Quantos botos há na Amazônia?

Reportagem acompanhou o trabalho de campo de pesquisadores que estudam o boto-cor-de-rosa, o maior golfinho de água doce do mundo, e o boto-tucuxi, o menor.

Botos-cor-de-rosa sobem à superfície na reserva de desenvolvimento sustentável Mamirauá, no Amazonas. Os botos são comuns na reserva, mas a espécie está ameaçada pela caça ilegal e pesca acidental – em 2018, foi incluída na lista vermelha da IUCN como 'em perigo' de extinção.

Foto de Ethel Braga
Fotos de Ethel Braga
Publicado 4 de out. de 2021 12:09 BRT, Atualizado 14 de out. de 2021 12:33 BRT

Tefé, Amazonas | A água estava agitada na confluência do rio Japurá com um dos canais do Jarauá, perto do meio-dia de um sábado de agosto. Ao redor da voadeira do Instituto Mamirauá, botos-cor-de-rosa nadavam e respiravam tranquilamente sozinhos, em duplas ou em trios. Também por ali, grupos de tucuxis pulavam animados, alguns com o corpo inteiro para fora da água.

Para um desavisado, o showzinho dava a impressão de que as espécies estão muito bem, obrigado. No entanto, depois de décadas de informações insuficientes, nos últimos anos ambas foram classificadas como em perigo de extinção na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Na região, um grupo de pesquisa monitora a população desses golfinhos de rio para entender como têm variado ao longo do tempo dentro da reserva de desenvolvimento sustentável (RDS) Mamirauá, na região central do estado do Amazonas, uma área protegida e distante de ameaças como garimpo e hidroelétricas.

“Aqui esses animais estão mais ou menos protegidos, então, se alguma ameaça acontecer com eles, a gente tem que ficar preocupado, porque é uma área onde deveriam estar conservados”, diz a bióloga e pesquisadora da National Geographic Society Jéssica Melo, do Instituto Mamirauá. “É diferente de outros lugares da Amazônia onde a gente não tem mais controle.”

Desde 2019, Jéssica é a responsável de campo por um projeto de estimativa populacional de botos e tucuxis que começou dois anos antes, em 2017. Ao longo das épocas da seca, enchente, cheia e vazante, os pesquisadores percorrem um trajeto 233 km, distribuídos em três regiões da RDS Mamirauá, que tem mais de 11 mil km² de área.

O trabalho é metódico: a voadeira segue a 10 km/h, distante 100 metros de uma das margens, enquanto dois observadores na proa e um na popa vasculham o rio em todas as direções. Quando avistam um golfinho de uma das espécies, registram a angulação em relação ao barco, distância do barco e margem, número de indivíduos, coesão do grupo e por aí vai – tudo em um curto intervalo de tempo.

Para tornar a tarefa um pouco mais desafiadora, a baixa velocidade somada ao barulhinho do motor e aos sons da floresta amazônica criam o embalo perfeito para um cochilo. Só que ninguém ali pode fechar os olhos.

Em agosto, a reportagem acompanhou Jéssica e a equipe do Instituto Mamirauá em uma das regiões onde o monitoramento é feito, o setor Jarauá. Essa perna inclui trechos dos canais do rio Jarauá, na margem sul do rio Japurá, do próprio Japurá e o lago Pantaleão, na margem norte, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã. Era a quinta expedição para coleta de dados de Jéssica dentro do projeto – por conta da pandemia, as atividades foram suspensas por quase um ano.

À esquerda: No alto:

Jessica Melo dentro do flutuante que serviu de base para os pesquisadores durante as saídas de campo em busca de botos e tucuxis.

À direita: Acima:

Antônio Peixe-boi nasceu na comunidade de Vila Alencar, hoje parte da reserva de desenvolvimento sustentável Mamirauá. Piloteiro da voadeira que levou a reportagem, Antônio lê sinais imperceptíveis para mostrar onde os botos vão emergir na água escura. 

Foto de Ethel Braga

“Com esse monitoramento, a gente consegue entender se essas espécies estão em declínio populacional, se elas se mantêm estáveis ao longo do tempo ou se estão aumentando”, conta Jéssica, sem esconder que a última das possibilidades é difícil de se tornar realidade.

Mas até alcançar qualquer uma dessas conclusões, é preciso tempo. Muito tempo.

Análises feitas a partir dos números obtidos desde 2017 e dados de monitoramento de 2014 dão conta de que os botos e tucuxis têm se mantido num número regular. No entanto, Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisas com Mamíferos Aquáticos do Instituto Mamirauá, explica que esse intervalo não é o suficiente para fazer uma avaliação precisa.

“Ainda é muito pouco”, diz Miriam. “A gente só consegue visualizar tendências populacionais com monitoramento de longo prazo. Esses parâmetros mudam muito lentamente, então precisamos de intervalos de cinco, dez anos, para aí sim entender o que está acontecendo com as populações.”

Esforços semelhantes têm se tornado mais comuns nos últimos anos, especialmente a partir de 2017, quando foi criada a Iniciativa Botos da América do Sul (Sardi, na sigla em inglês), que reúne pesquisadores do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, na área de ocorrência das espécies.

Mas nem sempre foi assim. Em 1993, quando Miriam começou a trabalhar com os mamíferos aquáticos da Amazônia, os pesquisadores eram poucos e atuavam de forma isolada. Sobre o tucuxi, um enigma até hoje, não se sabia quase nada. Sobre os botos, muito pouco. “Nos últimos quatro anos, avançou muito nosso conhecimento sobre os botos-vermelhos”, diz Miriam.

Botos-vermelhos? Pois é: “É o nome como os ribeirinhos sempre se referiram a eles”, explica Miriam. Cor-de-rosa é coisa de gringo. Quando o lendário oceanógrafo francês Jacques Cousteau se aventurou pela Amazônia, em 1982, ficou tão encantado pelos animais que decidiu que eles precisavam de um nome mais poético – nascia o boto-cor-de-rosa.

Vermelho ou rosa, fato é que o boto é um dos bichos mais simbólicos da Amazônia. Protagonistas de lendas e causos, os botos eram motivo de medo e alvo de pouca simpatia dos ribeirinhos, mas a relação desses golfinhos de água doce com seus vizinhos humanos seguia numa trégua relativa.

Até que um peixinho nada saboroso e para o qual ninguém nunca deu bola ganhou mercado em meados de 1990: a piracatinga, um pequeno bagre, com menos de 1 kg de peso e apetite voraz por carne apodrecida.

“Antes disso, era muito raro ver alguém matando um boto", conta João da Silva Carvalho, morador da comunidade Vila Alencar, dentro da RDS. “E aí, em 1996, eu vi um rapaz pela primeira vez pegando boto e jacaré para fazer isca para piracatinga.”

À esquerda: No alto:

Pai, tios e muitos moradores da comunidade Vila Alencar, na RDS Mamirauá, onde João Jacaré cresceu eram caçadores de jacaré. Há 27 ele trabalha pela conservação das espécies da região no Instituto Mamirauá.

À direita: Acima:

Jacaré na RDS Mamirauá. Muitos jacarés foram mortos para servirem de isca para a pesca da piratinga, um tipo de bagre, assim como para virar bolsas, sapatos e cintos de couro. Hoje são abundantes na reserva.

Foto de Ethel Braga

Uma reserva exemplar

Criada justamente em 1996, Mamirauá é a primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil. O projeto foi a culminação de esforços de mais de uma década capitaneados pelo primatólogo José Márcio Ayres e virou referência ao juntar preservação com o desenvolvimento econômico das populações ribeirinhas. O manejo da pesca do pirarucu feito por lá, por exemplo, é reconhecido em todo mundo.

Localizada próximo a cidade de Tefé, onde fica a sede do Instituto Mamirauá, a RDS está cerca de 600 km a oeste de Manaus, entre os rios Solimões – nome que o Amazonas recebe no seu trecho superior – e Japurá. É uma área recheada de lagos, onde a floresta fica em grande parte alagada na época da cheia.

“O Mamirauá é uma reserva modelo, uma das mais bem conhecidas, protegidas, estudadas”, diz Vera da Silva, chefe do Laboratório de Mamíferos Aquáticos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que trabalhou ao lado de Márcio Ayres na criação da RDS. “A população que vive ali tem muita informação, é muito consciente.”

João da Silva Carvalho é um exemplo disso. Piloto do barco regional que serviu de base para a expedição de contagem dos botos e tucuxis liderada por Jéssica, João trabalha com o Instituto Mamirauá há 27 anos, desde 1994. A princípio, no auxílio de ornitólogos. Logo passou a atuar junto dos projetos de conservação de jacarés, o que lhe rendeu um apelido de sonoridade irresistível, João Jacaré.

De certa forma, uma ironia. Pai, tios e muitos moradores da comunidade onde João cresceu eram caçadores de jacaré. Ao contrário dos botos, que não eram vistos como um ativo econômico, os jacarés têm carne saborosa e couro valioso, especialmente o jacaré-açu, maior das espécies na Amazônia. Resultado: quase sumiram da região.

“Na época o pessoal brincava que os jacarés tinham aprendido a tapar os olhos com as patas quando os caçadores jogavam a lanterna na água de noite”, João brinca, enquanto imita os gestos com a mão. Mais de vinte anos de esforços de preservação depois, a melhora é visível – e brilhante como as luzes noturnas de Nova York. De noite, ao passar a lanterna sobre o rio, o reflexo dos olhos de jacaré dá a impressão das luzes de uma metrópole. O banho de rio está fora de cogitação.

No auge da pesca da piracatinga, os animais pareciam fadados à extinção. O tucuxi escapou dessa, mas tanto boto quanto jacarés eram iscas valiosas, assim como diversas outras espécies, até onças.

João Jacaré conta que os boteiros vendiam um animal por R$ 50 para virar isca. No entanto, às vezes, a aura do boto-cor-de-rosa era um obstáculo – e uma espécie de defesa. “Um rapaz pegava os botos com o arpão e arrastava eles até um laguinho longe do rio, onde deixava eles vivos”, diz. Quando pescadores de piracatinga passavam por ali, o boteiro os vendia. Mas, um dia, começou a “ter uns ataques”.

“Ele sonhava toda noite com uma velha querendo pegar ela, sempre atrás dele”, lembra João. Até que prometeu nunca mais matar um boto. Os ataques pararam e, hoje, ele auxilia o Instituto Mamirauá no monitoramento dos golfinhos de água doce em outro ponto da reserva.

Em 2015 o governo federal instituiu uma moratória de cinco anos para pesca da piracatinga. A norma foi prorrogada duas vezes e está vigente pelo menos até julho de 2022. Em 2017, o principal mercado consumidor do peixe, a Colômbia, proibiu a venda, justificada tanto pela mortandade dos animais silvestres usados como isca quanto pelos dos altos índices de mercúrio encontrados na carne. Ainda assim, há pressão para a volta da pesca.

“O pessoal fala em fazer um plano de manejo para a piracatinga, uma coisa sem sentido. “Vai perder tempo fazendo manejo de um bagre necrófago, altamente mercurizado, que ninguém se interessa e só come porque pensa que é outra coisa”, diz ela, referindo-se ao fato de que a piratinga frequentemente vendida nos mercados de Manaus como douradinha, piramutaba, dourada ou surubim.

De qualquer modo, para o grupo do Mamirauá que trabalha com botos e tucuxis, a piracatinga hoje é uma preocupação secundária. O principal problema, avaliam, é uma ameaça mais antiga, da qual o tucuxi dessa vez não escapa: a pesca acidental, o bycatch, na expressão em inglês.

À esquerda: No alto:

Flutuante onde se hospedou a equipe de pesquisadores do Instituto Mamirauá. 

À direita: Acima:

Ao contrário dos botos-cor-de-rosa (ou botos-vermelhos, como os ribeirinhos os chamam) os tucuxis são sociáveis, e andam em grupos grandes. 

Foto de Ethel Braga

A grande queda

A piracatinga gosta de gordura de carne morta. Quanto mais pungente o cheiro, melhor. E o boto se tornou uma isca atrativa justo por esse motivo – o animal é famoso pelo fedor. “Quando você chega perto e sente a respiração dele, já é muito fedorenta”, diz Antônio Pinto.

Antônio divide duas semelhanças com João Jacaré: é da comunidade Vila Alencar e trabalha há 27 anos no Instituto Mamirauá. Três, na verdade: também tem um apelido marcante – Antônio Peixe-Boi. Adivinhe com qual espécie ele atuou na maior parte desse tempo.

Nos anos 1990, Antônio trabalhou com Vera da Silva, do Inpa, na captura e marcação de botos-cor-de-rosa e tucuxis. Piloteiro da voadeira que levou a reportagem, Antônio lê sinais imperceptíveis para mostrar onde os botos vão emergir na água escura. Para o restante da tripulação, é um exercício difícil: a impressão é que os animais sempre aparecem um dedinho fora do campo de visão. Quando se vira o olhar em busca do som forte de expiração, os golfinhos já somem de novo.

Mas Antônio não perde um. “Aquele ali eu marquei com a doutora Vera”, diz, como quem não dá muita bola por rever um conhecido de vinte anos.

De fato, os botos são longevos. “Eles podem viver 45 anos ou até mais”, conta Vera. Desde 1994, ela pesquisa as populações das duas espécies no Lago Mamirauá, no centro da RDS. No período, capturou mais de 1,2 mil botos para estudo e marcou 750 animais da espécie no lago, que tem 10 km de extensão e largura média de 400 m.

O número de tucuxis é muito menor, apenas 30 foram capturados, já que a espécie é mais delicada e vulnerável ao contato humano. “Ele sofre um tipo de miopatia de captura, é muito estressado, e pode morrer na sua mão”, diz a pesquisadora.

A partir desse trabalho, Vera contribuiu para aumentar o conhecimento sobre a biologia das espécies, especialmente do boto. No entanto, a partir da virada do século, quando a exploração da piracatinga se intensificou, ela notou que “os meus bichos”, como fala com carinho, começaram a desaparecer.

Até pouco tempo atrás, os botos não tinham status de conservação definido. Incluídos na lista vermelha da IUCN em 1988 como uma espécie vulnerável à extinção, foram retirados em 2008 por falta de dados populacionais. Somente em 2018 voltaram, como ‘em perigo’, depois que o grupo de pesquisa liderado por Vera tabulou dados de contagem populacional feitos desde 1994 no lago Mamirauá. Os tucuxis entraram em abril deste ano, também como ‘em perigo’.

Botos galerosos, tucuxis bozinhos

O boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e o tucuxi (Sotalia fluviatilis) não poderiam ser mais diferentes. O primeiro é o maior golfinho de água doce do mundo, com até 2,5 m de comprimento. O segundo, o menor, com menos de 1,5 m. Os tucuxis só habitam uma área mais restrita na bacia do rio Amazonas, enquanto botos se espalham por toda a Amazônia, na bacia da Orinoco, na Venezuela e Colômbia e até em regiões mais centrais do Brasil, como no rio Araguaia.

Tucuxis são sociáveis entre si, e vivem em bandos numerosos. Botos preferem ficar sozinhos ou em grupos menores. Apesar do tamanho reduzido, os tucuxis pescam em águas abertas e não são capazes de nadar por entre os galhos e raízes de igapós, a floresta alagada. Já o boto é mais flexível: com vértebras cervicais não fusionadas, eles conseguem entrar no igapó sem problemas.

Muitas dessas diferenças estão relacionadas à história evolutiva das espécies. O boto se embrenhou pelas águas do que se tornaria a Amazônia 15 milhões de anos atrás. O tucuxi, bem depois: há entre 5 e 3,5 milhões de anos. É como se os botos fossem mais de casa do que os tucuxis.

Na verdade, o tucuxi é muito semelhante ao golfinho mais comum dos mares brasileiros, o boto-cinza (Sotalia guianensis). Já se discutiu, inclusive, se não seriam uma única espécie.

Do lado dos botos amazônicos, também há questões taxonômicas. Oficialmente, a Society for Marine Mammalogy reconhece apenas uma espécie: a Inia geoffrensis. No entanto, além dessa, vista na RDS Mamirauá, há duas outras propostas. O Inia boliviensis, encontrado na bacia do rio Madeira, e o Inia araguaiaensis, descrito apenas em 2014 na bacia do Araguaia-Tocantins.

O boto galeroso e o enigma tucuxi
Pesquisadora que estuda populações de botos e tucuxis na Amazônia fala sobre como a percepção da personalidade dos animais pelas comunidades ribeirinhas pode ajudar projetos de conservação.

As três foram separadas entre si por obstáculos naturais, como corredeiras, apesar de se encontrarem em alguns trechos de rios, onde ocorre a formação de híbridos. “Eles têm algumas diferenças genéticas, moleculares, mas pouquíssimas diferenças visuais”, diz Jéssica Melo, que fez uma análise comparativa dos sons emitidos pelas três espécies em sua dissertação de mestrado. “Eu encontrei diferenças bioacústicas, que não são comportamentais, dependem da morfologia do crânio de cada espécie”, conta ela.

No entanto, todo o conhecimento acumulado sobre botos-cor-de-rosa e tucuxi ainda é muito restrito. Vera, do Inpa, usa uma analogia para explicar a dificuldade de pesquisar ambas as espécies. Por conta da água escura, estudá-las é como um “voyeur olhando através do buraco de uma fechadura: de vez em quando vê uma perna, um braço, uma cabeça”, diz ela. “Mas eles passam 99% da vida embaixo da água e a gente não sabe o que estão fazendo.”

Longe do rigor científico, para os ribeirinhos que sempre conviveram com os botos e tucuxis, as diferenças entre os dois são outras. Os tucuxis são os golfinhos bonzinhos, brincam longe dos barcos e mantêm distância das pessoas. Já os botos, não. Eles são malvados.

“O pessoal diz que os botos são galerosos, que eles gostam de malinar”, diz Jéssica. Menos ariscos e mais agressivos que os tucuxis, os botos-cor-de-rosa se aproximam para roubar peixes e não raro rasgam as redes de pesca. Soma-se isso ao medo de que eles viram os barcos por brincadeira e às lendas que pairam sob a espécie e o resultado é uma certa animosidade. Nos casos mais graves, isso leva à morte de alguns botos presos em materiais de pesca.

A relação entre eles e os pescadores é um pouco mais complexa, explica Jéssica. “Quando eu pergunto se gostam dos botos, costumam responder que não”, conta a bióloga. “Mas aí eu chego no porto de Tefé e estão lá esses mesmos pescadores chamando os botos por nomes antigos, reconhecendo-os, brincando, jogando peixe.”

Tucuxi salta na reserva de desenvolvimento Mamirauá. Os tucuxis chegaram na bacia amazônica entre 3,5 e 5 milhões de anos atrás, muito depois do boto-cor-de-rosa, que parece ter evoluído melhor à floresta – com uma espécie de pescoço, ausente nos tucuxis, ele consegue se movimentar entre o igapó com destreza.

Foto de Ethel Braga

Pesca acidental, o bycatch

Longe desses momentos de descontração, o grande risco para os golfinhos malvados e bonzinhos da Amazônia é mesmo o bycatch. Por conta do estresse, os tucuxis são especialmente vulneráveis e é difícil que sobrevivam quando enroscados em uma rede.

Dentro do projeto de estimativa populacional do Instituto Mamirauá, um dos objetivos é entender qual o impacto desse problema para a vida de ambas as espécies. Para isso, os pesquisadores registram a posição de qualquer artefato de pesca, como malhadeiras, currais e espinhéis nos percursos onde é feita a observação dos botos e tucuxis.

“A gente registra, para depois mapear em relação à densidade dos botos e analisar as áreas onde há mais risco e probabilidade de pesca acidental”, explica Jéssica. A longo prazo, diz, a meta é buscar estratégias para mitigar os danos da pesca, como usar dispositivos sonoros que afastam os animais ou propor mudanças no tamanho das redes utilizadas, por exemplo.

Além, é claro, da conscientização. Impossibilitada de desembarcar nas comunidades ribeirinhas por conta da pandemia, Jéssica tem o apoio dos Agentes Ambientais Voluntários nessa tarefa. Ribeirinhos treinados e contratados pelo Instituto Mamirauá para auxiliar na pesquisa como observadores e piloteiros levam às suas comunidades a importância de adotar novas atitudes para conservar os animais.

“A gente precisa trabalhar envolvendo as pessoas, se a gente não voltar os esforços para conscientizar, não adianta muita coisa”, afirma a pesquisadora. “Estamos com uma ideia, por exemplo, de envolver a comunidade nesse monitoramento de bycatch. Ainda não conseguimos botar em prática, mas pensamos muito nisso.”

Futuro dos golfinhos de água doce

Do outro lado no mundo, na Ásia, a situação de parentes distantes dos botos e tucuxis serve de alerta para um cenário devastador. Quatro espécies encontradas na China, Índia e Paquistão, entre outros países, estão em estado crítico. Uma quinta, o baiji, cujo habitat era o rio Yangtzé, na China, foi declarada extinta na natureza em 2006 – há relatos não confirmados de avistamento desde então.

“Pensa que o Yangtzé foi uma Amazônia, com várzeas, cheias e vazantes, e o rio foi canalizado, tem trechos que você não vê a outra margem, com tantos barcos que trafegam”, diz Vera da Silva, que esteve em uma expedição na China em 1986 em busca do baiji. E já na época não o encontrou. “Os golfinhos de água doce são inevitavelmente as espécies mais ameaçadas, porque estão próximos e sempre em contato com as atividades humanas, seja ela qual for”, explica a pesquisadora do Inpa.

Caça, pesca acidental, alterações na cadeia alimentar, construção de barragens que modificam o curso dos rios e poluição são alguns dos riscos graves para a preservação dessas espécies. “São problemas que estamos vendo numa escala diferente na Amazônia, é só uma questão de tempo se nós não fizermos nada”, diz Vera.

Para Miriam Marmontel, “precisamos olhar para eles para não entrar na mesma espiral.” Em rios entrecortados por hidrelétricas, como Madeira e Tocantins, há populações de botos segregados em grupos de poucos indivíduos, com baixa variabilidade genética. Além disso, dados preliminares encontrados pelo Sardi, o consórcio para pesquisa dos golfinhos fluviais na América do Sul, indicam que já há taxas de mercúrio altíssimas nesses animais.

Como resistência a estes problemas, não há outra alternativa senão o conhecimento e a ação. Ainda dentro dos esforços do Sardi, um levantamento com pescadores de grande parte da Amazônia brasileira buscou respostas sobre o quanto a piracatinga ainda é pescada e sobre quão comuns são os emalhes de botos e tucuxis. Além disso, mais e mais expedições aumentam a área onde são feitos monitoramentos sobre populações de botos e tucuxis.

“Nós ainda temos uma defasagem no quanto sabemos dos botos em áreas de Roraima, Rondônia e Acre, e precisamos estimular mais pesquisadores e estudantes a irem a campo, lá dentro do matão, nessas regiões”, diz Miriam. “Mas hoje o sentimento é que já não trabalhamos mais sozinhos, a colaboração potencializa tremendamente a geração de dados.”

Dentro da RDS Mamirauá, onde os golfinhos de rio doce brasileiros estão numa situação um pouco mais confortável, os esforços continuam. “O boto é a Amazônia", diz Jéssica Melo. “Ele e o tucuxi são espécies supercarismáticas, a gente pode usar isso para levantar esforços de conservação e conservando essas espécies a gente conserva também o habitat delas e o nosso.”

Antes de seguir viagem rumo aos próximos pontos de monitoramento na Reserva, Jéssica acompanhou a reportagem para uma entrevista dentro de um pequeno trecho de igapó ainda alagado enquanto a água dos rios já começava a descer. Lá, iluminada pelos poucos raios de sol que atravessavam a copa da floresta alagada, passou por um batismo inevitável para quem trabalha tempo suficiente na Amazônia.

Ela ganhou um novo nome: xixica, um tipo de mucura – gambá –, pequeninha e simpática, que emite um som semelhante a um risinho abafado. Antônio Peixe-Boi notou a semelhança e deu o apelido. Jéssica gostou.

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