Espaço

Nasa enviou câmeras fotográficas à Lua nos anos 1960 para planejar pouso histórico da Apollo

Para encontrar locais seguros para os astronautas da Apollo pousarem, Nasa projetou cinco satélites de pesquisa com tecnologia militar sigilosa. Sábado, 16 Março

Por Theresa Machemer

Antes que Neil Armstrong pudesse dar seu primeiro passo histórico na Lua, a Nasa selecionou com precisão locais para o pouso seguro da Apollo 11. No início da década de 1960, o homem usou fotografias tiradas a partir da Terra e por alguns satélites antigos dos EUA e da União Soviética para desenhar mapas da superfície da Lua, mas nenhuma foto foi capaz de capturar a amplitude e os detalhes necessários à seleção de locais sem rochas e crateras perigosas que pudessem ser utilizados para pouso.

Por essa razão, a agência espacial lançou seu programa Lunar Orbiter, uma frota de cinco satélites quase idênticos, do tamanho de uma van, enviados em 1966 e 1967 para mapear a Lua. O Lunar Orbiter 3, que tirou fotos de 15 a 23 de fevereiro de 1967, confirmou locais de pouso seguros para o programa Apollo, trazendo à Terra algumas das últimas fotos tiradas da Lua antes de o homem aterrissar em solo lunar.

Na era pré-digital, enviar fotografias do espaço à Terra não era nada fácil. Mas, com uma engenharia precisa — e algumas tecnologias de reconhecimento ultrassecretas —, os Lunar Orbiters forneceram aos engenheiros e cientistas da Nasa as imagens de que precisavam para viabilizar os pousos da Apollo.

Câmeras no espaço

Os Lunar Orbiters não foram os primeiros satélites fotográficos direcionados à Lua, mas foram únicos, considerando os equipamentos que carregavam.

"Eles basicamente continham câmeras de espionagem do Ministério da Defesa, do programa de satélite deles", afirma David Williams, chefe em exercício do Nasa Space Science Data Coordinated Archive. Na época, o Ministério da Defesa dos EUA utilizava câmeras semelhantes no programa CORONA, conhecido pelo público como Discoverer, para tirar fotos de satélite da União Soviética.

Cada Lunar Orbiter possuía duas câmeras, uma com uma lente de alta resolução e outra com uma de média resolução. Em vez de utilizar o filme padrão de 35 milímetros, os satélites utilizavam um de 70 milímetros, do mesmo tamanho do utilizado hoje nas produções cinematográficas IMAX.

Apenas a algumas centenas de quilômetros da superfície da Lua, os Lunar Orbiters capturavam detalhes de estruturas de 90 centímetros de largura aproximadamente. Contudo usar filme no espaço tinha um problema.

"Uma vez na Lua, era possível tirar todas as fotos que quisesse, mas não havia como enviar o filme à Terra para revelá-lo", conta Williams. "Sendo assim, foi preciso criar um sistema para revelar o filme a bordo da espaçonave".

Laboratório flutuante

Para revelar filmes fotográficos, é necessário imergi-los em uma série de substâncias químicas líquidas, que poderiam provocar um estrago dentro de um satélite em microgravidade. Em vez disso, os Lunar Orbiters utilizaram o sistema de processamento por transferência Kodak BIMAT, considerado sigiloso pela Agência Central de Inteligência até 2001 porque o sistema havia sido principalmente criado para fins de reconhecimento.

O filme precisava ser transferido com precisão primeiro do carretel à lente, depois a uma área de espera enquanto o restante das fotografias era tirado e finalmente ao estágio de revelação, onde uma camada gelatinosa com substâncias químicas era pressionada contra o filme. As tarefas eram concluídas em tubos de alumínio aproximadamente do tamanho de melancias. Uma falha em um único mecanismo responsável por mover o filme, incidente ocorrido no Lunar Orbiter após ele ter capturado centenas de imagens, foi suficiente para ameaçar o sucesso da missão.

Ao observar o interior do satélite Lunar Orbiter, "é como se observasse, de forma interessante, as relações ocorridas durante a Guerra Fria", afirma Matt Shindell, curador do Smithsonian National Air and Space Museum. "É possível observar todos os equipamentos Eastman Kodak... ver a câmera que foi criada pelas nossas agências de inteligência, e também todos os demais equipamentos da Nasa".

Para enviar as fotos de volta à Terra, o programa CORONA soltava cápsulas do espaço equipadas com proteção térmica para entrada na atmosfera, dispositivos para direcionamento e estabilização e paraquedas para reduzir a velocidade da queda. O plano de recuperação incluía fisgar a cápsula no ar por meio de seu paraquedas, mas quando isso não dava certo, uma equipe em um helicóptero retirava a cápsula da água. Entretanto a NASA criou um sistema para enviar as fotografias por rádio até a Terra.

Nos Lunar Orbiters, o filme se movia em frente a um scanner que brilhava luz através dele e registrava os níveis de brilho de cada minúscula seção mensurada. Esses números eram enviados por sinal de rádio a centros de comunicação de espaço profundo da NASA localizados na Espanha, Austrália e nos Estados Unidos, onde as mensurações eram recebidas em fita magnética. Processadores de imagem utilizavam os números para recriar as exposições do filme na Terra e unir as tiras para revelar fotografias ricas em detalhes.

"É possível pegar uma lente de aumento, olhar as fotos bem de perto e ver todos esses detalhes; é realmente incrível", conta Williams. "Considerando que isso aconteceu no final da década de 1960, foi realmente uma conquista impressionante".

Pelo bem da ciência

Algumas das imagens obtidas, como a famosa fotografia da Terra no horizonte da Lua tirada pelo Lunar Orbiter 1, demonstram as linhas verticais do processo de reconstrução. Apesar de teorias que afirmam o contrário, é improvável que a NASA tenha mexido na qualidade das imagens antes de divulgar as fotos ao público.

"Eles não se acanhavam em publicar o que acreditavam ser imagens bastante representativas, para que as pessoas pudessem ver que o programa espacial dos EUA era capaz de realizar grandes feitos", afirma Shindell. Ao longo da missão, as imagens dos Lunar Orbiters apareceram nos jornais e revistas do mundo todo.

"Embora isso fosse a corrida espacial e ela fosse altamente competitiva", afirma Shindell, "ainda havia um clima de que isso estava sendo feito para o bem, não apenas dos países envolvidos, mas da ciência em todo o mundo".