Covid longa ainda é um mistério. Confira a luta de uma paciente por tratamento

Para uma em três pessoas que tiveram Covid-19, a doença se torna debilitante e crônica. Agora existem clínicas especializadas (e com longas filas de esperas) para tratar os efeitos prolongados.

Por Joanna Connors
Publicado 7 de jun. de 2022 10:07 BRT
Hinda Stockstill está exausta em seu quarto de hotel depois de um dia inteiro de consultas ...

Sofrendo de Covid longa, uma condição crônica caracterizada por uma extensa lista de sintomas que inclui fadiga, névoa cerebral, insônia, alterações no cheiro e sabor, falta de ar, palpitações, tontura, e perda de memória, Hinda Stockstill está exausta em seu quarto de hotel depois de um dia inteiro de consultas médicas em uma clínica de recuperação de Cleveland, EUA. Hinda contraiu o vírus Sars-Cov-2 em dezembro de 2020 e tem lutado contra seus efeitos desde então. A National Geographic  a acompanhou durante dois dias de consultas.

Foto de Jackie Molloy

Nos oito anos anteriores a dezembro de 2020, os registros médicos de Hinda Stockstill na plataforma MyChart mostram que ela visitou um médico apenas cinco vezes: duas para exames anuais e três para alergias sazonais.

Esse padrão mudou drasticamente durante a pandemia da Covid-19. Nos 17 meses e meio, entre 14 de dezembro de 2020 e 31 de maio de 2022, o MyChart de Hinda mostra 78 visitas a vários médicos, enfermeiros, assistentes médicos, terapeutas, laboratórios e salas de emergência. 

Todas elas estavam ligadas ao seu caso de Covid-19, que persistiu com uma extensa lista de sintomas que inclui, com mais destaque: fadiga, névoa cerebral, insônia, alterações no olfato e paladar, falta de ar, palpitações, tontura e perda de memória. A condição, que pode durar indefinidamente e varia em gravidade de acordo com o paciente, tem confundido e alarmado os profissionais médicos.

10h15 | Hinda começou o dia esperando na sala de exames pela primeira de três consultas médicas. Por ter Covid há muito tempo, ela se cansa mais facilmente. Uma vez jogadora de basquete, ela teve que reaprender a driblar com a bola.

 

Esta é uma história sobre a árdua jornada de Hinda pelo sistema médico para vencer a Covid longa e recuperar sua vida. É um caminho que centenas de milhares, possivelmente milhões, seguirão, de acordo com os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, que estimam que até 30% dos mais de 83 milhões de americanos que tiveram Covid-19 sofrerão de Covid longa. Os sintomas, de acordo com um relatório no The Lancet, chegam a 203 e muitas vezes debilitam os pacientes, mantendo-os na cama e os impossibilitando de trabalhar, ir à academia, ver amigos ou fazer refeições.

O diagnóstico tem sido particularmente frustrante para Hinda e milhares de outros pacientes, porque não existem exames de sangue ou quaisquer outros testes definitivos para Covid longa, o que leva os médicos a diagnosticar casos e executar testes com base em sintomas e na definição muito vaga do Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, em inglês): “novo, retornando, ou problemas de saúde contínuos que as pessoas experimentam após serem infectadas pelo vírus que causa a Covid-19.”

10h35 | A neurologista Zarmeneh Aly examina Hinda. Ela prescreveu o medicamento para ajudar com suas dores de cabeça e enxaquecas contínuas. A médica também recomendou que Hinda fosse submetida a testes não-invasivos, incluindo uma biópsia de pele e um teste de inclinação ortostática, que mede o quão bem o sistema nervoso controla o ritmo cardíaco, a pressão sanguínea e o suor.

A reportagem da National Geographic conheceu Hinda em abril na Clínica Cleveland, em Ohio, EUA, onde ela está inscrita em um programa para pacientes com Covid longa e teve consultas com três especialistas. Hinda concordou em deixar a equipe da National Geographic participar das consultas e deu acesso aos seus registros médicos, esperando que outras pessoas que sofrem da doença há muito tempo aprendessem com a batalha que ela teve que lutar para ser compreendida, diagnosticada e finalmente tratada.

Demorou meses para Hinda obter esse diagnóstico. “O primeiro médico que consultei me dispensou e disse que eu estava com ansiedade”, recorda. Muitas mulheres experimentaram o mesmo tratamento, não apenas com Covid longa, mas com muitas outras condições crônicas relacionadas a vírus, como síndrome de fadiga crônica ou letargia após infecção por Epstein-Barr, de acordo com registros médicos. Em um passado não muito distante, eles receberam um diagnóstico de “histeria”.

10h58 | Hinda e sua mãe, Eva Abdullahi, leram a papelada no final de seu exame de neurologia. A Covid longa de Hinda parecia a mesma que seus sintomas agudos de Covid-19: fadiga, névoa cerebral, falta de ar, batimentos cardíacos rápidos repentinos, dores de cabeça e dormência.

“Sim, senti que era porque sou mulher. E talvez porque eu seja negra”, disse Hinda. Ao ouvir, sua mãe, Eva Abdullahi, detalhou: “o pai dela é da Somália”.

Em 13 de abril de 2022, Eva dirigiu de sua casa, em Dayton, para o apartamento de Hinda, em Cincinnati, e depois foi para Cleveland, na noite anterior ao primeiro dia de consultas na clínica reCOPer. Na manhã seguinte, ela empurrou sua filha de 35 anos em uma cadeira de rodas pelo centro médico para a primeira consulta no departamento de neurologia.

“Ela costumava ser tão ativa”, comentou a mãe, olhando para Hinda na cadeira de rodas. “A cor dela também não é a mesma. Ela costumava ser radiante. Agora ela me parece anêmica”, complementou Eva.

Hinda parecia desanimada, um pouco irritada e simplesmente cansada de lidar com uma condição que ela conhecia tão bem que podia citar estatísticas de revistas médicas e recitar os termos científicos para vários distúrbios, como um médico.

11h03 | Eva leva a filha para o próximo exame. Às vezes, quando a luz é muito forte, Hinda cobre os olhos porque pode causar dor de cabeça.

Antes da Covid, Hinda tinha uma vida plena e ativa. Ela é bacharel em contabilidade e possui MBA pela Universidade de Dayton. Adorava o trabalho como gerente de escritório de uma companhia de seguros. Jogava basquete e vôlei, fazia voluntariado, ia à igreja, à academia para correr, levantar pesos e fazer aulas de aeróbica, e passava o tempo jogando cartas com um grupo de amigos.

A Covid-19 mudou tudo. “Fiquei isolada por um mês. Estava muito doente para ir trabalhar. Eu perdi tanto tempo com minha família e amigos. Um deles ainda não acredita que a Covid seja real”, relata. Outro amigo lhe disse: “Você está sempre triste e doente”.

A Covid longa de Hinda parecia com os mesmos sintomas agudos de Covid-19 que ela teve: fadiga, névoa cerebral, falta de ar, batimentos cardíacos rápidos repentinos, dores de cabeça e dormência. Outros eram novos. A comida cheirava a podre, como lixo. Ela emagreceu e também perdeu muito cabelo. “Acabou de sair um punhado”, disse Hinda, mostrando uma foto em seu telefone. "Foi assustador. Eu pensei: estou morrendo?”

Andy Slavitt, que atuou temporariamente como consultor sênior da equipe “Resposta à Pandemia de Covid”, do governo Biden, alertou recentemente que a Covid longa, em breve, eclipsará o impacto da versão aguda da doença. “Talvez a Covid deixe de ser lembrada pelos hospitais lotados, variantes imprevisíveis, controvérsias sobre máscaras e vacinas, ou mesmo pela enorme perda de vidas”, twittou Slavitt, em abril. “Poderá ser pensada, principalmente, como uma doença crônica que afeta dezenas de milhões.”

11h38 | A técnica Albena Markis realiza o eletrocardiograma de Hinda antes de sua consulta de cardiologia. Hinda soube mais tarde que seus resultados de eletrocardiograma eram normais.

Embora a Covid longa seja difícil de definir e diagnosticar, abordá-la dentro da estrutura médica tradicional gerou mais incertezas. Muitos pacientes, incluindo Hinda, saltavam das salas de emergência para internistas e especialistas, cada médico olhando apenas para sua respectiva parte do quadro.

Para responder a essa nova doença, universidades e hospitais nos Estados Unidos criaram clínicas multidisciplinares para oferecer aos pacientes um local centralizado de médicos que avaliam as condições deles e os encaminham para especialistas apropriados.

A mãe de Hinda soube de um desses centros (a Clínica ReCOVer, de Cleveland) e pediu à filha que conhecesse o local. Lá, Hinda teve sua primeira consulta em 14 de julho de 2021, sete meses depois de ser infectada pela Covid-19.

Kristen Englund, especialista em doenças infecciosas e agora diretora da ReCOVer, se inspirou para lançar uma dessas clínicas em agosto de 2020, pouco depois de ter sofrido uma crise de Covid-19. Embora ela não tenha sido hospitalizada, a recuperação foi lenta. “Senti como se tivesse sido atropelada por um caminhão. Nunca estive tão cansado na minha vida”, lembra.

Quando ela voltou ao trabalho, viu que muitos pacientes com Covid longa estavam ligando para o departamento de doenças infecciosas, desesperados por ajuda. “Percebi rapidamente que não havia absolutamente nada que ainda fosse infeccioso nesses pacientes, e nada que pudéssemos fazer por eles”, relata Englund.

12h33 | Hinda e sua mãe almoçam antes de sua consulta com o cardiologista. Ela tem sensibilidades alimentares que não experimentou antes de ter Covid longa.

A especialista começou a observar como outros hospitais estavam tentando ajudar esse grupo de pacientes em rápido crescimento. O Mount Sinai, em Nova York, lançou a primeira clínica pós-Covid em maio de 2020, instituindo um modelo de atendimento multiespecializado e um sistema de referência centralizado, que outros hospitais, incluindo a Cleveland Clinic, seguiram. “Percebi que essa não seria uma abordagem de tamanho único, e realmente precisávamos ter muitos especialistas diferentes disponíveis para os pacientes”, diz Englund.

O início

Hinda se lembra claramente da noite em que foi infectada pelo vírus. Era 1º de dezembro de 2020, meses antes de as vacinas se tornarem disponíveis. O chefe de Hinda a convidou para  embrulhar presentes de Natal para uma campanha de caridade.

Cinco dias depois, ela teve um caso grave de diarreia e se sentiu exausta. Doente, Hinda ligou para o trabalho, e descansou em seu apartamento, onde mora sozinha.

Dois dias depois, novos sintomas apareceram. Primeiro, calafrios e dor de garganta. Em seguida, congestão, coriza e tosse seca. Ela teve febre de 38ºC, o que desencadeou uma dor de cabeça intensa que durou quatro dias e não respondeu ao Tylenol. O corpo parecia estar queimando por toda parte. As mãos e os pés ficavam dormentes algumas vezes. Ela teve crises de tontura e estava com falta de ar. Começou a esquecer as palavras e a perder a linha de raciocínio. Seu coração disparou inesperadamente.

No terceiro dia de folga, Hinda havia perdido o paladar e o olfato. Naquele mesmo dia, seu chefe ligou para dizer que ela havia testado positivo para COVID-19 e, sem saber, havia exposto Hinda.

13h18 | Eva consola a filha a caminho do próximo exame. Hinda normalmente não usa cadeira de rodas, mas ela não estava se sentindo bem naquela manhã e ficou sobrecarregada com a ideia de caminhar até cada consulta na clínica.

Mas quando Hinda foi a uma clínica de atendimento de urgência para um teste rápido de Covid, ele deu negativo. “Fiquei aliviada. Achei que estava com uma gripe comum e ia para casa lidar com isso”, recorda.

No 11º dia, porém, ela estava muito mais doente. “Eu não conseguia respirar, me vestir, nem ficar de pé no chuveiro”, disse. Ela dirigiu até o pronto-socorro de um hospital próximo, após acidentalmente bater seu carro em uma parede de seu prédio. “Eu senti como se um homem de 135 quilos estivesse sentado no meu peito.”

Cerca de um ano depois que o mundo aprendeu sobre a Covid-19, os testes ainda eram escassos, então, o médico assistente do pronto-socorro solicitou uma radiografia de tórax como uma ferramenta de diagnóstico alternativa. Tudo ficou claro. Por causa do rastreamento de contatos que Hinda teve anteriormente e dos sintomas, um médico do pronto-socorro concordou que ela provavelmente tinha Covid-19. Mas, acrescentou: como Hinda era saudável e atlética, ela se recuperaria. “Vá para casa, descanse, beba Gatorade e tome Tylenol”, recomendou.

Busca por médicos

Então, Hinda começou uma odisseia pelo sistema médico que estava totalmente sobrecarregado pela pandemia. Uma de suas melhores amigas não acreditava que ela tinha Covid-19. Alguns médicos que ela viu foram desdenhosos e outro disse que ela só precisava descansar. 

Seu empregador queria que Hinda voltasse ao trabalho, mas ela estava com uma incapacidade temporária, e em alguns dias estava tão cansada que não conseguia sair da cama. A parte mais frustrante foi que ninguém conseguia explicar por que Hinda ficou Covid por muito tempo ou dizer a ela quanto tempo duraria.

No Natal de 2020, que ela passou sozinha pela primeira vez na vida, Hinda ficou frustrada com seu médico de cuidados primários. Ela sentiu que o médico estava embasado em seu teste Covid negativo, e não em seus sintomas, e não estava fornecendo o apoio de que precisava.

Hinda procurou outro médico e conseguiu uma consulta em 11 de janeiro de 2021, com Jonathan Buck, internista de Cincinnati. Ele passou quase uma hora com ela repassando sua história e sintomas. “Ele realmente teve tempo e me ouviu”, lembra Hinda.

14h04 | A enfermeira de cardiologia Brianna Delos Reyes verifica o peso e a pressão arterial de Hinda, enquanto ela está sentada e em pé, antes da consulta com o médico.

Buck observou os sintomas de Covid longa de Hinda, mas não queria descartar a síndrome da fadiga crônica ou a fibromialgia subjacente ( ambas com sintomas de fadiga, dor e problemas para dormir, sem causa conhecida) sem primeiro fazer alguns exames de sangue.

Em uma visita de acompanhamento, em 26 de janeiro de 2021, Buck agendou 12 exames de sangue separados. Todos foram negativos, exceto um: mostrou que Hinda tinha anticorpos para o vírus Epstein-Barr, que causa mononucleose infecciosa (mono) e que muitas pessoas, incluindo Hinda, contraem sem sintomas. É um dos quatro fatores de risco para a Covid longa identificado por pesquisadores em um estudo publicado na revista Cell (os outros fatores de risco são diabetes tipo 2, a presença de RNA Sars-CoV-2 no sangue e autoanticorpos específicos associados à disfunção imunológica e mortalidade por Covid-19).

Durante essa consulta de acompanhamento, Buck observou no MyChart que Hinda “está aqui hoje tentando chegar a fundo em sua condição, pois está bastante frustrada”.

A frustração pode ter sido um eufemismo para como Hinda se sentia. Ela estava com raiva e assustada. Em 15 de fevereiro, Hinda viu Buck novamente. "Eu disse que precisava desesperadamente de sua ajuda, que ainda lidava com os sintomas. Eu tinha dores terríveis nas articulações e uma sensação de queimação na pele, e não conseguia andar mais de 15 metros”, lembra.

Buck disse a Hinda: “Acredito que você tem Covid longa. Não há cura, nem tratamentos, mas vamos fazer o que pudermos por você”. Ele a matriculou em fisioterapia e terapia ocupacional, que ela continuou por seis e quatro meses, respectivamente.

14h41 | Hinda e sua mãe escutam o cardiologista Michael Emery. Ela mencionou a ele que muitos de seus problemas cardíacos preocupantes foram resolvidos desde então. No entanto, ficou tranquila ao ver que seu ECG mostrava um ritmo cardíaco normal naquele dia. Emery recomendou que ela continuasse com a reabilitação e um programa de exercícios.

O primeiro fisioterapeuta não deu certo. O segundo pesquisou Covid longa e outras síndromes pós-virais, e ajustou a duração e a dificuldade dos exercícios. “Passei de caminhar distâncias curtas e driblar com bola para caminhar distâncias mais longas, levantar pesos leves e pequenos, e depois remar”, explica. Depois de seis meses, ela tinha força suficiente para correr em uma esteira, embora apenas por cinco minutos.

Muitas das terapias ocupacionais eram as mesmas para vítimas de derrame: jogos de cartas e  mentais, quebra-cabeças de palavras e outras terapias cerebrais. “Meu cérebro simplesmente não funcionou bem”, disse Hinda. “Eu tinha esse nevoeiro cerebral em que não conseguia lembrar meu nome do meio, paranoia, esses bloqueios mentais em que não conseguia lembrar com quem falei naquele dia”, complementou.

Hinda sabia que precisava de mais apoio (emocional) e o encontrou na primavera de 2021, em um grupo on-line, o Long COVID Support. Por meio das postagens e dos bate-papos em grupo, ela aprendeu mais sobre a Covid longa e se conectou com outras pessoas que vivem com a doença. Hinda geralmente termina o dia com uma conversa no FaceTime com amigos que têm a mesma doença.

Em 18 de março de 2021, Hinda voltou ao trabalho presencial. Seu chefe a queria no local para que ela pudesse supervisionar pedidos e outras tarefas como gerente do escritório. “Eu voltava a trabalhar 20 horas por semana e achava que ia morrer. Ainda tinha sintomas. Eu estava exausta, não conseguia nem ficar de pé”, lembra.

16h34 | Hinda conversa com seus amigos via Facetime em um quarto de hotel, após uma maratona de compromissos. Todas as mulheres se conheceram em um grupo de apoio à Covid prolongada e se conectam diariamente, compartilhando sintomas contínuos e qualquer progresso.

Foi quando sua mãe lhe contou sobre a Clínica ReCOVer, de Cleveland.

Clínicas multidisciplinares

A clínica ReCOVer foi inaugurada no final de fevereiro de 2021, oferecendo um sistema centralizado de admissão, avaliação e encaminhamento para ajudar a orientar pacientes como Hinda, que estavam desassistidos em um labirinto de médicos e hospitais. A clínica lhes dá uma base e acesso aos médicos em 18 especialidades diferentes, na clínica de Cleveland. Até agora, 1.800 pacientes se inscreveram. Englund, o diretor médico, diz que a demanda é tão grande que os pacientes em potencial geralmente esperam meses por consultas.

Hinda esperou quatro meses. Em 14 de julho de 2021, sua mãe a levou para Cleveland, onde ela se encontrou com a enfermeira Brittany Baloun, coordenadora de admissão, que revisou o histórico e os sintomas de Hinda e pediu 25 testes, incluindo muitos exames de sangue. “Eles levaram 17 frascos de sangue”, lembra a paciente.

Ela voltou à clínica em 30 de julho para mais exames. “Fiz um teste de capacidade de função pulmonar. Voltou ao normal. Eu ainda tinha dores no peito, e eles fizeram uma radiografia de tórax, ECG e eletrocardiograma. Todos voltaram ao normal”, disse.

Baloun marcou reuniões com cardiologistas para tratar da dor no peito de Hinda, taquicardia (batimento cardíaco acelerado) e palpitações; com médicos em medicina funcional para sua fadiga; e com neurologistas para vertigem, taquicardia e palpitações.

A neurologia está provando estar no centro da Covid longa, pois pesquisas mostram que o vírus pode afetar principalmente o sistema nervoso. “Sempre soubemos que os vírus podem fazer muito com o sistema nervoso, causando condições como a síndrome da fadiga crônica”, explica Robert Wilson, neurologista da Cleveland Clinic que atende muitos dos pacientes da ReCOVer. “Quando a pandemia começou, eu sabia que estaria ocupado na linha de frente, e depois a longo prazo”, complementa.

10h18, sexta-feira | A enfermeira Dionna Goodwin verifica os sinais vitais de Hinda antes de sua consulta no departamento de Medicina Funcional.

Muitos dos sintomas relatados por Hinda e outros pacientes com Covid longa são comuns em uma síndrome conhecida como Pots, ou síndrome de taquicardia ortostática postural. Pots é um mau funcionamento do sistema nervoso autônomo, que controla as funções do corpo, como frequência cardíaca, pressão arterial e digestão. Pessoas com essa condição têm problemas para regular esses sistemas, o que pode resultar em tontura, problemas intestinais, batimentos cardíacos acelerados e muito mais. A condição não é fatal, mas nenhuma cura é conhecida para isso. A Pots pode ser gerenciada, na maioria dos pacientes, com dieta, exercícios e medicamentos.

Em resposta, Wilson e seus colegas iniciaram um registro Covid Pots para rastrear esses pacientes ao longo do tempo. Em uma reunião nacional para discutir a Covid longa, diz Wilson, uma pesquisa com os médicos participantes revelou que 90% de seus pacientes eram mulheres que apresentaram sintomas leves de Covid. “Os corpos das mulheres têm uma resposta mais pró-inflamatória e mais condições autoimunes”, explica Wilson, acrescentando  que ambas as condições são gatilhos para Pots e Covid longa.

Hinda, que dedicou muitas horas pesquisando sobre a Covid em revistas médicas on-line, suspeitou que tinha Pots.

Zarmeneh Aly, o neurologista que examinou Hinda em abril, disse que seus sintomas eram “preocupantes”. O médico pediu um teste de inclinação ortostática, durante o qual o paciente é preso a uma mesa enquanto está deitado. A mesa é então levantada para uma posição vertical, e a frequência cardíaca, pressão arterial e, muitas vezes, os níveis de oxigênio no sangue e dióxido de carbono exalado são medidos para ver se a mudança de posição causa uma frequência cardíaca anormal ou a piora de algum outro sintoma (tontura, vertigem e assim por diante). Aly também pediu mais exames de sangue e uma biópsia de pele. 

“É isso que venho pedindo há meses”, disse Hinda, com um tom de triunfo em sua voz. (Ela ainda não havia retornado para os testes quando essa matéria foi publicada, em sua versão original.)

Em sua próxima consulta naquele dia, com o cardiologista Michael Emery, Hinda recebeu boas notícias. Suas funções cardíacas estavam normais; Emery disse que não havia preocupações. “Inicialmente, estávamos muito preocupados com a Covid afetando o coração, mas agora os dados estão nos mostrando que não parece afetá-lo a uma taxa mais alta do que qualquer outro vírus”, explicou o médico. A taquicardia que Hinda sentiu era mais provável devido à Pots, complementou o especialista.

10h22, sexta-feira | Hinda e sua mãe compartilham um momento de ternura antes de sua última consulta na Cleveland Clinic. A paciente diz que a Covid prolongada colocou muita tensão em sua mãe. "Conversamos todos os dias, e eu sua única filha. E ela me ama tanto, por isso tem sido muito difícil para ela. Ter que me ouvir chorar, ver-me doente, minha pedra nos rins e todas essas consultas médicas", conta Hinda.

No dia seguinte, nos encontramos no Center for Functional Medicine, parte da Cleveland Clinic que se concentra em mudanças na dieta, suplementos e práticas de meditação para domar a inflamação e as condições crônicas que a Covid longa causa. Opera em colaboração com o Instituto de Medicina Funcional (IFM, na sigla em inglês), localizado perto de Tacoma, Washington, que foi fundamental no desenvolvimento da especialidade a partir de 1991.

Hinda já havia feito uma consulta de telemedicina em outubro de 2021 com Seema Patel, uma médica de medicina funcional que passou uma hora analisando todos os sintomas de Hinda e seu histórico de saúde desde a infância.

Praticantes de medicina funcional costumam dizer que comida é remédio, e Patel se concentrou na dieta de Hinda, possíveis alergias e níveis de vitaminas. Ela a colocou na dieta ReNew do IFM, o que o Instituto de Medicina Funcional descreve como “um caminho nutricional para a saúde daqueles que têm doenças autoimunes, gastrointestinais, neurológicas e outras condições crônicas de saúde”.

A dieta, que consiste em carnes, vegetais, frutas com baixo índice glicêmico e gorduras saudáveis, elimina alimentos que podem desencadear disfunções metabólicas e reduz a ingestão de todos os adoçantes e alimentos processados.

Patel sabe que é difícil segui-la. “Muitos pacientes acham chato, e quanto mais jovens eles são, mais difícil é. Mas aqueles que a seguem, são os que se saem melhor”, conta.

Patel também prescreveu uma série de suplementos: GI-Revive, para cura intestinal e azia; glicinato de magnésio para estresse, sono e energia; um multivitamínico; óleo de peixe ômega-3; Quercetina, um antioxidante e anti-inflamatório, e um probiótico.

Durante a consulta presencial em abril, outra médica de medicina funcional, Alice Sullivan, revisou os suplementos e a dieta de Hinda, que disse à profissional de saúde estar seguindo a dieta, mas havia comido alguns dos alimentos proibidos. Laticínios foi um deles. “Sou intolerante à lactose, mas amo muito queijo”, disse Hinda, enquanto comia uma xícara de macarrão com queijo.

“Estou impressionada que você tenha seguido tanto o plano”, disse Sullivan à paciente. A médica acrescentou que considera a dieta um fator importante na recuperação da Covid longa.

Sullivan também deu boas notícias à Hinda. "Acredito que você vai se recuperar totalmente. Se você se livrar da inflamação, seu corpo vai se redefinir. E você ainda é jovem”, contou.

Enquanto Hinda e sua mãe se preparavam para voltar para Cincinnati, Hinda se sentia melhor do que há muito tempo. "Estou me sentindo esperançosa", resumiu.

Duas semanas depois, seu otimismo persistiu. Em uma mensagem do MyChart para Buck, ela relatou que sua visita à Cleveland Clinic correu bem. “Aos 17 meses, estou me sentindo bem agora. Eu só lido com enxaquecas, dores de cabeça diárias e formigamento nas mãos e nos pés. O neurologista receitou amitriptilina e isso parou as dores de cabeça e enxaquecas. A partir daí, consigo comer melhor agora. Não tenho náuseas e estou ganhando peso novamente. O apetite é bom. Não tomo mais Ambien já faz uns dois meses, e tenho dormido muito bem sozinha”, comemorou Hinda.

Ainda assim, ela não pôde deixar de se preocupar com a possibilidade de ter Covid-19 aguda novamente. Ela queria a garantia de que Buck continuaria a cuidar dela como médico principal. “Só não quero sofrer por semanas a fio como sofri antes”, escreveu Hinda a Buck. “E eu esperava que, se eu conseguisse novamente, agora tivéssemos maneiras melhores de ajudar as pessoas a passar por isso”, complementou.

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