Animais

Como um leão-marinho foi parar na boca de uma baleia-jubarte

Fotógrafo de vida selvagem registrou o raríssimo momento.quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Por Sarah Keartes
Um fotógrafo na Baía de Monterey avistou uma baleia-jubarte que abocanhou por acidente um leão-marinho quando ambas as espécies se alimentavam da mesma aglomeração de peixes.

Durante um passeio de observação de baleias na semana passada, Chase Dekker, fotógrafo de animais silvestres, observou com espanto quando uma baleia-jubarte veio à superfície e fisgou um leão-marinho com a boca.

baleia-jubarte, a maior das três que o grupo observava — provavelmente com um comprimento aproximado de 15 metros — abriu a boca para se alimentar de peixes e, por acidente, “levantou o leão-marinho macho como se não pesasse nada”, afirma Dekker, que trabalha como naturalista para a Sanctuary Cruises, empresa de observação de baleias.

“Assim que vi a fotografia, soube que poderia ser uma das imagens mais raras que já registrei”, conta Dekker. “Não a mais bonita, não a mais artística, mas provavelmente algo que nunca verei de novo”.

Essa é a melhor época do ano para avistamentos de baleias-jubarte na Baía de Monterey: os gigantes famintos ficam na região a cada verão para se alimentar de cardumes de anchovas. Os peixes também atraem outros predadores, resultando em espetaculares frenesis alimentares.

Geralmente, os predadores evitam uns aos outros e os leões-marinhos normalmente saem do caminho quando as baleias-jubarte se preparam para comer. Este processo, chamado de alimentação por arremetida, consiste em uma investida à frente, engolindo o alimento em uma abocanhada enorme. Em seguida, as baleias borrifam água para fora e forçam os peixes a atravessar estruturas flexíveis semelhantes a pentes em suas bocas, chamadas de barbas.

Revezamento

“É possível notar um padrão de aglomerações de presas”, explica Dekker, referindo-se aos turbilhões de peixes. “As baleias mergulham e os leões-marinhos geralmente vão logo em seguida. Quando os leões-marinhos aparecem de volta, as baleias normalmente estão 10 a 30 segundos atrás deles”.

Ocasionalmente, os leões-marinhos acabam próximos às baleias, por vezes, perto o suficiente para um esbarrão, mas são poucos os contratempos dessa magnitude durante as refeições. O avistamento de Dekker despertou o interesse de Christie McMillan, bióloga da Sociedade de Pesquisa e Educação Marinha da Colúmbia Britânica, que estuda os hábitos alimentares da baleia-jubarte.

“A foto nos surpreendeu”, afirma McMillan, destacando que os casos mais documentados dessa natureza envolvem pequenos pássaros marinhos.

“Uma vez, um colega nosso viu um airo muito sortudo voar da boca de uma baleia, ela abriu a boca duas vezes na superfície para que a ave saísse”, acrescenta ela. Os pesquisadores também viram baleias libertando gaivotas, vivas e mortas, que tinham sido engolidas por acidente.

Encontros inusitados como esse com espécies maiores, como pelicanosfocas-comuns, e até insólitos encontros com mergulhadores são relatados de tempos em tempos, mas são excepcionalmente raros.

“Nunca tinha visto isso acontecer com um leão-marinho”, afirma McMillan. “Nem nunca tinha ouvido falar nisso.”

Ninguém sabe dizer o que exatamente causou a colisão subaquática, mas são sensacionais os relatos de que o leão-marinho foi “engolido”. Provavelmente, nada grave aconteceu com nenhum dos animais.

Se não há prejuízo, não há falta

Apesar de seu tamanho impressionante, as baleias-jubarte se alimentam por filtragem e consomem krills e outros plânctons, além de pequenos peixes como sardinhas, salmões jovens e arenques. Essa preferência por pequenas presas indica que os corpos das baleias não sejam adaptados a engolir animais maiores. Em repouso, a garganta de uma baleia-jubarte possui aproximadamente a largura de um punho humano. E embora o esôfago possa esticar para caberem refeições discretamente maiores, ele alcança no máximo um diâmetro entre 30 e 40 centímetros.

É raro até mesmo aves passarem pela garganta de uma baleia, embora consigam passar às vezes, de acordo com uma análise de fezes de baleias em Glacier Bay e Icy Strait, no Alasca. Quando isso acontece, as aves são mal digeridas e sobem à superfície em uma forma que McMillan chama de “tijolos de aves”.

Uma vez na superfície, uma baleia que se alimenta por arremetida normalmente fecha a boca quase imediatamente para aprisionar os peixes no interior. Contudo, nesse caso, a baleia-jubarte manteve a boca aberta na superfície por 10 segundos, provavelmente porque o animal sentiu “uma sensação estranha com o leão-marinho”, afirma Joy Reidenberg, anatomista especializada em baleias.

Embora os observadores de baleias não tenham conseguido ver o que aconteceu depois que a baleia abocanhou o leão-marinho, ele provavelmente escapou rapidamente durante essa pausa.

“Não acho que seria trabalho algum para um leão-marinho grande”, afirma Robert Delong, líder do Programa de Ecossistemas de Correntes da Califórnia da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional. “São animais bastante robustos e, para um leão-marinho, ficar na boca de uma baleia seria como ficar em uma piscina.”

Da mesma forma, os especialistas também concordam que é improvável que o leão-marinho tenha ferido a baleia. Os maxilares das baleias-jubarte são incrivelmente fortes, adaptados para suportar a força imensa da batida da água durante a alimentação. As baleias ainda respiram por orifícios respiratórios, separados das bocas e muito raramente bloqueados por detritos.

Quanto às barbas cobertas de cerdas da baleia, essas fibras e placas são flexíveis e resistentes a fraturas graças aos elevados teores de queratina. Assim como as nossas unhas, as barbas são capazes de se curvar bastante antes de quebrar, mesmo sob o peso de um leão-marinho, entre 180 e 280 quilogramas. E, além disso, as barbas crescem de volta com o tempo.

“Não avistamos nenhum leão-marinho ferido naquele dia, então acreditamos que ele simplesmente tenha escapado ileso sem nenhum transtorno”, afirma Dekker. “Cerca de cinco minutos depois, todas as baleias voltaram a se alimentar como se nada tivesse acontecido.”

Dekker e o restante dos observadores talvez demorem a esquecer o ocorrido. “Passei milhares de horas observando a alimentação de baleias-jubarte, mas nunca acreditei que um dia testemunharia isso. Pode muito bem ter sido uma única vez na vida”, afirmou ele.

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