Animais

Camundongo das montanhas é o mamífero com o habitat mais alto do mundo

Espécie Phyllotis xanthopygus pode viver em elevadas altitudes, como nos picos dos vulcões andinos, surpreendendo especialistas.quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Por Douglas Main
O camundongo da espécie Phyllotis xanthopygus pode sobreviver dentro de variações de altitudes superiores a 6,1 mil metros, as maiores do mundo para qualquer mamífero.

O ponto mais alto do Llullaillaco, o segundo vulcão mais alto do mundo, é um dos locais mais inóspitos da Terra. O solo nessa torre situada na fronteira do Deserto do Atacama, é vermelho e semelhante ao do planeta Marte. Embora as temperaturas atmosféricas raramente subam acima do ponto de congelamento, o solo pode aquecer a cerca de 32oC sob o brilho intenso do sol.

Curiosamente, o pico dessa montanha que se estende pela Argentina e pelo Chile abriga o mais alto sítio arqueológico do mundo: uma área com múmias cujo estado de preservação está praticamente intacto.

Os colegas norte-americanos de alpinismo, Matt Farson, médico especialista em cuidados de urgência, e Thomas Bowen, antropólogo, subiram três vezes ao pico, para, entre outras motivações, visitar o sítio arqueológico.

Em 2013, a empreitada levou a uma descoberta inesperada: o mamífero com o habitat mais alto do mundo.

Um dia, ao procurar a melhor rota para alcançar o cume com altitude aproximada de 6,7 mil metros, Farson viu algo se mexer. Ele se virou e observou um animal semelhante a um camundongo atravessar rapidamente a neve.

Naquele momento, ele estava esgotado com a falta de oxigênio devido à altitude de quase 6,2 mil metros — e achou que podia estar vendo coisas. Por sorte, conseguiu capturar a imagem na câmera. “A partir de uns 4,8 mil metros de altitude já não vi mais nenhum animal... então não fazia sentido ver um bicho por ali”, conta Farson.

Um camundongo da espécie Phyllotis xanthopygus, avistado por Matt Farson em 22 de janeiro de 2013, a uma altitude aproximada de 6,2 mil metros no vulcão Llullaillaco.

Uma expedição posterior revelou que o animal era o camundongo da espécie Phyllotis xanthopygus, conhecido por viver nos sopés das montanhas e nas Cordilheiras dos Andes, mas que pode ser encontrado no nível do mar. 

Isso significa que o camundongo pode sobreviver dentro de variações de altitudes sem precedentes superiores a 6,1 mil metros. “Essa é uma área de ocorrência enorme, é extraordinário”, afirma Scott Steppan, especialista em camundongos e professor de biologia na Universidade do Estado da Flórida.

“Nenhuma outra espécie é capaz de tal feito”, prossegue Steppan, que comunicou a descoberta ainda não publicada no fim de junho na assembleia ordinária da Sociedade Norte-Americana de Especialistas em Mamíferos em Washington D.C.

Quebrando recordes

O pika-de-orelhas largas, o recordista anterior, foi observado a uma altitude aproximada de 6,12 mil metros — mais de 60 metros abaixo do novo recorde. Houve ainda avistamentos de iaques e carneiros-azuis a aproximadamente 6,1 mil metros, mas essa altitude está fora de sua zona habitável conhecida. No caso dos camundongos, acredita-se que os indivíduos façam parte de uma população consolidada.

Farson não sabia da importância do avistamento até contar a Bowen. “Fiquei surpreso por ser uma descoberta importante”, afirma Bowen.

A dupla procurou Steppan, especialista em camundongos dos Andes e deu início a uma colaboração com outra equipe que escalou o Llullaillaco em 2016. Esses pesquisadores, incluindo Steven Schmidt, da Universidade do Colorado em Boulder, encontraram outro camundongo no mesmo ano e coletaram amostras do DNA presente no solo do exterior da toca do roedor.

O DNA correspondeu exatamente ao camundongo da espécie Phyllotis xanthopygus. “Cada um dos sete fragmentos de DNA apresentou uma correspondência exata na análise filogenética. Fiquei espantado com tanta precisão”, afirma Steppan.

O achado torna ainda mais intrigante o vulcão Llullaillaco, que já possui micróbios únicos, as múmias e um lago situado em uma das maiores altitudes do mundo.

A comparação com Marte também não é de se estranhar: Schmidt e colegas vêm estudando há anos os micróbios da região, que, de algum modo, sobrevivem no solo cuja superfície pode oscilar 70oC em um único dia — e esses micro-organismos os ajudam a entender como um ser vivo poderia sobreviver em outro planeta menos habitável.

Mais perguntas

A descoberta suscitou mais perguntas: por que camundongos vivem a altitudes tão elevadas com metade do oxigênio que podem encontrar no nível do mar? Como sobrevivem quando as temperaturas caem para cerca de -50oC no inverno? E de que se alimentam?

Quanto à última pergunta, os alpinistas praticamente não encontraram nenhuma forma de vida vegetal que lhes pudesse servir de alimento, à exceção de partes de líquens e palhas arrastadas pelo vento de menores altitudes. Esses detritos soprados pelo vento devem ser sua principal fonte de alimento, supõe Steppan — apesar de não parecerem muito substanciais.

Jay Storz, biólogo da Universidade de Nebraska-Lincoln, estuda os roedores do gênero Peromyscus, que podem viver desde o nível do mar até altitudes superiores a 4,2 mil metros; eles são basicamente o equivalente da América do Norte para os camundongos da espécie Phyllotis xanthopygus, afirma.

Esses animais podem sobreviver a elevadas altitudes por meio de “um conjunto completo de mudanças fisiológicas”, como o metabolismo muscular mais lento e o sistema cardiovascular especializado, afirma Storz, que não participou da descoberta do Llullaillaco.

“Mas uma coisa está clara: não se trata de uma única característica”, afirma Storz, que viajará à montanha em 2020 para procurar o camundongo recordista. “Normalmente, é uma infinidade de alterações que permite que os animais sobrevivam a essas condições extremas.”

De olho no futuro

A descoberta é “totalmente inesperada e, por isso, merece mais pesquisas sobre esse animal, além de pesquisas de campo com enfoque em outras regiões semelhantes do mundo para estabelecer paralelos, como nas montanhas do Himalaia”, afirma James Patton, professor emérito da Universidade da Califórnia em Berkeley, que também não participou da pesquisa.

Ele acrescentou que o tamanho pequeno do camundongo sugere que a criatura é um filhote jovem de pais de uma população estabelecida e não uma ocorrência única ou um animal perdido, o que também se confirma pelo segundo avistamento de um animal vivo pela equipe de Schmidt em 2016 e pela observação de um camundongo “mumificado” feita na região por Farson em 2011.

Patton ficou surpreso pela capacidade de sobrevivência de um camundongo na região e quer saber mais sobre como isso é possível. “É no mínimo impressionante".

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