Icônico radiotelescópio de Porto Rico sob risco de desabamento

O Observatório de Arecibo, responsável pela descoberta de planetas e busca por vida extraterrestre, apareceu em filmes clássicos e corre perigo após o rompimento de dois cabos que sustentam o telescópio.

Publicado 21 de nov de 2020 09:00 BRST
A principal antena parabólica do Observatório de Arecibo figura entre os maiores radiotelescópios de antena única ...

A principal antena parabólica do Observatório de Arecibo figura entre os maiores radiotelescópios de antena única do mundo. Um dos cabos se partiu em agosto, causando uma abertura de 30 metros de comprimento na antena. Outro cabo rompeu em 6 de novembro, colocando o telescópio inteiro em risco.

Foto de University of Central Florida

Um dos radiotelescópios mais respeitáveis do mundo está à beira de uma catástrofe, colocando engenheiros em uma corrida contra o tempo no Observatório de Arecibo, em Porto Rico, para salvá-lo após o rompimento de dois cabos primordiais à sustentação de uma plataforma de equipamentos com mais de 900 toneladas.

A plataforma, que fica suspensa sobre uma gigantesca antena parabólica por meio de cabos ligados a torres, precisa ser estabilizada logo ou poderá cair e destruir o telescópio. Sem esses dois cabos, os cabos restantes sofrem maior tensão e não se sabe ao certo se as tentativas de resgate serão bem-sucedidas.

“Na minha opinião, a chance de dar certo é de aproximadamente 50%”, afirmou Michael Nolan, ex-diretor do observatório, que hoje está na Universidade do Arizona. “Estão fazendo o possível, mas temo que possa não ser suficiente. Há risco de queda e ninguém deveria subir ou estar lá se isso acontecer.”

Suspensa por meio de três torres, a plataforma do telescópio fica cerca de 150 metros acima da antena de 300 metros de largura. Em agosto, um cabo auxiliar escapou do encaixe e afundou sobre a antena parabólica, causando uma abertura de 30 metros de comprimento em seus painéis refletores. Antes que as equipes pudessem consertar esse cabo, um outro cabo conectado à mesma torre se partiu em 6 de novembro, era um dos quatro cabos principais que ligam a torre à plataforma.

“Não me preocupei tanto quando o primeiro cabo se partiu porque estava confiante de que o conserto levaria poucos meses”, relata Abel Méndez, astrônomo da Universidade de Porto Rico, em Arecibo, que utiliza frequentemente o telescópio para observações astronômicas. Mas Méndez conta que ficou surpreso com o rompimento do segundo cabo. “Agora, estou preocupado.”

Arecibo desempenhou um papel crucial na localização de planetas para além do nosso sistema solar, na busca de civilizações extraterrestres e no estudo de asteroides e outros planetas mais próximos da Terra. Atualmente, os cientistas utilizam o telescópio para estudar rajadas potentes de energia, denominadas rajadas rápidas de rádio, e para observar ondulações no tecido espaço-tempo, produzidas pela colisão de galáxias.

Cada uma das torres do observatório possui quatro cabos principais, mas apenas dois deles são necessários para manter a plataforma suspensa — desde que estejam em condições adequadas. A torre número quatro (assim numerada por estar na posição solar de quatro horas considerando o meio-dia ao norte) agora conta com apenas três cabos principais. Se outro desses cabos romper, não se sabe se os dois cabos antigos serão capazes de suportar a plataforma.

“Sem dúvida, é uma situação precária”, lamenta Frank Drake, ex-diretor de Arecibo (e meu pai). “Esse rompimento de cabos pode causar uma reação em cadeia a qualquer momento com o rompimento de mais cabos, levando a um desabamento completo.”

Seria um golpe duro para as observações científicas em andamento — e para Porto Rico, onde o observatório é fonte de orgulho, gerando empregos, atraindo turistas e compartilhando recursos com as comunidades vizinhas, sobretudo durante emergências como o furacão Maria.

Diversas empresas de engenharia e o Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos estão no local avaliando a plataforma sob perigo, enquanto inspeções diárias realizadas com drones enviam atualizações sobre os cabos. As equipes estão buscando maneiras de estabilizar a estrutura, como remover algum peso da plataforma com helicópteros, reduzindo a tensão do sistema descendo a plataforma e recolocando o cabo auxiliar que havia caído, que ainda está praticamente intacto após escapar do encaixe.

“Em breve, é provável que tenhamos uma ideia sobre qual solução paliativa poderá ser empregada e saberemos se é possível reduzir um pouco da tensão e eliminar o risco imediato para solucionarmos o problema como um todo”, afirma Nolan.

A plataforma suspensa sobre a antena de rádio de Arecibo contém muitos dos instrumentos científicos do observatório e corre perigo de desabamento após dois cabos que sustentam a estrutura terem se rompido.

Foto de Photogrpah by Xavier Garcia, Bloomberg via Getty Images

Corrosão nos cabos

Na década de 1960, os engenheiros construíram a gigantesca antena parabólica de Arecibo em uma das fossas naturais de Porto Rico. Uma plataforma triangular suspensa com equipamentos ajuda a apontar o telescópio a diferentes regiões dos cosmos. A plataforma está repleta de receptores, linhas de alimentação e um sistema refletor complexo que focaliza precisamente as ondas de rádio — no qual James Bond lutou com Alec Trevelyan no filme 007 contra GoldenEye, de 1995.

Embora possa parecer pequena se comparada à parabólica, a estrutura suspensa é, na verdade enorme — uma casa pequena caberia facilmente dentro da cúpula que abriga seu sistema refletor.

A plataforma é sustentada por cabos de aço com espessura aproximada de 45 centímetros, ligados a três torres de concreto, dentre as quais a mais alta mede cerca de 110 metros de altura. Além dos quatro cabos principais de cada torre, foram instalados dois cabos auxiliares por torre na década de 1990 para ajudar a estabilizar a estrutura e suportar peso adicional.

A equipe do observatório inspeciona regularmente as torres, os cabos e a plataforma, atenta a quaisquer sinais de enfraquecimento ou corrosão causada pelo ar salgado tropical.

“Não há nada pior do que a maresia quando falamos de corrosão”, explica Dennis Egan, engenheiro do Observatório Green Bank, na Virgínia Ocidental. “A corrosão chega a ser menor embaixo d’água.”

Essas inspeções revelaram alguns sinais de filamentos partidos nos cabos, um problema que, segundo suspeitas de Nolan , pode ter sido agravado pelo Furacão Maria e a sucessão de terremotos de tamanho considerável que ocorreram recentemente. Mas não foi encontrada nenhuma indicação de enfraquecimento generalizado ou desabamento iminente. Em uma página de perguntas e respostas publicada no Facebook, Francisco Córdova, diretor da Arecibo, disse que o rompimento foi inesperado e indica uma deterioração estrutural.

O observatório “existe há 50 anos e nunca houve uma situação em que, subitamente, diversos filamentos diferentes se partissem”, relata Drake, que enviou uma mensagem memorável ao espaço sideral pelo observatório em 1974. “Não gostaria de ser responsável pelos reparos neste momento. Não há escapatória. Estamos sem opções.”

Se a torre quatro desabar, a plataforma pode atravessar a antena parabólica ou ser arremessada em um movimento pendular a um penhasco próximo. Sem o peso da plataforma para manter as torres equilibradas, as três torres podem tombar na mata circundante.

Se os engenheiros conseguirem estabilizar a estrutura, poderão consertar ou substituir alguns dos cabos antigos. Dois novos cabos já foram encomendados, divulgou Córdova no Facebook, e devem chegar ao observatório em dezembro.

Contudo, para substituir os cabos, será necessário subir na plataforma. “É preciso verificar se os cabos restantes estão íntegros para não colocar as pessoas na estrutura em risco”, completa Drake.

Um ícone científico e cultural

O Observatório de Arecibo enfrentou diversos desafios nos últimos anos, incluindo ameaças de corte de recursos da Fundação Nacional da Ciência (NSF, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. Mas após iniciativas conjuntas de cientistas e comunidades vizinhas, a Universidade da Flórida Central interveio para administrar o observatório, que estava em apuros.

Agora, muitos se perguntam se a NSF socorrerá Arecibo nessa emergência. Segundo uma publicação nas redes sociais de Córdova, a NSF está analisando um pedido de financiamento de US$ 12,5 milhões para reparos.

“A NSF está em contato com Arecibo. Estamos monitorando a situação e considerando todas as opções possíveis para agilizar a estabilização da estrutura”, informou a fundação em nota. “Nossa prioridade é a saúde e a segurança dos funcionários de Arecibo.”

Apesar dos problemas atuais, o observatório tem uma longa e conhecida história e é fonte de orgulho entre os cientistas e porto-riquenhos.

“Ele está enraizado na cultura de Porto Rico, na essência de seu cotidiano”, afirma Edgard Rivera-Valentín, do Instituto Lunar e Planetário, cujo avô participou da construção do telescópio. “Lembro-me claramente de como fiquei impressionado com a dimensão colossal desse instrumento e quando soube quantas pessoas realizavam observações muito interessantes aqui na minha cidade”, conta Rivera-Valentín. “Resolvi atuar na área científica porque cresci perto do observatório.”

As descobertas de Arecibo incluem a detecção, em 1974, de dois pulsares giratórios que emitem ondas gravitacionais — o que lhe conferiu o Prêmio Nobel de Física de 1993 — e os primeiros planetas avistados na órbita de uma estrela diferente do Sol em 1992. Cientistas em Arecibo também calcularam a velocidade de rotação de Mercúrio, identificaram uma rajada rápida de rádio repetida e conduziram inúmeras buscas por civilizações extraterrestres comunicativas — um feito eternizado no romance de Carl Sagan, Contato, mais tarde transformado em filme de mesmo nome.

Além de observar o céu e captar ondas de rádio, Arecibo também é um radar extremamente potente. Os cientistas utilizam suas capacidades para descrever asteroides que cruzam a órbita da Terra, calculando suas posições com extrema precisão para descobrir como evitar colisões futuras. Em 1974, meu pai o utilizou para enviar uma mensagem interestelar a um aglomerado de estrelas, denominado Grande Aglomerado, na constelação de Hércules. Nesse observatório, codificou informações sobre os humanos, a Terra, o sistema solar e Arecibo, e as transmitiu durante uma comemoração das modernizações do telescópio.

“Ele pode ser utilizado na ciência atmosférica, no estudo do sistema solar, na astronomia e na astrofísica”, conclui Rivera-Valentín. “É importante para a ciência e para o mundo inteiro.”

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