Uso excessivo de redes sociais pode causar doenças reais

A náusea digital, que antes era um problema resultante do uso de óculos de realidade virtual, parece estar aumentando conforme a pandemia leva nossos corpos ao limite cibernético.

Publicado 4 de jun de 2021 11:30 BRT
VR cybersickness

Pesquisadores constataram que óculos de realidade virtual (RV) podem causar náusea digital, que se manifesta como tontura e ânsia de vômito semelhante ao enjoo em alto-mar. À medida que aumenta o uso de dispositivos digitais desde notebooks a smartphones, alguns usuários começaram a relatar que sentem náusea digital quando tiram os óculos de RV.

Foto de Illustration by Victor de Schwanberg, Science Photo Library

Quando uma nuvem escura e cinzenta decorrente de incêndios florestais pairou sobre a região metropolitana de Seattle, Jack Riewe estava entre os milhões de pessoas que repentinamente ficaram presas dentro de casa. Era setembro de 2020 e, sem poder ficar ao livre em meio a uma pandemia, passou a ser ainda mais difícil para o escritor de 27 anos ver outras pessoas. Seu dia se resumia a alternar entre o trabalho remoto no computador, assistir TV ou ler as inúmeras notícias atualizadas sobre o incêndio no celular.

“Fui forçado a ficar dentro do meu apartamento quente, sem ter outra saída, a não ser a loucura que estava acontecendo no Twitter”, ele se recorda.

Ele ficou navegando pela tela do celular durante uma semana, até que começou a se sentir “angustiado, tonto e com náuseas”. Na época, ele atribuiu esses sintomas à qualidade do ar e chegou até a pensar se havia contraído o novo coronavírus. A causa era algo mais insidioso: as consequências físicas de se viver quase que inteiramente em um mundo virtual.

A pandemia obrigou a maioria de nós a ficar conectados on-line em níveis incomparáveis. Foi assim que trabalhamos, tivemos aulas, participamos de festas e nos afundamos nos vorazes ciclos de notícias de 2020. Mas nossos corpos não foram feitos para viver a maior parte do tempo em um espaço virtual como esse e, à medida que o tempo coletivo que passamos no mundo digital aumenta, uma reação chamada náusea digital, ou cybersickness em inglês, parece começar a atingir a população em geral.

Caracterizado por tonturas e náuseas, o cybersickness tem sido estudado principalmente no contexto de tecnologias de imersão, como óculos de realidade virtual. Em 2011, era provável que 30% a 80% dos usuários de realidade virtual apresentassem náusea digital, embora os óculos aprimorados tenham reduzido essa faixa para 25% a 60% em 2016.

Agora, parece que ficar zapeando pela Netflix ou em um feed de notícias de rede social também pode causar cybersickness quando ocorre em circunstâncias excepcionais, por exemplo, um dia inteiro ou todos os dias.

“Qualquer tipo de movimento percebido poderá causar cybersickness”, afirma Kay Stanney, CEO e fundadora da Design Interactive, uma pequena empresa que pesquisa a integração de sistemas humanos. “A náusea digital causada por realidade virtual ou realidade aumentada é apenas uma espécie semelhante a outras formas de náusea relacionada ao movimento percebido, e ficar navegando pelo celular seria uma delas.”

O antigo volta a ser novo

A náusea digital é, na verdade, apenas o neologismo mais recente para descrever o enfrentamento contínuo entre o corpo humano e um mundo em constante transformação tecnológica. É o mesmo que cinetose, ou seja, enjoo ao andar de carro, enjoo em alto-mar.

Relatos de doenças causadas por percepção desajustada datam de 800 a.C., quando os antigos gregos escreveram sobre uma “praga no mar”. Apesar de seu importante papel no comércio, na guerra e na migração, os navios podiam ser tão intolerantes para alguns passageiros que a náusea não era apenas um sintoma de enjoo em alto-mar, mas a única palavra para descrevê-lo. A palavra “náusea” tem sua origem na palavra grega para navio: naus.

Por volta de 300 d.C., os antigos chineses começaram a documentar náuseas decorrentes de todos os tipos de fontes, com palavras específicas para descrever cada experiência distinta: viajar em uma carroça provocava zhuche, ou influência de carroça, enquanto um navio causava zhuchuan, ou influência de navio.

Atualmente os cientistas entendem que o ponto em comum para todas as formas de enjoo causados pelo movimento é o sistema vestibular: a combinação de órgãos sensoriais no ouvido interno e no cérebro que controla o equilíbrio e a orientação espacial. Se ele perceber movimento quando seu sistema visual não percebe, a dissonância pode provocar vômitos ou, no mínimo, tontura e desequilíbrio.

A disparidade do século 21 é que tudo isso é invertido no espaço virtual. Em vez de se movimentar enquanto parece estar parado — como pode ser a sensação em um barco, ao olhar para o horizonte imóvel — ao utilizar essas tecnologias se está parado, mas percebendo movimento. E isso cria um enigma semelhante para o corpo.

“Do ponto de vista clínico, não há absolutamente nenhuma diferença entre as duas condições”, esclarece Eugene Nalivaiko, professor associado da Universidade de Newcastle, na Austrália, que estudou extensamente o enjoo de movimento geral e a náusea digital. “Eles têm os mesmos sintomas, as mesmas sensações, é tudo igual.”

O tempo não está a nosso favor 

Sarah Colley, divulgadora de conteúdo de 30 anos de Asheville, estado da Carolina do Norte, notou o agravamento de seus sintomas de cybersickness em março de 2021. Para cumprir um prazo de trabalho apertado, o tempo que ela passava na frente da tela aumentou e, por vários dias, ela ficou de 10 a 12 horas seguidas usando o computador. Além de tonturas e náuseas, ela relata que a própria tela parecia se mexer, dificultando o foco, desse modo, uma sensação de ansiedade tomou conta dela.

“Não me incomoda quando fico olhando fixamente para a mesma tela, sem precisar mover as páginas. Mas se preciso subir ou descer as páginas, é quando realmente se torna um problema”, relata ela. “Até quando fecho os olhos, tenho a sensação de estar girando.” Após o incidente em março, ela teve que tirar quatro dias de folga do trabalho para se recompor totalmente — um luxo que ela não poderia ter se permitido no emprego anterior, em que não havia nenhum benefício.

Para Colley, a ampliação da vida digital exacerbou os sintomas leves de cybersickness que ela apresentava esporadicamente antes da pandemia. Mas, para a maioria das pessoas, ter que passar mais tempo on-line é um aspecto totalmente novo, por isso ainda não há muitas pesquisas disponíveis sobre esse assunto. A maior parte das informações que temos a esse respeito é proveniente da pesquisa sobre realidade virtual.

Um gatilho para a náusea digital parece ser o tempo que passamos imersos no mundo digital, o que, segundo Stanney, coincide com sua pesquisa sobre óculos de realidade virtual, bem como prismas, telas 3D e telas 2D. Estranhamente, essa regra pode não ser aplicável à realidade aumentada. No dia anterior à nossa conversa, Stanney havia acabado de analisar os dados de um novo estudo liderado por ela e que ainda não foi publicado, e ela descobriu um padrão surpreendente.

“Antes desse estudo atual, eu teria confirmado com certeza absoluta: quanto mais tempo passamos em uma situação, mais incomodados ficamos. Mas a realidade aumentada atua de uma forma diferente que a da realidade virtual: quanto mais tempo passamos nela, melhor nos sentimos, o que é muito estranho”, indica ela. “Ainda estou tentando descobrir exatamente o que isso significa.”

No entanto, em geral, Stanney diz que o tempo não está a nosso favor no espaço digital. Alguns minutos navegando pelo Instagram, alternando entre janelas abertas em um notebook ou abrindo a Netflix para assistir a um programa específico pode ser benéfico, mas quando essas atividades se arrastam por horas, como acontece durante confinamentos, a movimentação persistente na tela pode nos deixar enjoados.

Stanney também acredita que o que causa o fenômeno com os dispositivos de uso diário não é apenas o maior tempo em frente à tela. Antes da pandemia, os humanos vivenciavam movimentos mais regulares em muitas direções, como viajando de avião e andando de carro e metrô com mais frequência. Porém, no último ano, muitas pessoas realmente desaceleraram: caminhamos, ficamos de pé, sentamos e deitamos.

Essa mudança pode ter deixado algumas pessoas menos resilientes a um tipo de movimentação em meios digitais que antes era tolerado, mas não percebiam que, na verdade, isso sobrecarregava seus sistemas. “Quando observamos essa desarmonia entre movimento visual e repouso — que é como estamos na maior parte do tempo [agora] — talvez ocorra uma desarmonia mais profunda”, explica Stanney.

Por exemplo, podemos pensar que estamos sossegados deitados na cama à noite, na escuridão serena, totalmente imóveis, exceto por um dedo que teima em navegar pelo Twitter. Mas Stanney afirma que “na verdade, ficar deitado na cama pode ser uma das piores coisas para se fazer”. Por ser a posição mais “relaxada” para o sistema vestibular, o movimento prolongado em uma tela torna-se extremamente difícil de se conciliar.

Um fator é a ausência daquilo que a pesquisa sobre realidade aumentada define como “estruturas de descanso”, as paredes ou pisos reais ao seu redor que agem como sinais estabilizadores para o cérebro. Segurar um telefone a centímetros de seu rosto no escuro imita as condições ambientais da realidade virtual — quando suas estruturas de descanso não estão presentes — e, portanto, pode ser igualmente difícil de tolerar por longos períodos. Os cientistas ainda não têm evidências empíricas de que as estruturas de descanso ajudam os usuários a tolerar a realidade aumentada por mais tempo do que a realidade virtual, mas Stanney especula que pode ser o caso e recomenda tentar ajustar o uso do telefone de acordo.

“Se o telefone estivesse um pouco mais distante, ou se estivéssemos em um local iluminado, poderia ajudar a diminuir alguns desses eventos adversos”, aconselha ela.

Se não conseguir se desconectar, Nalivaiko concorda que mudar o campo de visão segurando o telefone de maneira diferente pode ajudar, bem como movimentar o conteúdo da tela mais lentamente para assumir o controle da velocidade das imagens passando, outro fator do movimento digital que pode provocar náuseas. Sua pesquisa em modelos animais também sugere que ficar em um ambiente frio pode prevenir o enjoo causado pelo movimento. Para Riewe, ficar fechado em um apartamento quente sem descanso pode ter estimulado seus piores sintomas.

“Basta pensarmos nos sintomas durante o enjoo de movimento, que são suor, sensação de calor, vontade de ficar ao ar livre e fresco”, compara Nalivaiko.

Dispositivos tóxicos

Embora o enjoo de movimento e o cybersickness sejam incrivelmente bem documentados, o que continua a intrigar os pesquisadores é por que uma desconexão entre os sistemas vestibular e visual provoca náuseas.

“Apresentamos duas sensações aversivas: sentimos dor e temos náuseas”, relata Nalivaiko. “Ambos estão presentes quando a mãe natureza quer que paremos de fazer o que estamos fazendo, mas não sabemos o que a náusea tenta prevenir.”

A dor passa uma mensagem direta: odiou essa sensação? Então, nunca mais encoste na chama. Mas a náusea é mais gradual, sútil e imprevisível, especialmente quando relacionada a uma atividade que não parece abertamente perigosa, como sair para velejar ou ficar mexendo no smartphone.

A hipótese principal é que se trata de uma falha na ativação de um reflexo que evoluiu para nos manter a salvo de toxinas. O álcool, por exemplo, quando consumido muito rapidamente ou em abundância, pode fazer com que uma sala pareça estar girando, embora tenhamos certeza de que nossos pés estão firmes no chão. O álcool também pode nos matar. Desse modo, o corpo humano evoluiu para relacionar esse efeito de atordoamento a uma ameaça e para induzir náuseas, ajudando a eliminar a toxina e nos manter vivos.

Agora, quando vivenciamos a mesma incompatibilidade vestibular e visual provocada por fatores não ameaçadores, como os smartphones, nosso corpo pensa que estamos correndo um grave perigo. É uma metáfora apropriada para a toxicidade emocional que o exagero on-line pode desencadear e, no fim das contas, o cybersickness pode acabar sendo tão eficaz quanto um antídoto para um veneno real.

Quando Riewe finalmente descobriu o que era cybersickness, “foi um momento revelador”, recorda-se. “Desliguei imediatamente o celular e comecei a ler um livro. Troquei a vontade de vomitar por um sono tranquilo.”

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