Animais

O leão ainda é rei? Número desses felinos reduziu pela metade em 25 anos

Os venerados predadores africados enfrentam uma série de ameaças e estão desaparecendo de locais onde já dominaram.sábado, 27 de julho de 2019

Por Olivia Prentzel
Um leão macho adulto descansa no Serengeti. A escassez de presas, a perda do habitat e a invasão humana fizeram com que a população de leões despencasse. A IUCN os classificou como espécie vulnerável à extinção.

PARA CADA LEÃO na natureza, existem 14 elefantes africanos e 15 gorilas-ocidentais-das-terras-baixas. Também existem mais rinocerontes do que leões.

Essa espécie icônica desapareceu de 94% de sua área de distribuição histórica, a qual já chegou a incluir quase todo o continente africano, mas atualmente está reduzida a menos de 1,7 milhão de quilômetros quadrados. Com uma estimativa de menos de 25 mil leões na África, a União Internacional para a Conservação da Natureza, entidade responsável por determinar o status de conservação das espécies, classificou esses felinos como vulneráveis à extinção.

Para se ter uma ideia do panorama, a organização sem fins lucrativos Wildlife Conservation Network (WCN) informa que a quantidade de leões caiu pela metade desde 1994.

(Para colocar essa informação sobre a perspectiva do tempo, ocorreu em 1994 o lançamento da primeira versão do filme O Rei Leão, da Walt Disney Company, que é sócia majoritária da National Geographic Partners.)

ver galeria

“Os leões realmente são ícones universais e estão sumindo discretamente”, afirma Paul Thomson, diretor dos programas de conservação na WCN. “Chegou a hora de acabar com isso e fazer com que os leões voltem a reinar nas paisagens de todo o continente”.

Para salvar esses animais africanos emblemáticos, conservacionistas estão se empenhando para reduzir os custos de se conviver próximo a eles e para destacar o valor local obtido ao protegê-los.

Mais presas e menos caça

Os venerados predadores africanos enfrentam uma série de ameaças que colocam sua existência em risco. A redução das presas dos leões devido ao comércio de carne de animais selvagens os obriga a terem um contato perigoso com os humanos e seus rebanhos em busca de comida. Porém, se os felinos atacarem o gado, é possível que sejam mortos em represália — geralmente por envenenamento. Além disso, à medida que as povoações crescem, os leões perdem seu habitat, que fica cada vez mais fragmentado e isso acaba atrapalhando os machos a encontrarem novos bandos e acasalarem. 

A caça ilegal também representa uma ameaça. Pele, dentes, patas e garras são utilizados na medicina e rituais tradicionais e também há um mercado crescente na Ásia de itens provenientes de leões.

Os conservacionistas esperam frear o declínio dessa frágil espécie fomentando a coexistência de leões e humanos na África. Parte da solução é compensar a carga financeira necessária para gerir as áreas protegidas, que representam a espinha dorsal da conservação, bem como proteger os leões em áreas não protegidas, explica Amy Dickman, bolsista da National Geographic e pesquisadora da Unidade de Conservação e Pesquisa de Vida Selvagem (WildCRU) de Oxford e coautora do relatório de 2019 chamado “State of the Lion.”

“Se quisermos que os leões ainda existam daqui a 50 anos, precisamos ajustar os custos e benefícios de forma que haja muito mais benefícios localmente e que os custos sejam arcados internacionalmente,” afirma Dickman.

ver galeria

Possibilitando a coexistência

De acordo com Peter Lindsey, diretor do Lion Recovery Fund, a sobrevivência da espécie depende do trabalho com as comunidades locais que devem coexistir com os leões e do reconhecimento do seu papel ao protegê-los. (O fundo foi financiado pela WCN e pela Leonardo DiCaprio Foundation e tem patrocínio parcial da Disney).

“A maioria das pessoas do Ocidente se recusa a conviver com animais perigosos”, afirma ele. “Na África, muitos convivem com animais perigosos, como leões e elefantes, com os quais a convivência é muito desafiadora”.

Uma forma de avançar é oferecer benefícios tangíveis às pessoas que vivem junto com os leões para que elas queiram protegê-los. Por exemplo, alguns modelos de conservação recompensam comunidades nas quais há um aumento no número de leões, um incentivo é concedido para quem não caça nem mata os leões que caçam seu gado. Os esquemas de compensação funcionam de maneira semelhante, os proprietários de gado recebem um pagamento em troca pelos animais que foram mortos por leões.

Esses tipos de programas podem mudar a atitude geral de uma comunidade em relação aos animais, que antes podiam ser considerados uma ameaça à segurança ou modo de vida. Se as vantagens de se viver próximo aos leões superarem as desvantagens, então as pessoas optarão por protegê-los, afirma Dickman.

Envolver as comunidades diretamente na conservação também é um elemento importante. O programa Warrior Watch, financiado pela Iniciativa para Grandes Felinos da National Geographic Society, é um projeto da ONG de conservação Ewaso Lions, cuja sede fica no Quênia. O Warrior Watch recruta jovens guerreiros samburu do sexo masculino — que são tradicionalmente excluídos das discussões de gestão de conservação e fauna silvestre — para vigiarem as áreas ao redor de suas comunidades em busca de leões.

Hipopótamo não se incomoda com ataque de leões
Hipopótamo não se incomoda com ataque de leões
"Tô nem aí!" O bicho parece que não se abala com os avanços felinos em vídeo feito por turistas na África.

“Se há predadores na área, eles informam os pastores que saíram com o rebanho,” contou Shivani Bhalla, fundadora e diretora executiva da Ewaso Lions e bolsista da National Geographic, em uma apresentação na sede da NG. Em troca da vigilância e por avisar os pastores, os jovens disseram que gostariam de receber educação. A Ewaso Lions inaugurou uma escola que funciona aos domingos e agora todas as pessoas do programa sabem ler e escrever em suaíli, disse Bhalla.

Isso teve um impacto positivo, de acordo com as pesquisas feitas pela organização há alguns anos. “Ficamos bastante animados com os resultados”, contou Bhalla. “Mostraram que as atitudes dos moradores locais em relação aos predadores melhorou significativamente como consequência do trabalho dos guerreiros realizado com eles. Os guerreiros também se sentem mais empoderados socialmente devido a esse projeto”.

O que é preciso para preservar os leões?

Desde 2017, o Lion Recovery Fund investiu mais de cinco milhões de dólares em projetos de conservação em 17 países, mas ainda existe uma crise orçamentária séria, de acordo com Lindsey. Muitos países africanos definiram grandes áreas protegidas, mas o financiamento insuficiente frequentemente dificulta uma gestão eficaz. Em um estudo de 2018, de coautoria dele junto com Amy Dickman e outros pesquisadores, foi constatado que será necessário mais de um bilhão de dólares por ano para preservar os leões nas áreas protegidas da África. O financiamento atual totaliza apenas cerca de 381 milhões de dólares ao ano.

Ele afirma que, além dos déficits orçamentários, os conflitos civis e a distância também podem dificultar a defesa das áreas protegidas pelas autoridades locais.

É essencial garantir que os líderes políticos reconheçam o valor de se conservar os leões. Isso vai além dos benefícios trazidos pelo turismo, que sustenta o desenvolvimento econômico e gera oportunidades de emprego, explica Lindsey. Ele observa que, ao proteger os habitats naturais dos leões, as comunidades estão apoiando ar e água mais limpos e o armazenamento de carbono — fatores que são importantes para a saúde humana e o bem-estar das comunidades rurais.

Bem a tempo para a estreia do novo filme O Rei Leão, em meados de julho, a The Walt Disney Company também se uniu ao Lion Recovery Fund para a campanha “Protect the Pride” (Proteção ao Bando, em tradução livre), que visa a educar o público sobre a crise dos leões e estimulá-los a colaborar com os projetos de conservação.

Apesar de a situação dos leões ser crítica e os déficits no orçamento serem alarmantes, Lindsey ainda tem esperança em preservar esses predadores icônicos, que como ele mesmo diz, são “extremamente resilientes.” Segundo ele, se as áreas de proteção africanas receberem o financiamento necessário para uma gestão adequada, a população atual de leões poderia triplicar.

“Agora é o momento oportuno para agir,” diz ele. “Se esperarmos, essas populações selvagens serão perdidas.”

Continuar a Ler