População de efeméridas caiu pela metade desde 2012, ameaçando cadeia alimentar

Os insetos voadores, que formam enxames visíveis pelo radar meteorológico, estão passando por uma redução drástica.terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Todos os verões, as efeméridas irrompem de lagos e rios e voam em direção à América do Norte. Esses insetos, especialmente abundantes no norte da bacia do rio Mississipi e nos Grandes Lagos, são aquáticos até se transformarem em adultos voadores. Sincronizam seu voo para formar enxames de mais de 80 bilhões de indivíduos — tão grandes que, nas cidades à beira-mar, às vezes são carregados por máquinas limpa-neves.

Os surgimentos desses insetos fornecem alimento para uma grande variedade de animais, desde percas e outros peixes de água doce comercialmente importantes até pássaros e morcegos. Mas uma nova pesquisa mostra que o número de efeméridas reduziu. Desde 2012, as populações do inseto caíram mais de 50% em todo o norte do Mississippi e no Lago Erie, provavelmente devido à poluição e à proliferação de algas, de acordo com um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Ficamos realmente surpresos com a redução constatada ano após ano”, diz o autor principal do estudo, Phillip Stepanian, biometeorologista da Universidade de Notre Dame. “Isso foi bastante inesperado”.

Esses enxames são tão grandes e densos que aparecem no radar meteorológico utilizado para rastrear chuva e neve e, durante muito tempo, os meteorologistas ignoraram os sinais, pois pareciam um “ruído”, ele explica. Mas Stepanian, formado em meteorologia, percebeu que esses sinais poderiam fornecer informações úteis sobre populações e deslocamentos de animais, como pássaros e insetos, incluindo as efeméridas.

Na publicação, Stepanian e colegas utilizaram o radar para estimar as populações dessa espécie, validando o método ao compará-lo com o número de ninfas encontradas nos sedimentos acumulados no fundo de rios e lagos.

O estudo revelou que, entre 2015 e 2019, as populações de efeméridas do gênero Hexagenia reduziram de forma impressionante em 84% no oeste do Lago Erie. Na bacia vizinha do rio Mississippi, ao norte, a redução foi de 52% entre 2012 e 2019.

Essas populações cada vez menores significam muito, porque os insetos representam um importante elo na cadeia alimentar, servindo de alimento para diversos predadores. Além disso, transferem quantidades abundantes de nutrientes da água para a terra, um valioso serviço ecológico.

“As efeméridas desempenham um papel crucial nos ecossistemas aquáticos e terrestres”, explica Jason Hoverman, ecologista da Universidade Purdue, que não participou da pesquisa.

“Devido ao seu papel essencial enquanto presa, as reduções na sua população podem ter efeitos em cascata nos consumidores em toda a cadeia alimentar”.

Um declínio preocupante

Existem várias razões possíveis para esse declínio. Primeiro, os níveis de pesticidas neonicotinoides aumentaram nos últimos anos no Lago Erie e em muitos sistemas de água doce no Centro-Oeste. Os produtos químicos, que são tóxicos para muitos insetos, foram medidos nos afluentes dos Grandes Lagos em níveis 40 vezes superiores aos níveis de proteção estabelecidos pelo Aquatic Life Benchmark da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, segundo um estudo de 2018.

Em segundo lugar, o Lago Erie é especialmente atingido por algas em proliferação devido ao excesso de escoamento de fertilizantes e outros poluentes carregados de nutrientes. Essas proliferações podem resultar em “zonas mortas” sem oxigênio, tóxicas para criaturas que vivem submersas, como as ninfas de efeméridas. Em terceiro lugar, a temperatura das águas está aquecendo à medida que o clima muda, o que impacta potencialmente o ciclo de vida do inseto e, provavelmente, diminui a circulação de oxigênio no lago.

Essa espécie serve como um indicador geral da qualidade da água, explica Kenneth Krieger, diretor emérito do Centro Nacional de Pesquisa da Qualidade da Água da Universidade de Heidelberg, que estuda as efeméridas do Lago Erie há muitos anos. É por isso que seu declínio é motivo de preocupação, acrescenta.

“É provável que outras populações de espécies aquáticas de insetos estejam diminuindo pelos mesmos motivos”, segundo Francisco Sanchez-Bayo, ecologista da Universidade de Sydney, na Austrália. “A consequência inevitável disso é uma redução nas populações de pássaros, sapos, morcegos e peixes comedores de insetos nessas regiões”, afirma.

Apocalipse de insetos

Infelizmente, as efeméridas não estão sozinhas: estudos no mundo todo mostraram declínios alarmantes de uma grande variedade de insetos. Um estudo publicado no periódico Biological Conservation, em abril de 2019, demonstrou que 40% de todas as espécies de insetos estão em declínio e podem morrer nas próximas décadas.

Os neonicotinoides são conhecidos por sua toxicidade para insetos aquáticos e as efeméridas parecem ser particularmente vulneráveis a eles, de acordo com o artigo. Outro estudo recente descobriu que o uso de neonicotinoides em um lago japonês reduziu o número de invertebrados aquáticos e causou um colapso subsequente nas populações de duas espécies de peixes comercialmente importantes que deles se alimentavam.

As populações de efeméridas já foram reduzidas em décadas anteriores e depois se recuperaram, mas o declínio consistente e contínuo nesses últimos anos é preocupante, alerta Hoverman.

“Essa pesquisa contribui para a crescente lista de estudos que mostram declínios expressivos nas populações de insetos”, conclui.

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