Nat Geo Podcast | Episódio 2: Moda com propósito

André Carvalhal entrevista a especialista em moda sustentável Giovanna Nader e o estilista Dudu Bertholini, que conversam sobre como tornar a indústria da moda mais ética, sustentável, inclusiva e plural. 

Por National Geographic Brasil
Publicado 21 de jun. de 2022 11:02 BRT

André Carvalhal (apresentador): Olá, eu sou André Carvalhal. Sou escritor, especialista em design para sustentabilidade e apresentador deste podcast, realizado pela National Geographic Brasil, o Nat Geo Podcast, que tem como propósito pensar em futuros e presentes mais sustentáveis. Este é o segundo episódio da temporada e, aliás, se você ainda não ouviu o primeiro, corra no streaming favorito para ouvir porque a conversa foi muito boa. Eu recebi o Ailton Krenak e a Paulina Chamorro, a gente conversou sobre o Dia da Terra em um episódio superemocionante que eu acho que todo mundo deveria ouvir. E vale lembrar também que os episódios inéditos serão laçados quinzenalmente, às terças-feiras, sempre com participações superespeciais. O tema de hoje é um dos assuntos que mais me interessam nesse universo da sustentabilidade porque é um assunto muito sério quando a gente fala de meio ambiente e porque fez parte da minha vida durante muito tempo. Hoje a gente vai falar da indústria da moda, em especial da moda sustentável, que eu gosto de chamar de moda com propósito.

Quando a gente fala sobre os impactos da moda no meio ambiente logo pensa na quantidade de lixo, naqueles aterros sanitários lotados de roupas velhas, que é consequência desse modelo de negócios que coloca um monte de roupa no mundo e incentiva o consumo cada vez mais descartável. Mas o problema não está só no descarte das peças, está também em toda produção material e imaterial. A indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo, sendo uma das grandes intensificadoras da emissão de gases do efeito estufa. Além disso, os impactos começam lá, desde o início, ainda na produção do algodão, com a utilização de agrotóxicos, passando pelo uso de químicas em todo o processo de tingimento, isso sem falar no uso predatório de recursos naturais essenciais como a água. Só para você ter ideia, para se produzir uma calça jeans, são gastos aproximadamente 5 mil litros de água.

Ah… e o que eu chamo de imaterial tem a ver com toda a produção cultural relacionada às marcas, através da sua comunicação e da influência no nosso comportamento. Mas eu não vou me alongar muito mais aqui, até porque hoje eu estou muito bem acompanhado de duas pessoas que eu superadmiro e que entendem muito dessa batalha por uma moda mais sustentável: a comunicadora socioambiental Giovanna Nader, e Dudu Betholini, que é stylist, trabalha com direção criativa, comunicação de moda, dá aula e mais um monte de coisa. Oi , Gi!

Giovanna Nader: Olá! Que prazer estar aqui, neste super projeto. Eu estou muito feliz de estar aqui com você, com o Dudu, com essas duas pessoas que eu amo, admiro, ainda sobre um tema que eu amo ainda mais.

André: Pois é! Vai ver uma delícia e eu estou superfeliz de te receber aqui. Oi, Dudu!

Dudu Bertholini: Oiê! Gente, que delícia de encontro, né? Com esses amigues que eu tanto admiro e quem a gente compartilha vários encontros na nossa trajetória, justamente a favor de uma moda mais ética, mais responsável, mais justa. Muito bom estar aqui com vocês hoje, viu?

André: É isso aí! Hoje a gente vai contar para todo mundo o que a gente conversa quando está sozinho, na mesa de bar, nas nossas conversas de amigos.

Dudu: Ai, que tudo!

André: A ideia desde primeiro bloco é a gente explorar o cenário atual, fazer uma investigação sobre o que trouxe a gente até aqui e sobre como é esse momento de mundo que a gente está vivendo. E eu quero começar conversando com a Gi, que no ano passado lançou um livro Com que Roupa, que é um guia prático de moda mais sustentável, onde ela traz muitas ideias e sugestões de como a gente pode mudar a moda através de atitudes individuais e coletivas. A gente vai falar sobre isso mais para frente, mas eu queria, Gi, começar conversando com você sobre o que você traz ali, no início do livro, que é uma reflexão sobre como esse setor da moda, a indústria da moda, causa impactos ambientais e como ela consegue contribuir com todo esse caos climático, com toda essa devastação do planeta que a gente tem visto hoje.

Giovanna: Sim, André. Quando a gente está falando de moda, muitas vezes a gente acha que é um mercado que talvez não seja tão destrutivo quando mercados que, aparentemente, parecem grandes, tipo mercado de aéreo, navegação. Mas a moda é responsável por 8 a 10% da emissão de gases do efeito estufa por conta do seu processo de produção em altíssima escala. Quando a gente está falando de consumismo eu adoro usar a moda como exemplo porque eu acho que é uma das coisas que a gente mais consome, né? Se a gente for parar para pensar, sei lá… panela…  A gente não compra panela sempre ou qualquer outro tipo de coisa que a gente tem dentro da nossa casa. Agora, quando a gente entra no nosso guarda-roupa, é algo que constantemente está renovando. Isso faz com que a produção seja altíssima, o consumo também, consequentemente, e o descarte também. Então tudo isso faz com que vire um ciclo enlouquecedor de produção e por isso que eu gosto tanto de usar a moda como exemplo para essa conscientização sobre a mudança climática, a crise climática.

A moda é algo que pertence a todo mundo, afinal de contas, todo mundo usa roupa, então é um ótimo exemplo para a gente usar como fio condutor nessa expansão de consciência.  E ela é um mercado extremamente poluente, tanto pela produção, pelos seus tecidos não biodegradáveis, pelo seu processo de tingimento, que é a segunda maior causa de residuais, então ela tem números altíssimos quando a gente pega pelas questões ambientais. Por isso é tão importante a gente focar na mudança da indústria da moda e, por outro lado também, ela vive de tendência, né? Então ela acaba sendo muito transgressora nessas tendências da sustentabilidade, de inovação de tecidos, de inovações tecnológicas, isso faz com que a moda seja um setor muito visado quando a gente fala sobre esse assunto.

André: É, são muitos os impactos, acho que alguns mais conhecidos do que outros e tem coisa que tem gente que não faz nem ideia, né? Como por exemplo a questão dos microplásticos. Recentemente, saiu uma pesquisa dizendo que foi encontrado microplástico na corrente sanguínea humana. E muita gente não tem a menor ideia de que isso pode estar relacionado com as roupas. Queria que você contasse um pouco para a gente sobre esse vilão invisível da indústria da moda.

Giovanna: O microplástico está presente em uma das fibras mais usadas, principalmente o poliéster, poliamida. Quando a gente pega uma roupa e tem aquela etiquetinha dentro da peça, que muitas vezes a gente corta porque pinica, ali tem informações superimportantes sobre aquela peça, principalmente do que ela feita, de qual tecido ela é feita. Na grande maioria das vezes ele é feito de poliéster, poliamida, nylon... tudo isso é um material derivado do petróleo, por tanto plástico, é um material sintético. Então a cada lavagem que a gente faz dessa peça na máquina de lavar, essas peças soltam microplásticos, que são partículas impossíveis de se ver a olho nu, acabam caindo na corrente de água e, consequentemente, vão parar nas águas dos rios, oceanos, e quando a gente fala disso está falando também dos peixes.

Toda a vida marinha que existe ali já está sendo contaminada por esses microplásticos. Se a pessoa come peixe, está ingerindo esse peixe, e consequentemente esse plástico está voltando para dentro da gente, ou seja, o plástico que a gente joga no mundo está voltando para dentro da gente. Além disso, esse poliéster, esse tecido, demora 400 anos para se decompor, ou seja, quase nunca, né? para a gente A gente pode colocar aí que nunca se decompõe porque 400 anos é muito tempo para frente.  Então se a gente parar para pensar a quantidade de roupas, de poliéster, que está indo para aterros, lixões, e que vão demorar séculos para se decompor, por isso é tão importante a gente falar dessa mudança de materiais utilizados nas roupas para que sejam cada vez mais biodegradáveis.

André: Exatamente! E, até mesmo quando eles vão parar nos aterros, o fato de ficarem lá durante muitos anos, como você falou, 300, 400 anos se decompondo, eles vão eliminando gases enquanto vão apodrecendo. Isso também colabora com o desequilíbrio da atmosfera.

Giovanna: Isso!

André: Dudu, agora eu queria conversar com você sobre outra coisa que muita gente também não imagina. O jeans é uma das peças mais democráticas, eu acho também que uma das mais usadas. Com certeza tem no guarda-roupa de todo mundo. E o que muita gente não sabe é que essa peça, além de muito democrática, acessível e tal, ela também pode gerar muito impactos para o meio ambiente. E aí eu queria que você contasse para a gente um pouquinho do que você sabe sobre isso.

Dudu: Pois é, né, gente para a gente, o jeans que sempre foi o nosso companheiro do dia a dia para todos os looks e ocasiões, principalmente nessa segunda metade do século 20, onde ele esteve também muito associado a uma liberdade de comportamento, à contracultura. É importante ver como a ascensão do jeans, uma matéria prima pensada para trabalhadores, para as pessoas que trabalhavam em uma lida pesada, como ele foi, ao longo dessas décadas, sendo associado a um comportamento de rebeldia, de contracultura e, por que não, de liberdade de comportamento. Só que, quando a gente olha pelo aspecto ambiental, como tudo o que a gente tem que olhar por esse viés quando a gente fala de moda hoje em dia, a gente vê também que o jeans virou um grande vilão, principalmente pelos impactos ambientais negativos que ele gera. E, principalmente também, pelo desperdício absurdo de água potável que ele gera e dentro desse processo de tingimento, que a Giovanna trouxe aqui para a gente, como ele polui até hoje rios e mares do mundo todo. Então ele virou uma peça superpolêmica e hoje a gente tem que entender um pouco qual que é o lugar dele, né?

Tem um aspecto que a gente tem que lembrar é que o jeans é um tecido feito para durar, mas isso depende da maneira que a gente vai se relacionar com ele. Se a gente tem jeans feito par durar, mas compra um a cada semana, obviamente essa conta não vai fechar. Um aspecto positivo é que hoje a gente tem muitos mais jeans contemporâneos sendo produzidos de formas mais responsáveis e mais sustentáveis, o que não significa que eles absolutamente não façam mal para o planeta, veja bem. Um aspecto positivo é que a gente tem uma ascensão cada vez maior de jeans sendo pensados de novas maneiras, desperdiçando menos água ou então das indústrias que devolvem para o meio ambiente uma água por vezes de melhor qualidade do que ela foi coletada. Então a questão é entender como é que gente se relaciona com ele.

Acho que tem algumas dicas importantes para se pensar quando você quer adquirir um jeans. Sem dúvida, priorize um jeans vintage, priorize um jeans de segunda mão. Sempre que você puder comprar um jeans que já existe, esta vai ser a melhor receita. E olha que tem muitos jeans que já existem. Lembrando que a maioria dos jeans que são lançados hoje em dia são inspirados em jeans de outras épocas, ou seja, você já tem jeans que tem referências diretas a todos os ouros momentos da história da moda. Então se você for a um brechó ou a uma plataforma de moda circular, certamente vai encontrar o jeans que você quer, que já existe.

E o jeans é uma coisa legal que, na maioria das vezes, ele recebe muito bem as marcas de uso. Ele é aquela peça que você usa todo dia, quando tem um bom jeans. Não é uma coisa que, nenhuma peça você deveria querer lavar todos os dias ou toda vez que usa, mas o jeans é aquele que tem uma das maiores durabilidades possíveis, né? Então priorize sempre um jeans de segunda mão, um jeans vintage, quando você puder. E lembre-se que quanto mais lavagens, mais beneficiamentos, mais estampa esse jeans tiver, mais difícil vai ser a reciclagem dele. E, até mesmo, quando mais stretch, quando mais elastano, mais difícil é essa reciclagem.

Então muito importante: priorize comprar jeans de qualidade, ainda mais se for comprar um jeans novo, que não é o ideal. Tenha certeza de que ele vai durar. E lembre-se que o último lugar que você vai deixar esse jeans terminar a vida dele é em um aterro, é no lixo, porque lugar de roupa nenhuma é no lixo, ainda mais o jeans que teve um custo ambiental tão grande para ser produzido. Então, quando você adquire um jeans, saiba que é sua responsabilidade saber onde ele vai ser descartado, como que vai ser a vida útil dessa peça depois que você usá-la. Se você compra um jeans e não sabe para onde ele vai, não o compre!

E por último, obviamente, prioriza e incentive marcas que responsáveis, marcas sustentáveis, que estão fazendo um trabalho que você conhece a procedência, que tem uma transparência de informação sobre como aquele jeans está sendo feito. E, como eu já disse aqui no começo, hoje em dia você tem inúmeros jeans aí... o zero waste, que usa o mínimo possível de água, os jeans que são reciclados também, né? Então procure sempre se informar e lembre que o poder de escolha que cada um de nós, pessoas consumidoras, tem em mãos, é a principal chave para essa mudança.

André: Boa! Dudu, eu queria te fazer uma pergunta. Você fala muito nas suas aulas, nas suas palestras, nos seus cursos sobre a história da moda e dos impactos do mundo na moda. Eu adoro quando você diz que a moda reflete o mundo, assim como a gente acaba também refletindo a moda. A Gi falou muito sobre o descarte, sobre o consumismo, e eu queria perguntar para você se acha que essa moda que a gente conhecia, que a gente aprendeu quando começou a trabalhar, quando começou a atuar e que muitas pessoas também costumavam praticar, se essa moda ainda tem sentido hoje ou o que você vê diante desse mundo das transformações que a gente está vivendo hoje à adequação daquela moda que a gente conheceu antes?

Dudu: Eu acho que esta pergunta é o cerne da questão porque todo mundo que trabalha seriamente com moda hoje, ou está pensando para qual mundo é essa moda que a gente está criando, está lutando para que aquela antiga moda não faça mais sentido. Esse é o ponto! É a gente entender e trabalhar para provar que aquela antiga moda não faz mais sentido porque essa moda por séculos lucrou com o nosso sentimento de exclusão. Ela fez, por inúmeras vezes, a gente comprar muitas coisas que não precisa para tentar ser quem muitas vezes a gente não é. E ela lucrou criando padrões cada vez mais inatingíveis, cada vez mais hegemônicos, que nem de longe representavam a pluralidade, de corpos, raças, gêneros, estilos e de verdade que a gente tinha. E ela gerou inúmeras disforias tentando fazer acreditar que se a gente consumisse aqueles produtos ou se aproximasse ao máximo daquela imagem única, hegemônica e padronizada que estava sendo vendida, essa era a única maneira de pertencer, era a única maneira de ser desejado, era a única maneira de ser respeitado.

Então a gente começa a entender que ou inverte esse jogo ou vai continuar sendo vítima dessa indústria que muito mais o prime, nos exclui, do que abraça as nossas diferenças. E eu acho que a principal mudança disso não se deu por conta da indústria, que estava muito confortável com essa posição, ela se deu pela reivindicação das pessoas consumidoras. Eu nunca gosto de falar só “consumidoras” porque eu acho que desumaniza muito quem está por trás dessa escolha, então, dessas pessoas consumidoras de dizer, de garantir que elas querem uma roupa e uma marca e um sistema que as faça ser a melhor versão delas mesma com todas as diferenças que as fazem únicas. Com as diferenças de corpo, de raça, de cabelo, de estilo, de tamanho, de verdade, de gênero, e entender o quão corrosiva e nociva é essa noção de padronização.

E, além de tudo, nesse pacote a moda fez o que? Nos incentivou cada vez mais a ter um desejo por consumo de coisas que a gente não precisava e se tornou uma das maiores inimigas do meio ambiente nesse processo, como você e a Giovanna já trouxeram aqui nessas respostas. Só que, essa antiga moda, não vai largar o osso fácil. Ela não está lutando por essa mudança. Agora ela já entendeu que sim. Quando a gente chega no momento em que os maiores players do mercado de beleza entendem que eles vão ser boicotades se não apresentarem uma pluralidade racial ou estética nas suas campanhas, não só nas suas campanhas, mas nas suas diretorias, nas suas seus boards… quando a gente vê que isso não é só um papo de ativista ou de bancada e que hoje em dia as ESGs de uma empresa podem definir a relevância ou o valor dela no mercado, a gente percebe que esse jogo está mudando.

Então, volto e repito: não é que essa moda não tenha mais sentido, é que o sentido da moda hoje em dia é combater o antigo sistema e garantir que ela seja de fato mais plural, mais inclusiva e mais diversa.

André: Maravilhoso, Dudu! É exatamente essa que eu falo que é a responsabilidade cultural da moda, da produção imaterial. Ô, Gi… a gente está falando aqui sobre os problemas da moda, né? É obvio que tem coisas legais também, tem caminhos e soluções, a gente vai falar daqui a pouco, mas explorando este cenário atual, você começou falando das questões ambientais, o Dudu trouxe um pouco disso também, agora falou das questões culturais, e tem algo também muito importante, que pouca gente se dá conta, que são as questões sociais, sobre as condições de trabalho precárias que as trabalhadoras da moda vivem. E quando eu digo trabalhadoras é porque de fato são mulheres, né? A maioria das pessoas que trabalham no mundo da moda, muitas vezes em condições análogas ao trabalho escravo ou em condições muito precárias, e eu queria que você falasse para a gente um pouco sobre esse problema social da indústria.

Giovanna: Bom, o mercado da moda é o segundo que mais escraviza pessoas no mundo, ficando atrás apenas do setor de tecnologia. Muitas vezes a gente pensa que isso está longe da gente, né? A gente sabe que tem países asiáticos com leis trabalhistas frouxas, tipo Bangladesh, China, e a gente acha que vem só lá do outro lado do mundo, mas não, isso acontece dentro do nosso país, muito próximo da gente, muito mais do que a gente imagina, que é justamente isso que você falou, André, são condições análogas à escravidão, não é aquela escravidão histórica que a gente conhece e que a gente já ouviu falar mais, mas são pessoas que trabalham em horas exaustivas, sem direito trabalhista algum, terceirizados, eles ganham a cada peça produzida uma quantidade baixíssima, então o trabalhador recebe quase nada por cada peça produzida, então quanto mais eles fazem no dia, quanto mais eles produzem, eles ganham.

E aí existe uma falsa ideia de que quanto mais você faz, mais você ganha, só que não... Eles estão trabalhando em horas exaustivas, então é muito comum a gente se deparar com casas, pequenos cômodos, onde moram uma família inteira, onde tem muitas máquinas e muitos tecidos e aquela pessoa trabalha 17 horas, 18 horas em um dia só. Essa pessoa não pode adoecer porque se ela parar de trabalhar não recebe, não tem nenhum seguro trabalhista por trás dela, ela não pode parar de trabalhar. E isso é muito comum. E o mercado da moda, como o Dudu falou, a gente se acostumou a viver nessa roda giratória por muito tempo, sem questionamento algum.

Então hoje, que a gente já tem esse conhecimento, mais uma vez cabe a nós boicotá-los. Primeiro saber a procedência, saber se a marca que a gente apoia tem um comércio justo, se aquele trabalhador ganha o devido valor e senão essa marca não merece nosso dinheiro porque enquanto a gente vive em um sistema que valoriza o dinheiro, a gente tem a responsabilidade de saber para onde quer direcionar esse dinheiro. São escolhas, todo dia a gente faz pequenas escolhas. Tem muitos portais seríssimos já que investigam marcas que fazem trabalhos análogos à escravidão aqui no Brasil, inclusive. Muitas vezes essas marcas pagam a multa que precisam pagar e continuam fazendo.

Então mais uma vez cabe ao consumidor… claro, não jogando nunca a culpa no colo do consumidor, né? É claro que se precisa de leis governamentais em defesa do trabalhador, mas também o nosso poder nesse sistema todo, enquanto indivíduo, é o dinheiro. Então a gente precisa se impor mais, precisa saber quais são essas marcas. E eu sempre costumo dizer que uma marca transparente tem informações muito claras. É muito importante a gente lutar por essa transparência para saber de onde vem essa cadeia porque muitas vezes uma roupa é feita em diversos fornecedores, aí o que a marca alega é “eu passei para o fornecedor 1 e esse fornecedor 1 dividiu para outros fornecedores, aí foi trabalho escravo e eu não tenho esse controle”. Não! É responsabilidade da marca, sim, saber de todas as etapas onde aquele produto está sendo passado. É para se envergonhar, sim! É para boicotar porque isso não pode mais ter espaço.

Como você disse, são mulheres, a maioria desse mercado é composto por mulheres. A maioria delas mães que estão ali, muitas vezes, sem escolha. Então é mais do que responsabilidade dessas marcas ter um comércio justo, um pagamento justo, e a valorização, né? Porque muitas vezes a gente olha também e falando dessa velha moda aí que vocês falaram, muitas vezes a gente vê a glamorização do estilista, né? “Porque o estilista é…” aí você vê no final do desfile, é o estilista… e quem fez aquela roupa? Eu quero saber quem foi a costureira que fez. Eu valorizo muito mais quem é que está ali na resistência de um trabalho que está quase em extinção, que é o da costureira que está sendo substituída por máquinas, do que o estilista somente.

Por isso que a gente valoriza tanto, por exemplo, o Emicida, que ali, na Lab Fantasma, no São Paulo Fashion Week, ele coloca as costureiras em na primeira fila do desfile, para verem seus trabalhos porque são elas que devem ser valorizadas. Essa pirâmide tem que ser invertida, sabe?  E isso só vai ser invertido, como o Dudu falou, pela percepção do consumidor porque as marcas só estão mudando, não porque elas são boazinhas, e sim porque tem alguém ali atrás pressionando um mercado... uma onda de pessoas conscientes pressionando essa mudança de mercado. Então acho que este é o nosso papel enquanto indivíduo.

André: Exatamente, Gi! E ouvindo vocês falando eu me lembro da complexidade que é essa indústria, e ao mesmo tempo, quantas questões ambientais, sociais, econômicas… elas acabam todas se misturando, confundindo todas ao mesmo tempo, né? E que bom que gente tem pessoas como vocês falando isso, levantando essa bandeira e despertando a consciência e o olhar das pessoas para a necessidade de transformação. Agora a gente chegou no bloco em que explora possíveis soluções e reflete sobre os caminhos que a gente pode seguir daqui para frente para reverter o quadro da crise climática e ter um futuro mais justo e sustentável.

Se hoje a gente está falando da indústria da moda, agora a gente vai investigar alguns dos caminhos possíveis para que essa moda seja mais sustentável ou, pelo menos, menos insustentável e que faça mais bem para o planeta e para as pessoas. Dudu, pegando um gancho na sua última resposta, eu queria que você contasse para a gente um pouco do que você tem visto de legal, o que você tem visto, se você acha que a gente tem evoluções nesse sentido, se você vê de fato essa indústria sendo mais aberta, mais transparente, mais inclusiva. Quais transformações positivas você já tem visto acontecer?

Dudu: Olha, quando eu fico olhando para esse futuro, que como você diz muito bem já é nosso presente, afinal de contas ele só se constrói desse constante presente, eu acho que a sustentabilidade e a digitalização são os principais pilares desse futuro e se por um tempo a gente entendia que elas eram antagonistas, eu acho que hoje a gente entende pelo contrário, que elas vão colaborar uma com a outra nesse sentido. Tanto que os processos sustentáveis hoje em dia dependem também dessa digitalização ou dessa tecnologia. Então eu vejo as iniciativas que se misturam desses dois caminhos é o que a gente tem visto de mais inovador.

Um caminho que, para mim, vejo muito promissor é a questão do mercado de venda de produtos usados, do resale, de peças de segunda mão, que vão para muito além da roupa. A gente começa a ver aí movimentos de grandes magazines implementando a política de alugar todos os tipos de bens que eles vendem, seja de um eletrodoméstico a uma furadeira, a uma torradeira, então a gente começa a pensar. A gente já tinha isso no sistema de economia compartilhada, temos Giovanna aqui, criadora, do Projeto Gaveta, um dos pioneiros aqui no Brasil na ideia dessa economia compartilhada, dessa troca, mas é tão legal ver que isso está crescendo cada vez mais, na ideia de você ter muito mais o serviço que o produto, da ideia de você poder compartilhar estes bens, então isso eu tenho visto como algo muito legal.

E no mercado do resale, o mercado da venda de produtos de segunda mão, eu acho que a gente está em um avanço fantástico, as perspectivas são que em 2030 o mercado de segunda mão bata em número o mercado de fast fashion e eu acredito muito nisso. Óbvio que a gente tem que entender que é sobre consumir menos. Consumir melhor significa consumir menos. Claro que quando a gente está falando “Que bom que as pessoas estão comprando aquilo que já existe”, a roupa mais sustentável é aquela que já existe? Claro que sim! Mas também tem que haver uma inversão de lógica de consumo. Se a gente simplesmente quer continuar consumindo, consumindo, consumindo, o que a gente entende por produtos responsáveis, essa lógica não está se invertendo verdadeiramente. Mas, quando eu vejo essa ascensão e esses números do mercado de resale mesmo agora estou como diretor criativo de uma plataforma de resale, acompanhando isso de perto, a naturalização de consumo de peças de segunda mão, a naturalização de se presentear com uma roupa usada ou com um item usado, que antes era uma coisa superpolêmica, que muitas pessoas viam com muitos pré-conceitos, a ressignificação desse consumo, eu vejo como um dos pontos de transformação mais interessantes.

Também fico olhando para esse metaverso, para tudo o que está chegando aqui, para os NFTs, e ainda não tenho propriamente uma visão fechada, e acho que nem deveria ter, sobre o que a essa mudança vai impactar entre nós. A gente escuta muita gente dizendo “Isso é uma disputa entre o virtual e o real”, aqueles que já estão mais à frente desse movimento tecnológico não gostam da ideia da disputa, acham que é uma ideia antiga de quem é resistente a essa mudança. Essas pessoas pensam muito mais em uma expansão de território. É que a gente já vive um momento híbrido entre essas duas verdades, a pandemia provou isso para a gente. Antes a gente diria que não é um encontro presencial que a gente está tendo aqui neste podcast e eu já questiono, para mim já é uma presencialidade, hoje em dia eu já consigo sentir vocês aqui de uma forma que a gente não sentia dois anos atrás. Então, na hora que for comprar uma roupa ou uma escultura que existe no âmbito virtual ou existe presencialmente, qual é de fato a diferença entre isso? Então quando eu vi recentemente, agora no final de março, que a gente teve a primeira semana de moda do metaverso, que a gente viu grandes players da indústria entre uma Etrum, Dandas, Dolce Gabbana, fazendo seus primeiros desfiles ou apresentações dentro do metaverso, misturado com grandes empresas de startup, eu acho isso incrível. A gente ainda tem muito a evoluir.

Essa própria semana de moda ainda tem muitas questões técnicas mesmo, práticas, ela ainda está um pouco embrionária, no sentido de como você pode acessar essa tecnologia, usar isso de fato. Sem dúvida, nos próximos anos, vão mudar exponencialmente essa verdade, mas eu acho fascinante que a gente possa pensar hoje nesses caminhos e pensar também que existe uma economia de recursos naturais quando a gente pensa no âmbito virtual e como a gente traz isso para o presencial. Agora, se o metaverso vai ser um território de exploração muito mais de marketing, de branding ou de nos fazer ter desejos de coisas que a gente nem sabia que tinha e de acabar nos manipulando de alguma forma, isso eu não sei dizer, isso eu acho que só o tempo vai poder dizer também, mas eu assisto com olhos otimistas, porém atentos e críticos, a essas mudanças e acredito que esse é um dos pilares de onde a gente deve ver muita inovação por esses próximos tempos e espero que sejam positivas, sejam sempre ligadas a um caminha mais ético, mais inclusivo.

Ah… e só trazendo uma última percepção: só espero também que o metaverso não tente reproduzir a normatividade que a gente já tenta tanto combater nas nossas vidas, né? Se for fazer um metaverso para ter mais camisetas e calça jeans, obrigado, acho que essa é uma hora em que a gente pode olhar para isso tudo, perceber o quanto a gente pode ampliar de uma forma mais fantástica ampliar a nossa percepção, a nossa sensibilidade e quebrar mesmo esses paradigmas binários, normativos. Não tem nada errado ser normativo, gente, veja bem, não é isso... mas a gente acreditar que apenas esse padrão é o possível, é o aceitável. Então eu espero também que o crescimento dessa realidade virtual abra o campo da nossa percepção sensível e estética, a favor de um mundo bem mais livre.

André: Com certeza! É superimportante! Para quem não está por dentro, vou só abrir um parênteses aqui, no que o Dudu está falando, roupas virtuais são roupas para serem usadas no ambiente virtual, então não são roupas que existem fisicamente, mas podem ser usadas em espaços de jogos, em redes sociais, e que tem crescido cada vez mais, como o Dudu falou, com uma semana de moda dedicada a ela agora nesse ano. Existe todo um pensamento de que isso pode contribuir com um a moda mais sustentável, uma vez que ela não demanda a utilização de recursos ambientais, pessoas para produzir, mas como o Dudu falou, pode despertar todo um outro lugar de problemáticas, de crises, principalmente que afetam a nossa subjetividade, que talvez a gente nem consiga hoje entender.

Então a gente realmente precisa ficar de olho e alerta sobre isso. Gi, eu queria voltar para você agora porque quando a gente fala dessa importância de ser mais inclusivo, de ser mais sustentável, de ser mais plural, de quebrar esses padrões, como o Dudu falou agora, a gente vê ao mesmo tempo muitas empresas se aproveitando desses discursos e querendo pegar uma carona nas pautas de diversidade, de inclusão e principalmente nas questões de sustentabilidade, no quesito ambiental, o que acabou ganhando um nome que é o greenwashing, essa pintura verde, essa maquiagem verde.

Mas que a hoje a gente já fala também do socialwashing, do pretowashing, do cornawashing, né? A gente fala de todas essas maquiagens que são feitas. E eu queria que você contasse para a gente um pouco como é que o consumidor pode entender o que é isso, como ele pode identificar, como que a gente pode ser mais crítico nesse olhar contra as marcas também.

Giovanna: Sim. Bom, o greenwashing é justamente isso que você falou, é quando a empresa se diz sustentável, quando na verdade ela está fazendo muito pouco, principalmente grandes empresas, né? O greenwashing acontece principalmente em grandes marcas. Então quando a gente fala… claro, eu sou uma super defensora, para mim a grande mudança aí, o grande feito da moda aí é justamente o que o Dudu falou: o mercado de segunda mão vai crescer mais que o mercado de fast fashion. Porém a gente sabe que tem dez anos para mudar, para reverter esse cenário de crise climática, de redução de emissão de gases do efeito estufa e a gente sabe que também grandes marcas têm toda indústria têxtil, emprego por trás e tal, e também é o que muitas vezes dá uma moda acessível a uma parcela significativa da população, a diferentes corpos, então eu acho que a mudança tem que vir para todo mundo.

Só que quando uma grande marca diz que ela está sustentável porque… um exemplo: “Ai, lançou uma coleção esporádica de algodão orgânico” ou “está apanhando em uma única coleção cápsula em uma comunidade tradicional”, então espere aí, não, você não está fazendo seu papel! Você já poluiu muito no mundo. Tudo bem, a gente não tinha informação, agora as coisas estão mudando, mas você tem muito mais a fazer, você pode fazer muito mais. Então é muito importante a gente perceber o que de fato a marca está fazendo em todos os pilares. É claro que é muito difícil a gente colocar de uma hora para outra, incluindo todos os pilares de produção, efeitos sustentáveis, ações sustentáveis, mas o máximo possível e a gente tem que ver um esforço genuíno daquela marca para que isso aconteça em vários pontos, no máximo de pontos possíveis daquela marca. Então, quando a gente vê: “Ah… a marca está reduzindo as emissões de gases de efeito estufa a 50%.”, “Ela está fazendo isso.”, “As lojas estão se transformando nisso e tal.”, mas uma coisa que eu ainda não vi, André, e é o que eu gostaria muito de ver e acho que a marca que fizer isso vai sair na frente em questão de imagem, é que não se fala ainda em crescimento. A gente sabe que a tem um problema gigante de produção e de descarte e que, é insustentável, é um planeta só para 7,6 bilhões de pessoas. Não dá para todo mundo consumir, não dá para uma marca ter lucro maior que o ano passado... ano após ano, um lucro maior. Isso aí vai ter que mudar.

É muito importante que marcas entendam como prosperar no decrescimento, que isso vai ter que acontecer eu ainda não vejo, mas vejo marcas tentando, se esforçando de inúmeras maneiras. Mas tem outras, algumas, que tipo: “Ah… eu tenho uma supersustentabilidade e tal” e de repente vai e me lança uma coleção a cada hora… não me lembro como era direito a ação... “Ai, a cada dia vai lançar uma coleção”, então espere aí, tudo o que você falou de sustentabilidade até hoje foi pelo ralo a abaixo porque como é que você  faz um pilar de sustentabilidade gigante sendo que você lança uma campanha de lançar uma coleção nova a cada dia? Está indo totalmente contra o que você falou até hoje. E o consumidor está cada vez mais esperto. Essas ferramentas estão chegando, a informação está chegando. Então é muito importante que o consumidor se atente a esse branding washing, justamente para poder pressionar, para poder questionar essas marcas.

Eu acho que o nosso papel na mudança individual é justamente esse. É fazer força no coletivo, sabe? É claro que eu não vou mudar o mundo reutilizando meu copinho reutilizável sozinha, mas é um coletivo de pessoas que estão tentando, que estão tendo força, estão tendo voz. Então é muito importante a gente se atentar a essa questão do branding washing, da lavagem verde, para ver quem é que só quer surfar uma onda e quem realmente está fazendo mudanças de fato, para que a gente consiga pressionar.

André: Exatamente!

Dudu: “Prosperar no decrescimento” é muito chique.

Giovanna: Não é?

Dudu: Coisa mais chique, “prosperar no decrescimento”, muito bom.

Giovanna: É que na verdade eu estou lendo um livro que tem exatamente este nome “Prosperidade do Crescimento”, um negócio assim, então eu só repliquei o livro que eu estou lendo…

Dudu: Não, excelente!

Giovanna: Mas é isso!

Dudu: Perfeito!

André: É, muito bom! Bom, gente, vocês falaram sobre brechó, sobre o mercado de resale, e eu queria investigar com vocês outras possibilidades, outras alternativas, que existem. Como o Dudu falou, a Giovanna é fundadora do Projeto Gaveta, que é um projeto de trocas de roupas. Eu queria que ela contasse para a gente um porco mais sobre isso e queria que vocês contasse o que tem visto também de novas alternativas.

Giovanna: Bom, o Projeto Gaveta é um projeto que eu criei junto com a minha amiga, Raquel Vitti Lino, em 2013, e a gente começou a criar uma rede de troca de roupa. A Raquel falou “Ah, vamos trocar roupas entre amigas?” e eu já trabalhava no mercado da moda, no lado convencional, no mercado da moda, na fast fashion, para ser mais exata. Ainda não tinha muito questionamento sobre esse mercado. Pouquíssima gente tinha. Mas eu gostava de comprar roupa de segunda mão, não tinha preconceito nenhum, e eu já não via muito sentido naquilo que eu estava fazendo, naquele mercado que eu estava trabalhando, e, quando a Raquel falou isso, eu falei “Gente, é isso! Vamos criar um projeto de trocar roupa com todo mundo que queira trocar”.

E a primeira edição foi em São Paulo, começou em São Paulo, que é uma cidade que abraçou muito o projeto, e deu muito certo. No primeiro evento a gente trocou 4 mil peças de roupas, 70 participantes. A gente viu 70 pessoas eufóricas por poder renovar o guarda-roupa sem colocar a mão no bolso, sem gastar nada. A gente falou: “Gente, isso existe e tem muito público para isso!”, e desde então a gente vem realizando vários eventos, enfim… já fizemos mais de 70 mil peças circuladas, mas o que a gente quer mais com a mensagem do Gaveta, para além dos nossos eventos, é deixar essa troca de roupa. É isso! Você pode criar eventos de troca de roupa entre amigas, entre família ou pegar o guarda-roupa da mãe e da irmã e passar aquela roupa. Quantas vezes eu não ganhei roupa agora que estou grávida? Gente, a quantidade de amigas que me dá roupa falando “Cara, isso aqui eu usei muito na minha gravidez. Você vai usar muito esse vestido.” e é sobre isso, sabe? É sobre essa roupa circular livremente, sem dinheiro envolvido, através de presentear, de doações, de trocas. Então acho que esse costume, essa atitude, tem que ser cada vez mais difundida no nosso dia a dia, ela tem que ser cada dia mais normalizada. E agora uma coisa que eu acho e que eu vejo também de inovação, André... a gente sabe que passa um período muito crítico no Brasil de desmantelamento dos órgãos ambientais e a moda pode fazer algo em relação a isso, sabe?

Existem muitas pessoas que estão no front dessa guerra e que estão ali, fazendo seus trabalhos artesanais, suas artes. A gente está falando de inúmeras comunidades, desde as comunidades de algodão agroecológico, da Paraíba, até as comunidades de bordadeiras do Vale do Jequitinhonha, que está ali no cerrado, pela resistência desse bioma. As comunidades indígenas todas que estão ali tendo um trabalho maravilhoso. Para mim, eu acho muito mais chique você usar um colar que foi feito pela comunidade hini kuin do que você comprar qualquer roupa que saiu no desfile de Milão, de Paris, sei lá onde. Eu acho que a gente tem que olhar para o local e olhar para essas comunidades tradicionais que tanto resistem em um país que está sendo tão devastado. Então, quando a gente fala do dinheiro, de onde a gente vai direcionar nosso dinheiro, a gente pode apoiar essas comunidades. O nosso papel enquanto consumidor é usar a moda como um ato político, sabe? Colocar essas artes no nosso corpo, esse trabalho maravilhoso e a gente tem que olhar cada vez mais para essas pessoas que estão no front dessa guerra que a gente está vivendo, ambiental, no nosso país, e quem está resistindo. E elas resistem com suas artes. Então quando mais a gente puder enaltecer esse trabalho dessas comunidades, esse artesanato, eu acho que é por aí também.

Dudu: Nossa! Não, Gi… concordo totalmente! O que pode ser mais maravilhoso que usar uma renda brasileira, gente? Pense! Além de esteticamente ser lindo, você está de fato garantindo a manutenção da nossa ancestralidade, da nossa cultura, e de uma distribuição de renda muita mais igualitária, né? E no caso da inovação, eu volto a citar um pouco o exemplo que eu vejo de alguns grandes magazines, varejistas, começando tentar colocar projeto de aluguel, ao invés da venda, de todos os tipos de bens que são vendidos nesses lugares. Mais uma vez, eu também ainda não sei dizer no que isso impacta realmente dentro do negócio deles, até porque muitas dessas grandes lojas de departamento tem a sua responsabilidade aí, no impacto negativo. Então eu realmente acredito que a economia compartilhada ainda vai galgar nos próximos anos exponencialmente e que vai contribuir muito na mudança e na ressignificação dessa cultura de consumo. Eu acredito muito nisso.

E no mercado de resale também, para além do resale, acho que tem uma mudança muito importante que já está acontecendo, mas que ela tem que se fortalecer, que é a associação do lucro com a procedência. Não é possível que a gente ainda vai acreditar que o luxo e quem pode pagar por um produto de luxo está pagando pela exclusividade de um designer. Se hoje a gente sabe que a revolução que vive está muito mais ética, do que estética, até porque estética… eu sempre falo isso: o século 20 deu conta de muita coisa em termos estéticos. Não que o novo não exista. Mas o novo a gente sabe que não está em silhueta, em cor, em tendência, em volume, em proporção, né? Se existe algo de novo nisso é que a gente consiga, cada um de nós, se expressar de forma cada vez mais individual. Mas não dá para a gente acreditar que a novidade está porque agora… é como sempre digo... “A volta da camisa branca”, onde estava a camisa branca? Voltou da onde, amiga? A camisa branca sempre esteve aí. É uma coisa que não dá mais para acreditar que esse review de tendências ou de novidades estéticas vai ser a força motora que movimenta a moda. E nesse sentido, o mercado de luxo é aquele que pode pagar pela procedência, é ele que você tem que se garantir. Você está comprando uma bolsa de luxo que ela foi feita pagando muito bem, remunerando muito bem todo mundo que fez parte daquele processo. E que ela, de alguma forma, preserva ancestralidades artesanais, que ela neutraliza seu carbono, que ela minimiza ao máximo os impactos ambientais que ela pode gerar, enfim. E nesse caso, eu acho que o mercado de resale de luxo é também um caminho.

A gente já está em um caminho bem próximo de você poder chegar em uma loja de departamento de luxo com a sua bolsa antiga, essa bolsa ser autenticada na hora, você poder garantir o quão autêntica aquela bolsa é, e já existem vários mecanismos e apps que fazem isso superbem, que estão se popularizando cada vez mais, que eu acho uma iniciativa interessante também, e você já poder ter na hora créditos na loja para você gastar a partir daquela peça de segunda mão que você entregou no ponto de venda. E aí a gente começa a ver que esses mecanismos, que hoje parecem ainda um pouco distantes, eu acho que em pouco tempo eles serão instituídos e serão práticas muito mais naturalizadas. Então eu já vejo como uma boa iniciativa, mas ainda está engatinhando pelo quanto ainda tem que galgar com força. A gente associar luxo à ética, à responsabilidade. Eu acho isso superimportante.

André: Agora a gente chegou no nosso último bloco: O que você faz importa, é uma campanha na National Geographic Brasil, que tem como objetivo engajar e conscientizar pessoas sobre os impactos de suas ações. A gente sempre vai fechar os programas trazendo dicas do que a gente pode fazer na prática. A gente estava falando muito sobre isso agora e eu vou pegar carona na nossa conversa falando sobre circular. A gente ouviu muito aqui hoje que a gente pode fazer o novo, que a gente pode ter acesso ao novo através de algo que já existe: trocando, emprestando, vendendo, reformando, enfim… são muitas as possibilidades de a gente fazer a moda circular, usando os princípios da economia circular. É bom para a gente, é bom para as outras pessoas, e para o planeta.

Dudu e Giovanna trouxeram alguns exemplos e eu queria complementar falando da Lucidy Bag, que foi o primeiro guarda-roupa compartilhado por assinatura aqui do Brasil, e queria dar uma dica também, fora do eixo Rio/ São Paulo, que é o Desapegue, que é um brechó online, que tem em Vitória e em Floripa, mas que funciona também online entregando para pessoas pelo Brasil inteiro. Bom, Giovanna, Dudu, eu queria superagradecer a presença de vocês, a participação.

Giovanna: Ai, gente… eu quero agradecer pelo espaço, agradecer vocês pelo papo, é sempre tão bom falar com vocês, a National Geographic também, por estar elevando esse tema, em outras plataformas. É muito importante a gente reverberar cada vez mais. A gente acha que fica em uma bolha, né? E de fato a gente ainda está em uma bolha nesse assunto, mas é uma bolha que está crescendo. Nosso lado está crescendo, então quando mais a gente falar, mais gente vai atingir e estou muito feliz de ter esse espaço aqui. Parabéns, André, estou adorando. E o Dudu também, sempre muito maravilhoso.

Dudu: Ai, gente… essa conversinha aqui, né? Com esses amigues que eu admiro tanto. Obrigade Carvalhal, Giovanna... é sempre tão bom trocar com vocês assim, né? A gente sentir uma ressonância de falas, de discursos que a gente tanto admira, que a gente tanto acredita, e poder compartilhar isso aqui com toda essa audiência. Agradecer a Nat Geo por espaço, parabenizar. Que venha as próximas, tá? Obrigade por todo mundo que está aqui.

André: Foi o máximo! Para quem ouviu a gente aqui até agora, esse foi o nosso segundo episódio do Nat Geo Podcast. Eu estou super feliz e espero que vocês estejam gostando também.  O próximo episódio vai ser lançado no dia 24 de maio e vale lembrar que são sempre às terças-feiras, a cada 15 dias. E no site natgeobrasil.com, você encontra mais informações sobre ciência, viagem, história e meio ambiente. Siga a gente: @natgeobrasil, siga também a @Giovannanader, com Giovanna com dois “N” e o @Dudubertholini, com “th”, para ficar por dentro do que essas pessoas maravilhosas estão fazendo aí pelas redes. Siga a gente aqui, na sua plataforma de preferida de streaming para ficar por dentro dos próximos episódios. E como eu disse, pode ficar super à vontade também para me procurar nas redes sociais com dicas, sugestões e também trazer outros pontos de vista além dos que foram falados por aqui. O meu arroba é @carvalhando. Obrigado pessoal! Até mais! Tchau, tchau!

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