Animais

Lontras selvagens são a última tendência em animais de estimação exóticos

O mercado desses animais caçados ilegalmente está crescendo no sudeste da Ásia. Segunda-feira, 14 Janeiro

Por Jani Actman

ELA PASSEIA de coleira. Dorme em uma cama, brinca com uma bola e abraça seu brinquedo de pelúcia. Esse animal de estimação não é um cão ou um gato, tampouco um coelho ou um hamster. Ela é uma lontra-de-garras-pequenas, uma espécie asiática que, na natureza, se alimenta de peixes e crustáceos, e brinca em riachos e manguezais.

Seu nome é Sakura e vídeos de sua vida no Japão postados no YouTube e Twitter fizeram dela uma sensação das redes sociais.

As lontras-de-garras-pequenas e, em menor extensão, as três outras espécies de lontras encontradas no sudeste asiático — a lontra-eurasiática, a lontra-sul-indiana e a lontra-de-nariz-peludo — se tornaram as novas estrelas do comércio regional de animais de estimação. Os pesquisadores acreditam que as pessoas estejam roubando-as da natureza na Indonésia, Tailândia e outros países do sudeste asiático para vendê-las como animais de estimação nesses locais e no Japão.

"A fofura desses animais é, infelizmente, um atrativo", diz Kanitha Krishnasamy, diretora da filial da ONG Traffic no sudeste da Ásia, a principal organização que monitora o comércio global de animais silvestres. "Esses animais são extremamente populares".

As lontras encontradas no sudeste asiático são inteligentes e encantadoras, com corpos pequenos e delgados, pernas rechonchudas e rosto de filhote. As pessoas pagam milhares de dólares para terem uma dessas criaturas.

De acordo com um recente relatório da Traffic, pesquisadores que contabilizam o número de lontras à venda no Facebook em cinco países do sudeste asiático documentaram pelo menos 700 entre janeiro e meados de maio de 2018. A maioria dos vendedores oferece lontras-de-garras-pequenas jovens, menores (com menos de 4,5 quilos) do que as de garras longas.

As quatro espécies de lontra não estão ameaçadas de extinção, mas também não estão tão bem assim. Elas ingerem pesticidas perigosos e têm perdido habitat devido ao progresso das cidades. Ainda, elas são, há muito tempo, caçadas por sua pele densa —transformada em casacos e chapéus que são especialmente populares na China — e pelo sangue, gordura e ossos, considerados em algumas partes da Ásia elementos curativos.

O comércio de animais de estimação, entretanto, tem surgido como a pior ameaça a essas lontras selvagens, afirma o relatório da Traffic.

A reprodução em cativeiro, afirma Krishnasamy, é possível, porém, difícil. Para manter os filhotes e os pais saudáveis, os proprietários precisam oferecer uma dieta altamente especializada e aplicar vacinas para prevenir infecções, como a cinomose.

"Não é a mesma coisa que criar gatos", explica Nicole Duplaix, que leciona sobre ecologia das lontras na Universidade do Estado de Oregon, em Corvallis, e é presidente do grupo especializado em lontras da União Internacional para a Conversão da Natureza, que determina o estado de conservação da espécie. “Não existem fábricas de lontras".

Para proteger os animais, a maioria dos países do sudeste da Ásia aprovou leis que proíbem sua captura, comercialização, posse e transporte. A lontra-de-garras-pequenas, a lontra-sul-indiana e a lontra-de-nariz-peludo também estão listadas no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES), que regulamenta o comércio global de animais silvestres. Isso significa que as pessoas precisam de uma autorização para exportá-las e que essa autorização somente pode ser concedida se o governo do país importador determinar que a captura de uma lontra da natureza não irá prejudicar a sobrevivência da espécie.

Alguns países querem proibir o comércio internacional de certas espécies de lontra, e, na próxima reunião da CITES, em maio, os países discutirão novas propostas para transferir a lontra-asiática-de-garras-pequenas e a lontra-sul-indiana para o Apêndice I do tratado. A presença nessas listas proibiria qualquer comércio internacional dessas espécies. A lontra euroasiática já está no Apêndice I desde 1977.

Apesar dessas restrições, o comércio ilegal de lontras de estimação prospera nas redes sociais, que popularizaram todos os tipos de animais exóticos— de aranhas venenosas a felinos e pássaros falantes—e facilitaram a comercialização dessas espécies.

"O comércio online infelizmente incentivou, de forma inconsciente, a posse de animais exóticos como animais de estimação por ser muito difícil fiscalizar o que acontece na internet", afirma Krishnasamy.

De acordo com o estudo da Traffic, a grande maioria dos anúncios no Facebook era da Indonésia, seguida da Tailândia. (Pesquisadores não encontraram nenhum proveniente das Filipinas e cerca de 30 da Malásia e do Vietnã juntos).

Na Indonésia e na Tailândia, possuir animais de estimação exóticos está "fortemente arraigado na cultura", comenta Krishnasamy. Os anúncios parecem estar direcionados a compradores locais, afirma ela, mas lontras apreendidas em pontos de fiscalização indicam que os animais também são levados a outros países.

No último ano, uma mulher foi detida no Aeroporto Internacional de Don Mueang, em Bangkok, Tailândia, por tentar contrabandear 10 filhotes de lontras para o Japão, que está passando por uma febre desses animais. (Os animais são vistos em cafés, são estrelas de reality shows e até mesmo participam de um concurso anual de beleza chamado a eleição geral das lontras).

Um vendedor sediado nos EUA, James Lilly, enviou uma mensagem de texto afirmando que ele cria espécies de lontras encontradas no sudeste asiático e que elas são bons animais de estimação. Elas são divertidas e se comportam quase como gatos domésticos, conta ele.

Porém, de acordo com Duplaix, elas são destruidoras, emitem sons bastante altos e podem se tornar agressivas quando não conseguem o que querem. Ela compara a mordida desses animais com o movimento de uma máquina de costura perfurando o tecido. "Um filhote de lobo pode ser muito dócil, mas ele se tornará um lobo quando crescer", afirma ela. "O mesmo ocorre com as lontras".

Tom Taylor é diretor dos programas da Fundação Wildlife Friends Tailândia, uma organização sem fins lucrativos que resgata animais silvestres, incluindo lontras, que estão em situações domésticas de abuso no país. "Não conseguimos dar conta da quantidade de animais de estimação abandonados", escreveu ele por e-mail.

Manter lontras como animais de estimação também não é bom para elas, explica Taylor. Na natureza, esses carnívoros de água doce vivem em grupos familiares de até 15 indivíduos. Isso é o oposto da vida que levam em cativeiro, onde são isoladas de outras lontras e normalmente não têm a chance de dar mais do que um mergulho na banheira. "A maioria das lontras de estimação é tratada como um brinquedo—vemos esses animais em coleiras, usando roupas de boneca e sendo alimentados com dietas humanas que não são nada saudáveis", conta Taylor.

Krishnasamy e outros pressionam para que as leis em vigor sejam cumpridas e para que leis mais rigorosas sejam criadas para proteger as lontras do comércio de animais de estimação. No Japão, por exemplo, ter lontras-de-garras-pequenas não é crime. E, de acordo com o relatório da Traffic, a Indonésia não proibiu explicitamente a comercialização de lontras selvagens. É apenas ilegal vendê-las lá porque o país não estabeleceu uma cota de vendas legais.

Duplaix e outros também querem conscientizar as pessoas de que as lontras não devem ser criadas como animais de estimação. Conforme ela mesma diz: "Não é legal".