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É possível sentir o cheiro da fraqueza? Lêmures conseguem.

O odor característico do lêmure-de-cauda-anelada diminui quando ele está machucado, e oponentes usam isso como sinal para roubar parceiros ou território. Segunda-feira, 23 Julho

Por Liz Langley

Não se pode blefar com um lêmure.

Humanos conseguem disfarçar para parecerem durões, mas lêmures-de-cauda-anelada usam o cheiro para medir seus oponentes. Isso significa que esses primatas do tamanho de gatos de Madagascar não podem enganar uns aos outros apenas parecendo fortes – eles têm que ter um cheiro forte.

Mas como eles conseguem sentir o cheiro da fraqueza dos rivais?

O cheiro da fraqueza

Lêmures machos e fêmeas têm glândulas de cheiro em suas áreas genitais, os machos também as têm em seus punhos e ombros, todas produzindo cheiros diferentes. Esse aroma particular diz muito sobre a saúde de um lêmure. (Relacionado: As pessoas também são muito boas em sentir o cheiro quando alguém está doente.)

Um estudo do Centro de Lêmures da Duke University de uma década descobriu que lêmures-de-cauda-anelada que sofrem ferimentos ficam temporariamente com o odor mais fraco, pois o cheiro custa caro para se produzir. Essa perda causa uma deficiência que outros lêmures conseguem farejar e explorar, pesquisadores reportaram em junho na revista Scientific Reports.

Lêmures vivem em grupos sociais chamados de tropas, que são lideradas por uma fêmea dominante, mas “machos e fêmeas usam a agressão e o cheiro para marcar e manter seu status social”, diz a autora Rachel Harris, ecóloga comportamental e química que fazia sua pesquisa de pós-doutorado no Centro de Lêmures da Duke na época do estudo.

E lêmures são durões.

“As fêmeas são dominantes e agressivas”, diz Christine Drea, antropóloga evolucionária na Duke. Machos lutam uns contra os outros, fêmeas lutam entre si para obter controle, e fêmeas lutam com machos “porque elas podem. Elas são bem nervosas”, diz Drea.

Esses primatas pugilistas sofrem ferimentos devido às lutas e têm acidentes em cativeiro e em vida livre.

O estudo recente analisou secreções genitais de 23 lêmures no centro que foram feridos, a maioria em lutas, e compararam seus cheiros antes do ferimento, enquanto estavam feridos e depois de se curarem.

Uma vez feridos, “toda a sua assinatura de odor diminuiu ou desapareceu”, diz Drea.

Lêmures feridos perderam até 10% de seu cheiro, tendo um amortecimento geral e perdendo compostos inteiros das centenas que compões seu odor.

Na terra dos lêmures, o cheiro do corpo, ou melhor, a falta do cheiro, realmente atrapalha na vida social.

O preço do perfume

O status do lêmure é refletido pela qualidade e quantidade de odor, diz Drea. Então, para ficar à frente da competição, um lêmure marca árvores e galhos por conta própria e marca por cima do cheiro que outros lêmures já tinham deixado.

Machos que detectam um sinal fraco de cheiro têm mais chances de deixar seu próprio cheiro em um local anteriormente marcado por um lêmure ferido do que em um marcado por um lêmure saudável. Isso sugere que o macho que está marcando percebe que o macho com um cheiro mais fraco é um competidor mais fraco. O macho ferido também teria uma habilidade reduzida de marcar novamente.

Cheiro diminuído em lêmures machos na natureza ou em cativeiro “pode ter consequências sérias para a vida social do animal dentro do grupo”, diz Harris. “Animais feridos podem perder seu status social ou perder acesso a possíveis parceiras de acasalamento”.

Os resultados sugerem que o mesmo comportamento pode estar acontecendo em fêmeas, apesar de não haver dados suficientes. Fêmeas são, no entanto, tão dependentes do cheiro quanto machos.

“Pode haver mais de 300 componentes de cheiro diferentes em uma marca de fêmea, comparado aos 200 componentes de um macho”, diz Harris. Fêmeas investigam marcas de cheiro atenciosamente, diz ela – provavelmente para avaliar oponentes, “especialmente outras fêmeas”.

O estudo também confirma que esses cheiros únicos demandam muita energia para produzir, como foi mostrado pelos animais feridos que tiveram que diminuir a produção enquanto se curavam.

“Apenas um animal forte e robusto pode pagar esse preço”, diz Drea.

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