Ataque de leopardo nos EUA coloca humanos — e grandes felinos — em situação complicada

Vídeos on-line de proprietários de zoológicos não credenciados criam a falsa impressão de que é seguro brincar de luta com grandes felinos adultos.

Publicado 8 de nov de 2020 09:30 BRST
Um leopardo-negro selvagem descansa sob uma árvore no Parque Nacional Nagarhole, na Índia. Um homem foi ...

Um leopardo-negro selvagem descansa sob uma árvore no Parque Nacional Nagarhole, na Índia. Um homem foi recentemente atacado por um leopardo-negro mantido em cativeiro na Flórida após pagar US$ 150 para entrar em sua jaula.

Foto de Phillip Ross, Felis Images, Nature Picture Library

NO ÚLTIMO MÊS DE AGOSTO, Dwight Turner pagou US$ 150 para entrar na jaula de um leopardo-negro em uma residência no estado da Flórida, nos Estados Unidos. O leopardo o atacou quase que imediatamente, arrancando metade da sua orelha direita com os dentes e ferindo sua cabeça. A esposa dele teve que pressionar um pedaço solto de seu couro cabeludo de volta no lugar.

O incidente ocorreu na casa do criador de animais Michael Poggi em Davie, Flórida, durante o que deveria ser uma “experiência de interação total” com o leopardo, na qual Turner faria carinho na barriga do animal e tiraria fotos com ele.

O ataque é um trágico lembrete de que grandes felinos são perigosos para as pessoas — uma realidade que foi distorcida pelas lentes das mídias sociais. Diversos proprietários de grandes felinos ficaram famosos pelo documentário A Máfia dos Tigres, da Netflix, e em plataformas como TikTok, YouTube e Instagram, com a publicação de vídeos que mostram eles brincando de luta livre e nadando com seus tigres e leões adultos, criando uma falsa impressão de que essas interações são seguras.

“O cérebro desses animais é desenvolvido para emboscar predadores”, explica Imogene Cancellare, Exploradora da National Geographic e bióloga de preservação que estuda leopardos-das-neves. “Não existe um cenário em que entrar em um [espaço] com um grande felino seja 100% seguro, mesmo que ele seja domesticado”, ela esclarece, assim como a maioria dos grandes felinos abrigados em zoológicos não credenciados e em residências por todo o país.

Grandes felinos domesticados ainda são geneticamente selvagens e foram condicionados a interagir com seus donos apenas para receber alimento, ela afirma. “Em minha opinião profissional, no fim das contas, não há nada que se possa fazer para que um tigre, um leão ou uma onça-pintada ame seu dono o suficiente para superar seus instintos predatórios que podem mudar repentinamente.”

Interação ilegal

Após o ataque, divulgado em primeira mão pelo noticiário do canal de TV Local 10 na Flórida, Turner passou por duas cirurgias e levou 22 pontos na cabeça. Ele ainda corre o risco de perder a orelha direita, de acordo com o relatório realizado pela Comissão de Conservação de Peixes e Vida Selvagem da Flórida (FWC), agência que investigou o caso. Turner pretende processar Poggi, o dono do leopardo, segundo relata seu advogado ao noticiário da Local 10.

Poggi não respondeu ao pedido de comentário da National Geographic.

Ele recebeu uma autorização do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos para a criação de animais e tem a posse legal do leopardo. Mas a lei da Flórida proíbe que um visitante tenha contato total com um grande felino com peso acima de 11 quilos. De acordo com o relatório policial, a FWC acusou Poggi de “permitir que um visitante tivesse contato total com um leopardo-negro adulto extremamente perigoso” e de “manter um animal selvagem em cativeiro sem a segurança necessária”. Poggi deve comparecer em audiência marcada para 2 de dezembro e a pena pode chegar a até um ano e meio de prisão e US$ 1.500 em multas.

As regulamentações federais também determinam a instalação obrigatória de grades entre o público e grandes felinos com idade acima de 12 semanas. Por esse motivo, encontros com grandes felinos adultos são raros em zoológicos não credenciados dos Estados Unidos. A margem de erro nessas interações, segundo o Explorador da National Geographic Andrew Stein, fundador do CLAWS Conservancy, organização sem fins lucrativos com foco na redução de conflitos entre humanos e a vida selvagem, “representa a diferença entre ter uma interação segura e a possibilidade de morrer”.

O criador de animais Michael Poggi mantém seu leopardo-negro nessa jaula no quintal de sua casa.

Foto de Florida Fish and Wildlife Conservation Commission

Contudo, esse tipo de interação turística é comum em outros países, especialmente no Sudeste Asiático, e acaba sendo normalizada por diversos donos de grandes felinos famosos no Instagram, que interagem com seus animais em vídeos nas mídias sociais.

A atração da fantasia criada pelas mídias sociais

Há “esse romantismo inspirado na história de Mogli - O Menino Lobo sobre a relação com os animais”, diz Siobhan Speiran, doutoranda em estudos ambientais na Queen’s University em Ontário, que passou os últimos três anos pesquisando a influência das mídias sociais na percepção das pessoas sobre animais selvagens. Todos os proprietários famosos de animais exóticos como Kody Antle, Kevin Richardson “O Encantador de Leões” e Eduardo Serio da fundação Black Jaguar White Tiger no México, alcançaram milhões de seguidores por publicarem regularmente vídeos de si mesmos brincando de luta com seus grandes felinos — como se fossem Moglis dos tempos modernos.

Essas publicações e vídeos “criam uma mitologia acerca dos tratadores de animais — especialmente os homens”, diz Speiran. “Há algo místico em tudo isso, como se pensassem ‘Nossa, eles têm uma alcateia de leões própria!’”, o que pode levar alguém a querer fazer a mesma coisa, ela esclarece, “sem perceber que se trata de uma criação totalmente artificial. Esse homem não é um encantador de leões — isso não é nem um pouco natural.”

Mas as pessoas compram a ideia, querendo estar perto desses encantadores de animais “como eu gostaria de estar perto da Jane Goodall”, conta Speiran, observando que a admiração por pessoas que compartilham vínculos com animais é provavelmente um sentimento universal para qualquer fã de animais.

Os universos criados por esses donos de grandes felinos nas mídias sociais, entretanto, dificulta para uma pessoa comum conseguir diferenciar entre alguém que mantém, cria e vende acesso a animais selvagens exóticos e uma conservacionista como a Goodall, que trabalha para salvá-los, ela explica.

Ainda mais confusão é gerada pelo fato de muitos donos de zoológicos não credenciados afirmarem que são resgatadores ou que seu negócio ajuda a financiar a preservação dos animais. A família de Kody Antle possui uma instituição de caridade que busca arrecadar fundos para a preservação de tigres selvagens. Poggi descreve seu negócio como um santuário de animais (santuários legítimos normalmente não permitem contato de animais selvagens com o público, de acordo com a Federação Global de Santuários de Animais). Essas são táticas comuns de marketing utilizadas na indústria de zoológicos privados para que os visitantes acreditem que o dinheiro que estão pagando para interagir com os animais selvagens está os ajudando.

Questões de bem-estar em zoológicos não credenciados foram bem documentadas. Além da reprodução acelerada dos tigres para que sempre existam filhotes disponíveis para os turistas acariciarem, alguns não fornecem alimentação, jaulas e tratamento veterinário adequados. Mês passado, Doc Antle, pai do Kody e proprietário do zoológico não credenciado da família, o Myrtle Beach Safari, foi acusado de tráfico de animais selvagens e crueldade. Outro personagem do documentário A Máfia dos Tigres, Jeff Lowe, perdeu sua licença para exibir animais após autoridades documentarem inúmeros casos de sofrimento animal.

“As pessoas provavelmente pensam que se [a propriedade privada de grandes felinos] de fato for tão ruim, seria ilegal”, diz Speiran. Mas “os animais são, de diversas formas, a última fronteira de justiça social.”

Cancellare, Speiran e Stein dizem que a Lei de Segurança Pública de Grandes Felinos, que busca proibir em âmbito federal a criação comercial, o tratamento público e a posse de grandes felinos como animais de estimação, poderia fazer a diferença para refrear a posse de grandes felinos e a criação doméstica nos Estados Unidos, oferecendo segurança tanto a animais como às pessoas.

Proibir carícias em filhotes “diminuiria a constante demanda por grandes felinos criados domesticamente e também reduziria as interações com animais adultos — resultando esperançosamente em menos artigos publicados sobre maus-tratos”, diz Cancellare.

O propósito da existência desses animais não é serem acariciados pelas pessoas, o propósito que deveríamos compreender, ela diz, “é deixá-los em paz”.

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