Descubra por que animais venenosos não envenenam a si mesmos

Aves e anfíbios tóxicos desenvolveram uma estratégia de proteção — mas diferente da que imaginávamos.

Publicado 11 de ago. de 2021 17:00 BRT
poison dart frog

As rãs-flechas-azuis são nativas da região de Sipalwini, no Suriname.

Foto de Jon G. Fuller/VWPics / Alamy Stock Photo

Nas florestas da Nova Guiné vive um pequeno pássaro aparentemente comum com um segredo mortal. É chamado de pitohui-de-penacho, e suas penas de cor laranja e preta contêm veneno.

Basta tocar as penas de um pitohui para ter a sensação de que suas mãos estão pegando fogo. Contudo, ao ingerir um pouco da batracotoxina, abreviada como BTX, o veneno interrompe o funcionamento dos canais de sódio, provocando paralisia e até a morte.

“Esses venenos são uma substância química natural. É um recurso de proteção empregado pelos animais para proporcionar uma sensação muito desagradável a seu predador ou até mesmo, na pior das hipóteses, matá-lo”, afirma Daniel Minor, biofísico do Instituto de Pesquisa Cardiovascular de São Francisco na Universidade da Califórnia.

Os cientistas acreditam que o pitohui não produz suas próprias toxinas, mas as adquire ao ingerir um pequeno besouro que é sua presa. Suspeita-se que o mesmo mecanismo esteja em ação em rãs-flechas-azuis, encontradas na América do Sul e América Central, que também contêm BTX em sua pele de coloração viva.

Tudo isso suscita uma questão intrigante: como animais venenosos como os pitohuis evitam envenenar a si mesmos?

Por décadas, a melhor teoria foi a de que esses pássaros e anfíbios desenvolveram canais de sódio — uma parte do corpo necessária para que nervos, células cerebrais e células musculares funcionem de modo adequado — especialmente adaptados para serem imunes à BTX. Afinal, existem vários exemplos de animais que não são afetados por toxinas que empregam esse método, como os icnêumones que podem sobreviver a veneno de cobra.

Mas um estudo publicado em 05 de agosto de 2021 no periódico Journal of General Physiology refuta essa teoria.

Os pesquisadores fornecem evidências de que o pitohui e sapos venenosos dispõem do que eles denominam “esponjas de toxinas”, ou proteínas que absorvem toxinas fatais antes de serem feridos.

Encontrando evidências da proteína “esponja de toxinas”

No laboratório, Minor e seus colegas recriaram os genes responsáveis pelos canais de sódio do pitohui e de sapos venenosos e os colocaram em células vivas de várias espécies que foram expostas à BTX. Essas células sucumbiram à toxina, sugerindo que os canais de sódio dos animais venenosos não são resistentes à BTX. Contudo, quando injetaram BTX em sapos vivos de diferentes espécies, apenas os sapos venenosos sobreviveram.

“Esse resultado sugere que há algo que basicamente confere aos canais proteção contra essa toxina”, afirma Minor. Sua principal teoria é a proteína de esponja, já identificada anteriormente por ele. Em 2019, o laboratório de Minor encontrou uma esponja de toxina que confere a rãs-touro imunidade a outro veneno potente denominado saxitoxina. Embora ainda não tenha encontrado algo semelhante no pitohui ou nos sapos venenosos, certamente é um de seus objetivos, conta ele.

Rebecca Tarvin, bióloga evolutiva da Universidade da Califórnia em Berkeley, que pesquisou como os sapos venenosos toleram outra neurotoxina denominada epibatidina, está impressionada com os resultados.

“Sobretudo devido à minha linha de pesquisa, fiquei muito surpresa ao saber que os canais de sódio de sapos venenosos não são sensíveis à batracotoxina, algo inesperado”, afirma Tarvin, que também é Exploradora da National Geographic.

Mas ela também alertou contra a generalização excessiva dos resultados. “Essa é apenas uma das inúmeras toxinas presentes nos sapos”, adverte ela. “Mas estou convencida quanto à toxina específica testada.”

O estudo de toxinas pode contribuir com avanços médicos

Embora aves de ilhas distantes e sapos de florestas tropicais possam parecer um campo de estudos limitado, desvendar sua magia biológica pode ter aplicações para pessoas do mundo inteiro.

“Historicamente, as toxinas vêm desempenhando um papel importante ao ajudarem a intervir em determinadas proteínas e descobrir sua função, além de servirem como base para o desenvolvimento de medicamentos”, observa Tarvin.

Por exemplo, foi demonstrado que um componente do veneno da rã-touro apresenta alguns efeitos anticâncer em testes de laboratório, ao passo que a tetrodotoxina presente em várias criaturas, como baiacus e tritões, foi apontada como fonte de novos anestésicos.

“Para mim, a pergunta mais intrigante é: por que esses animais não morrem com a própria toxina?”, indaga Minor. “Mas essa resposta também forneceria informações fundamentais sobre sistemas biológicos.”

 

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