de exemplo, para ensinar, para chamar para conversa também.

André: Boa.

Nátaly: E aí vocês podem acessar pelo site da CEPAL, www.cepal.org.

Laila: Olha, eu acho que a gente pode aproveitar esse papo todo de redes sociais e seguir grandes lideranças que ajudam a gente a entender tudo o que a gente se desconectou ao longo do nosso processo humano na Terra. E dois grandes líderes indígenas que me inspiram muito são o Kopenawa, Davi Kopenawa, e o Ailton Krenak, que são leituras e conversas simples e transformadoras e absolutamente importantes.

E como leitura, eu também vou indicar, que eu não sou boba nem nada, o meu livro que se chama “Manual para Super-Heróis” e que é um guia super fofo e simples de sustentabilidade, que foi escrito para crianças, mas ele já está aí no mundo há seis meses e o que eu mais tenho ouvido é que as famílias todas, inteiras, têm se beneficiado. Então, ele é interativo, ele é leve, ele está à venda em todas as livrarias, nessas livrarias online, nesses e-commerces grandões, ele é divertidíssimo e ele é uma boa porta de entrada para esse mundo da sustentabilidade, para quem quer entrar e não sabe muito bem como começar. Então, acho que ficam essas dicas.

André: Maravilhoso, para crianças de todas as idades, né? Para todo mundo na verdade.

Laila: Isso, exatamente.

André: Que bom. Bom, pessoal, esse foi o penúltimo episódio do Nat Geo Podcast. Eu  estou triste que está chegando ao fim, mas eu estou feliz com a quantidade de conteúdo importante e super relevante que a gente trouxe aqui nos episódios anteriores.

A gente já falou com o Ailton Krenak e com a Paulina Chamorro sobre as nossas florestas, sobre lixo e economia circular com a Fe Cortez e a Cristal Muniz, sobre os oceanos com a Tamara Klink e a Barbara Veiga, sobre moda com propósito com Dudu Bertholini e a Giovanna Nader e sobre o papel das mulheres na luta climática com a Samela Sateré Mawé e a Amanda Costa. E hoje, a gente teve o prazer e a honra de receber a Laila Zaid e a Nátaly Neri. Muito obrigado, meninas. 

Nátaly: Muito obrigada, André. Olha, é uma honra também ter você aqui como esse grande host, né? É uma pessoa que ensina muito. Fica o momento tiete. Uma pessoa que ensina muito, que contribui muito em toda essa conversa digital também de uma forma super simples, leve, didática e com profundidade ao mesmo tempo, então, fica aqui o convite também, gente, sigam o André Carvalhal, porque vale muito a pena.

André: Oba!

Nátaly: Sigam a mim, Nátaly Neri, e a Laila. Eu acho que a gente está falando sobre influência e esse é o momento também da gente aumentar nossas vozes e acho que dar vazão para esses projetos que a gente coloca tanta energia e propósito na internet, né? Eu estou no Youtube, estou no Instagram, estou começando no TikTok também, né?

Laila: Boa!

Nátaly: Estamos em todas as redes.

Laila: Obrigadíssima por esse convite, Nat Geo, André. É uma honra o timão aí. Você só falou nomes que me arrepiaram. Eu falei "Uau! Eu estou aqui no meio dessa galera, eu estou no lugar certo. Era onde eu queria estar!", então muito, muito obrigada. É um prazer estar aqui.

André: Que ótimo. Eu agradeço a vocês também. E vale lembrar que no site natgeobrasil.com você encontra mais informações sobre ciência, viagem, história e meio ambiente. Segue a gente nas redes sociais @natgeobrasil, o meu arroba é @carvalhando. E fiquem ligados e ligadas porque o nosso último episódio vem aí no dia 19 de julho e vai ser muito especial. Até lá.

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