Raros, lobos-marinhos e pinguins de coloração clara são avistados em ilha remota

Um pinguim-rei e lobos-marinhos vistos nas Ilha Geórgia do Sul apresentam mutações que afetam a forma como seus corpos produzem diversos pigmentos.sexta-feira, 3 de maio de 2019

Um filhote de lobo-marinho de pelagem clara descansa em uma praia na Baía Right Whale na Ilha Geórgia do Sul. É muito provável que esse lobo-marinho apresente leucismo, uma condição genética que afeta a capacidade do corpo em produzir pigmentos, como a melanina.
Um filhote de lobo-marinho de pelagem clara descansa em uma praia na Baía Right Whale na Ilha Geórgia do Sul. É muito provável que esse lobo-marinho apresente leucismo, uma condição genética que afeta a capacidade do corpo em produzir pigmentos, como a melanina.
Foto de Jeff Mauritzen

A remota Ilha Geórgia do Sul, cerca de 1.9 quilômetros ao leste da extremidade sul da América do Sul, é temporária para algumas dezenas de humanos — mas lar definitivo de milhares de focas, pinguins e outros animais.

Em uma recente expedição da National Geographic até a ilha, o fotógrafo Jeff Mauritzen se deparou com algumas aves com penas diferentes: um pinguim-rei e lobos-marinhos com mutações genéticas diferentes, embora raras, que os fazem ter coloração clara.

O surpreendente pinguim foi avistado em uma manhã chuvosa e, num momento de sorte, o tempo abriu por cerca de dez minutos, tempo o suficiente para tirar algumas fotografias, conta Mauritzen.

Como outras aves, os pinguins-reis podem apresentar diversas mutações que afetam a forma como seus corpos produzem pigmentos. A mutação mais extrema, o albinismo, resulta em ausência total de pigmento, corpos inteiramente brancos e visão ruim.

Criaturas estranhas

Contudo, a maioria das mutações é leve. Nesse caso, o pinguim certamente tem a mutação “marrom”. Ela é causada por uma mutação em um gene recessivo envolvido na produção de eumelanina, o pigmento responsável pelas cores preta, cinza e marrom nas penas, afirma Hein van Grouw, ornitólogo do Museu de História Natural em Tring, na Inglaterra.

Um pinguim-rei de coloração estranha se destaca em uma fotografia tirada na Baía de St. Andrews Bay, na Ilha Geórgia do Sul, em março de 2019.
Um pinguim-rei de coloração estranha se destaca em uma fotografia tirada na Baía de St. Andrews Bay, na Ilha Geórgia do Sul, em março de 2019.
Foto de Jeff Mauritzen

A mutação causa a oxidação incompleta do pigmento, tornando-o sensível à luz solar, o que gradativamente descora as penas até chegarem a uma coloração ‘branca suja’.

Isso também explica por que as outras cores do pinguim-rei são tão vibrantes. “Também é possível ver que as penas amarelas não são afetadas, uma vez que essa cor não é derivada da melanina, mas sim de carotenoides, que não são afetados pela mutação marrom”, diz Júlia Finger, bióloga da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no Brasil.

A mutação marrom é um dos tipos mais comuns de mutações de cores em pinguins e foi encontrada em várias espécies de pinguins, como o pinguim-gentoos, pinguim-de-magalhães e o pinguim-de-adélia. Mas continua sendo rara.

Essa mutação afeta o gene Tyrp1, localizado no cromossomo Z, equivalente ao cromossomo X humano. Dessa forma, os machos podem ser portadores sem exibir a mutação, explica van Grouw. “No entanto, metade de seus filhotes fêmeas será marrom, mas metade de seus filhotes machos também será portadora (silenciosa)”, explica por e-mail.

Lobos-marinhos pálidos

Por outro lado, os dois lobos-marinhos muito provavelmente apresentam uma condição genética chamada leucismo. Com essa condição, o corpo não produz o suficiente do pigmento de cor escura, chamado melanina e, ocasionalmente, alguns outros pigmentos também.

Embora seja extremamente incomum em lobos-marinhos fora da Ilha Geórgia do Sul, não é tão incomum na ilha, com prevalência de 1 em 400 a 1 em 1,5 mil animais, de acordo com um estudo de 2005 publicado na revista científica Polar Biology.

Provavelmente isso acontece porque os mamíferos marinhos eram caçados em grande quantidade até o início do século 20. Desde então, suas populações se recuperaram bastante, mas é provável que um indivíduo leucístico (ou dois) que sobreviveu na Ilha Geórgia do Sul tenha contribuído para a prevalência desse traço no local, um fenômeno chamado de efeito fundador.

Chances de sobrevivência

Os pesquisadores dizem que essas mutações de cores geralmente não causam impacto mensurável na sobrevivência ou no comportamento dos animais.

De fato, conforme observa Mauritzen, os pinguins e lobos-marinhos fotografados por ele não pareceram agir de modo nada estranho e não pareceram ser tratados de forma diferente pelos outros animais.

“Na minha opinião, a maioria das mutações de cores não afeta significativamente a taxa de sobrevivência de um indivíduo e muitos indivíduos de cores anormais vivem por muito tempo na natureza e acasalam com parceiros de cores normais, além de conseguirem se reproduzir normalmente”, diz van Grouw.

Finger concorda, embora mencione que se as mutações de cores afetarem as capacidades de mimetismo dos animais — e a habilidade de se misturarem, que é útil para capturar presas ou evitar que se tornem uma — então as chances de sobrevivência caem.

“Contudo descobri que a maioria das aves lida bem com suas mutações de cores e são bem aceitas por seus pares”, diz ela.

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