Arqueólogos descobrem as primeiras evidências da prática de polo — mas com jumentos

Ossos de uma tumba de 1,1 mil anos na China mostram que os jumentos eram muito mais que animais de carga.

terça-feira, 31 de março de 2020,
Por Erin Blakemore
Apesar de os jumentos, como esses no deserto de Taklamakan, na China, não serem geralmente conhecidos ...
Apesar de os jumentos, como esses no deserto de Taklamakan, na China, não serem geralmente conhecidos por sua velocidade e agilidade, eles foram usados para praticar uma forma antiga de polo, conhecida como ljvu.
Foto de Tommy Heinrich, Nat Geo Image Collection

O polo é conhecido como o “esporte dos reis”, um passatempo equestre desafiador que diverte os aristocratas há séculos. Mas jogadores de polo abastados nem sempre usavam cavalos. Novas pesquisas confirmam que uma antiga nobre chinesa provavelmente praticou o esporte montando jumentos — e gostava tanto da atividade que foi enterrada com seus preciosos animais.

Pesquisadores da China e dos Estados Unidos descrevem a descoberta na última edição da revista arqueológica Antiquity. É a primeira evidência física dessa variação específica do esporte conhecida como ljvu, descrita em crônicas contemporâneas e retratada na arte, mas nunca confirmada no registro arqueológico até agora.

Estatueta de um jumento da era Tang.
Foto de T. Wang

Acredita-se que o polo tenha evoluído a partir de jogos equestres desenvolvidos por nômades na Ásia Central. Embora haja evidências arqueológicas de um predecessor do esporte na China de aproximadamente 2,4 mil anos atrás, o jogo, no qual equipes de cavaleiros competem para bater a bola em direção ao gol, ganhou popularidade um milênio depois durante a dinastia Tang (618-907 d.C.).

Referências ao polo com cavalos são abundantes na arte e na literatura da dinastia Tang, e muitas tumbas da era Tang apresentam artefatos e objetos de arte relacionados ao polo, incluindo murais de mausoléu e estatuetas de cerâmica. Mas os estudiosos do período sempre tiveram curiosidade sobre um subconjunto de representações antigas de polo que aparentemente mostram jumentos, não cavalos, no campo, em um jogo chamado ljvu.

“Existem muitos exemplos de obras de arte chinesas que retratam mulheres jogando polo montando jumentos. Acredita-se que essas mulheres possuíam posição social mais elevada”, diz Brenda Lynn, porta-voz do Museu do Polo.

Animais de carga?

A primeira evidência arqueológica do polo com jumentos da era Tang vem da tumba de Cui Shi, uma nobre que morreu em 878 em Xi'an, no centro da China. Quando os arqueólogos abriram a tumba recentemente, descobriram que ela havia sido saqueada em algum momento nos últimos 1150 anos. Os saqueadores levaram a maioria das coisas de valor, mas deixaram alguns objetos para trás, incluindo um epitáfio de pedra, um estribo de chumbo e diversos esqueletos de animais aparentemente sem valor. Utilizando análise de DNA mitocondrial, os pesquisadores determinaram que pelo menos três dos animais enterrados com Cui Shi eram jumentos.

Ossos de animais contendo restos de jumentos foram descobertos por arqueólogos na tumba saqueada de Cui Shi, que morreu em Xi'an, na China, em 878 d.C.
Foto de Jinkai Yang, Xi’an Municipal Institute of Cultural Heritage Conservation and Archaeology

Para entender se os jumentos viviam suas vidas como animais de carga ou se eram utilizados para a prática de polo, a equipe de pesquisa analisou os ossos dos animais. A datação por radiocarbono confirmou que os animais foram enterrados com Cui Shi e não deixados para trás por saqueadores que vieram depois; a análise isotópica revelou que os jumentos eram bem alimentados com grandes quantidades de plantas, provavelmente milheto.

Por fim, uma análise biomecânica confirmou que eles provavelmente não eram utilizados como animais de carga: quando os pesquisadores compararam os ossos dos jumentos enterrados com os de jumentos selvagens e jumentos de carga, descobriram que não caminhavam ou andavam lentamente como seus primos. Em vez disso, os jumentos pareciam ter corrido e realizado movimentos de virar com frequência — exatamente como em um jogo de polo.

Um estribo deixado para trás por saqueadores da tumba de Cui Shi.
Foto de Jinkai Yang, Xi’an Municipal Institute of Cultural Heritage Conservation and Archaeology

“Os jumentos raramente são usados para exibição e esportes equestres”, diz Fiona Marshall, arqueóloga e especialista em jumentos da Universidade de Washington, em St. Louis, que ajudou a estudar os ossos. “Esta descoberta demonstra que os jumentos eram animais que também ocupavam uma posição elevada.”

Um jogo arriscado

Mas por que Cui Shi escolheu jumentos — um animal não necessariamente conhecido por sua velocidade e agilidade? As partidas de polo da era Tang provavelmente envolviam muitos riscos e perigos, e os pesquisadores suspeitam que os jumentos eram mais seguros e mais resistentes que os cavalos.

O marido de Cui Shi, Bao Gao, aprendeu essa lição sozinho. De acordo com Xin Tangshu, a crônica oficial da dinastia Tang, o imperador Xizong gostava muito de polo e via o esporte como um caminho para o prestígio militar e uma oportunidade de aperfeiçoar suas habilidades equestres. Bao Gao de fato se beneficiou, sendo invejado como general devido às suas habilidades de polo, mas não antes de perder um olho em uma partida.

Lynn, do Museu do Polo, diz que a arte é considerada pelos historiadores do polo uma indicação confiável da existência do esporte, mas que, na ausência de confirmação arqueológica, “tentar dialogar com as origens e tradições exatas praticadas em épocas anteriores normalmente inclui especulações.”

“É sempre emocionante obter mais detalhes para ajudar a confirmar quando, como e quem praticava polo.”

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