Cultura

Como o brilho de Leonardo da Vinci persiste, 500 anos depois de sua morte

Sua criatividade e antevisão na ciência, nas artes e na engenharia continuam a nos deslumbrar.Tuesday, April 30, 2019

Por Claudia Kalb
Fotos de Paolo Woods e Gabriele Galimberti
Supõe-se que a Mona Lisa era Lisa Gherardini, mulher de Francesco del Giocondo, um mercador de seda florentino. Todo ano, milhões se acotovelam para vê-la no Museu do Louvre, em Paris. A pintura, protegida por uma grossa camada de vidro que precisa ser limpa regularmente, nunca foi restaurada.
Confira a reportagem completa na edição de maio da revista National Geographic Brasil.

Em um instante, séculos colidem – um momento ímpar da minha vida. Vim ao Castelo de Windsor, na Inglaterra, para ver a coleção de desenhos de Leonardo da Vinci no acervo da rainha.

Do lado de fora da alta muralha de pedra, turistas tiram selfies e remexem nos panos de copa à venda. Do lado de dentro, passo por um portal ornado com gárgulas, e Leonardo me leva ao tempo da Renascença.

Quase posso ouvir os sussurros dos artistas enquanto contemplo, na suntuosa sala de impressão do castelo, um álbum que foi encadernado em couro no final dos anos 1500. Adornos de ouro embelezam a lombada de 6,5 centímetros de largura. Na capa, manchada e desgastada por imperceptíveis impressões digitais de gerações passadas, leio: Disegni di Leonardo da Vinci Restaurati da Pompeo Leoni (“Desenhos de Leonardo da Vinci Restaurados por Pompeo Leoni”).

A engenharia deste globo folheado a ouro, concluído durante seu aprendizado com artista Andrea del Verrocchio em Florença, teve influência duradoura sobre Leonardo. Para verificar danos por raios, Sandro Schievenin emerge da esfera no alto da Catedral de Santa Maria del Fiore.

Ninguém sabe exatamente como esse álbum veio parar na Inglaterra, mas sua procedência é inequívoca: Leoni, um escultor italiano, adquiriu os desenhos de Leonardo do filho de um devotado pupilo do artista, Francesco Melzi, e os agrupou em no mínimo dois volumes. Em 1690, o caderno de Leoni, como é conhecido, fazia parte da Coleção Real, com uma riqueza de 234 fólios e peregrinações da mente inquisitiva de Leonardo.

Quando Martin Clayton, diretor de gravuras do Royal Collection Trust, mostra uma seleção de páginas – agora separadas em 60 caixas –, a abrangência dos interesses de Leonardo assoma: botânica, geologia, hidráulica, arquitetura, engenharia militar, indumentária, geometria, cartografia, óptica, anatomia. Ele desenhava para tentar entender o desconhecido, sondava os enigmas do Universo com tinta, giz e ponta de prata.

Os desenhos são de uma lucidez impressionante. O mais minúsculo, menor que um polegar, mostra um busto feminino evocado com apenas alguns traços comedidos. O mais icônico, ternamente desenhado com giz vermelho e sombreados recurvos, retrata um feto aninhado no útero.

Em Florença, Leonardo destacou-se por seu talento prodigioso e recebeu suas primeiras encomendas. Ele era “um ornamento, um símbolo de poder”, diz o especialista Paolo Galluzzi. Nesta foto, Valter Conti, um artista de rua italiano, personifica a celebridade de Leonardo andando pela Galeria Uffizi e posando para fotos com turistas.

Tudo é examinado com precisão visual: morteiros bombardeando uma fortaleza; os claros-escuros de uma sombra; um crânio, um coração, um pé e uma coleção de rostos humanos, da radiante Leda a um idoso de traços disformes. “O que mais sobressai nos desenhos de Leonardo é a absoluta desenvoltura ao trocar de tema”, diz Clayton. “É uma emoção indescritível ver uma mente trabalhando nessa amplitude fenomenal.”

Leonardo era um investigador curioso da verdade, sempre fazendo anotações, buscando com voracidade o conhecimento. Em suas listas de tarefas a completar constam “Fazer óculos para ver a Lua grande” e “Descrever a causa do riso”. Enquanto isso, ele procurava respostas para questões diversas: qual a distância da sobrancelha à junção do lábio e do queixo? Por que as estrelas são visíveis de noite, mas não de dia? Como os ramos de uma árvore se comparam à espessura do tronco? O que separa a água do ar? Onde fica a alma? O que são o espirro, o bocejo, a fome, a lascívia?

Embora as pinturas de Leonardo sejam bem mais conhecidas, a riqueza de seus manuscritos e desenhos evidencia o foro íntimo de sua genialidade. Sua mente fértil – o conjunto das hipóteses que ele testou, as jornadas intelectuais, científicas e filosóficas que ele empreendeu – transparece em cada uma das 7 mil folhas preservadas em Windsor, em bibliotecas de Paris, Londres, Madri, Turim e Milão e na coleção privada de Bill Gates.

Após cinco anos em restauração, A Adoração dos Magos de Leonardo revela pinceladas, cores e imagens que por muito tempo ficaram ocultas por sujeira e verniz escurecido.Esta pintura inacabada, encomendada em 1481, evidencia o processo de raciocínio do artista, incluindo modificações que fez ao longo do trabalho. A obra está na Galeria Uffizi, numa sala dedicada a Leonardo.

Em 2019, com as comemorações do 500o aniversário da sua morte, os cadernos do artista estão passando por seu próprio renascimento. Museus organizam exposições e estudiosos publicam novas análises, aprofundando-se ainda mais em todo o espectro das criações do mestre florentino.

O mais interessante é que páginas dos cadernos de Leonardo estão caindo em mãos de especialistas nas áreas que ele próprio estudou, desde medicina e engenharia mecânica até música. Esses estudiosos retrocedem séculos, esquadrinham a obra de Leonardo e colhem novas ideias para alicerçar seu trabalho. Mesmo agora, que a ciência, a medicina e a tecnologia avançaram tanto as fronteiras do que podemos fazer e de como fazer, os cadernos de Leonardo revelam o quanto ainda temos de aprender.

Nas palavras de Martin Kemp, um historiador da arte e estudioso de Leonardo, “nenhum de seus predecessores ou contemporâneos produziu qualquer coisa comparável em alcance, brilhantismo especulativo e intensidade visual. E não vimos nada equivalente em séculos posteriores”.

Leonardo, filho ilegítimo, nasceu em 15 de abril de 1452, nas imediações de Vinci, uma cidade montanhosa na paisagem rural da Toscana, entre Florença e Pisa. Muitos supõem que sua mãe foi Caterina di Meo Lippi, uma camponesa da região. Seu pai, Ser Piero da Vinci, tinha prestígio como notário – uma carreira que Leonardo deveria seguir se não tivesse nascido fora do matrimônio.

A cidade de Vinci descortinava um pano de fundo inspirador para um rapaz de grande visão. De um terraço no alto do castelo construído no século 12, a paisagem toscana revela-se hoje como teria sido na juventude de Leonardo: olivais, morros brumosos e uma cordilheira interiorana acompanhando a costa oeste da Itália.

Embora rudimentares, os projetos de Leonardo prenunciaram equipamentos agora usados por militares. Em Messina, um membro das forças especiais da Marinha italiana treina em um traje pressurizado que suporta a profundidade de 300 metros.

Em Vinci, essa vista é conhecida como orizzonti geniali, “horizonte genial”, conta Stefania Marvogli, do Museu Leonardiano – uma alusão a Leonardo e à geografia que impregnou sua infância. Colcha de retalhos que junta terrenos diferentes formando um todo coeso, ela reflete as conexões que Leonardo procurava na natureza: padrões que unificam o Cosmo.

Sabemos pouco sobre a infância de Leonardo. Registros indicam que ele viveu com seus avós em Vinci, onde recebeu uma educação rudimentar. Em algum momento da adolescência, seu pai reconheceu as habilidades artísticas do rapaz e mostrou seus desenhos a um cliente, o artista Andrea del Verrocchio, que aceitou Leonardo como aprendiz em seu ateliê em Florença. Ali, desde o início, Leonardo suplantou seus colegas e logo também seu mentor, com quem ele colaborou em pinturas religiosas e no globo de cobre que encima o domo de Brunelleschi. O primeiro trabalho independente conhecido de Leonardo, uma paisagem do Vale do Arno desenhada a bico de pena, é de 1473, quando ele tinha 21 anos. No decorrer de vários anos, ele já havia recebido suas primeiras encomendas: um retábulo para uma capela no Palazzo della Signoria e a pintura A Adoração dos Magos para um grupo de monges agostinianos.

Leonardo deixou poucas reminiscências pessoais de punho próprio, mas temos vislumbres do homem. Quase com certeza, ele era gay – por toda a vida, seus companheiros foram homens, e por duas vezes ele foi acusado de sodomia, embora as acusações tenham sido retiradas depois. Apaixonado por animais, ele comprava pássaros engaiolados no mercado e os libertava. Canhoto, belo, ele usava túnicas rosadas e era admirado por sua voz de cantor, seu espírito generoso e seu refinamento social. Ele deve ter sido o tipo de convidado que anima um jantar, acredita Gery Radke, professor emérito de história da arte na Universidade de Siracusa. “Não tinha nada do gênio inescrutável, ensimesmado e rabugento.”

Nos 46 anos de sua carreira, passada quase toda em Florença e Milão, Leonardo perseguiu o conhecimento em um trânsito volátil por interesses variados, sempre determinado a dominá-los. Estudou latim, colecionou poemas, leu Euclides e Arquimedes. Enquanto outros privilegiavam o perceptível, ele pesquisava detalhes – ângulos geométricos, a dilatação da pupila –, pulando de uma disciplina a outra enquanto buscava as ligações entre elas. Esboçou flores e máquinas voadoras, desenhou máquinas de guerra para seu patrono, o duque Ludovico Sforza, criou figurinos com plumas e fez um projeto para desviar o Rio Arno entre Florença e Pisa.

Leonardo documentava tudo em magníficos detalhes no verso e em cantos de papéis, com uma caligrafia minúscula e caprichosa que se lia da direita para a esquerda, como que diante de um espelho. Algumas dessas páginas existem hoje em folhas soltas; outras foram encadernadas nos volumes agora conhecidos como cadernos ou códices. Não há nenhuma ordem clara nem mesmo em cada página, e temas similares aparecem em folhas distintas com anos de distância. Tudo isso dificulta até para os especialistas acompanhar o ritmo fervilhante da mente de Leonardo, me conta Paolo Galluzzi enquanto folheia maravilhado as reproduções de cadernos do gênio. Toda vez que Leonardo fazia uma observação, surgia em sua mente alguma questão, que invariavelmente levava a outra. “Ele avançava lateralmente”, diz Galluzzi, diretor do Museu Galileo de Florença.

Confira a reportagem completa na edição de maio da revista National Geographic Brasil.
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