Nova Zelândia

A vida a bordo da mais longa viagem de trem da Índia

Sob o balanço incansável de ferro, madeira e poeira, a ferrovia indiana é completamente feita de histórias. Quarta-feira, 8 Novembro

Por Gulnaz Khan
Fotos de Matthieu Paley

Por mais de um século, a malha ferroviária da Índia testemunhou a infindável expressão da condição humana, suportou o incalculável peso de separações e embalou gentilmente o cansaço da vida até o esquecimento.

"Ela é nova, bela e repulsiva ao mesmo tempo", diz o fotógrafo da National Geographic Matthieu Paley, que ficou cinco dias e quatro noites a bordo do Vivek Express. Começando pelo extremo sul da Índia, a rota se estende por 4,243 quilômetros, desde Kanniyakumari – ao sul – a Dibrugarh – ao norte – sob o supervisão do inclemente sol equatorial. É a viagem de trem mais longa do subcontinente indiano.

"As pessoas querem tempo", diz Matthieu. "Vivemos em um mundo que quer comprimir o tempo e fazer as coisas cada vez mais rápido. Eu adoro o trem porque é um ambiente em que você é obrigado a desacelerar."

É possível traçar a origem do movimento de "viagem lenta" à Revolução Industrial do século 19, uma época definida pela aceleração sem precedentes, a onipresença da tecnologia e a mercantilização do tempo. Os românticos alertaram que essa obsessão moderna com o tempo era uma "gaiola de ferro" construída por nós mesmo e que levaria à alienação, à perda de significado e à falta de autorreflexão. A solução proposta era a desaceleração.

"O meu tipo de fotografia preferida acontece quando eu desacelero; mas hoje em dia, não é fácil", diz Matthieu. "Em trens, eu sou como um refém, desconectado, suspenso no tempo. Isso me força a desacelerar. É isso que eu almejo: dê-me uma viagem longa e lenta e eu ficarei feliz."

A experiência do tempo, no entanto, sempre se articula com nossas percepções continuamente em evolução de velocidade. Enquanto a viagem ferroviária pode ser lenta para os padrões contemporâneos, quando o primeiro trem da Índia atravessou 34 quilômetros de Bombaim a Thana, em abril de 1853, o acontecimento foi, além de um triunfo da engenharia, criticado por quem achou o trajeto rápido demais.

No século e meio seguinte, as ferrovias não só alteraram drasticamente a cultura indiana como também reestruturaram o próprio tempo e espaço.

Considerada tanto uma tecnologia transformadora quanto símbolo da opressão imperial britânica, a malha ferroviária apagou as outrora imensas distâncias, estimulou o comércio e tornou a viagem acessível para as massas. Mas também criou ambientes propícios a transmissão de doenças infecciosas, condições de trabalho exploratórias além de alterar para sempre a paisagem natural.

Os colonizadores britânicos enxergavam o trem como um prenúncio do progresso – uma ferramenta capaz de abolir o sistema de castas e forjar a sociedade capitalista. Em vez disso, ele se tornou um espaço que era invariavelmente indiano: a beleza e o caos em paralelo.

"O subcontinente indiano pode ser um lugar perturbador", diz Mathieu. "Há uma certa beleza do ser, mas é difícil percebê-la de início, escondida sob todo o barulho e a contínua loucura colorida. É isso que eu amo nessa parte do mundo – você pode simplesmente se envolver com o que está ao seu redor sem parecer estranho."

Esse inabalável envolvimento é fundamental para a viagem lenta – que valoriza a qualidade das interações com a cultura local, e não a quantidade de carimbos no passaporte. Esse ideal remonta à crença romântica de que a preocupação com o futuro corrompe o caminho do presente.

Cientistas concordam que as sociedades industrializadas estão vivendo uma "fome de tempo" paradoxal – o sentimento persistente de que temos muitas coisas para fazer e não temos tempo suficiente para realizá-las – e que isso interfere na nossa habilidade de apreciar experiências imateriais. Estamos fazendo tudo mais rápido, mas não percebemos que temos mais tempo livre.

Enquanto a Índia se choca incessantemente com o futuro, é difícil determinar como será a próxima geração de viagens de trem. Com o respaldo de um financiamento de US$ 12 bi do Japão, o governo está desenvolvendo um trem de alta velocidade que ligará as cidades de Mumbai e Ahmedabad. "A empresa fará uma revolução nas ferrovias indianas e levará a Índia para o futuro", de acordo com o Primeiro Ministro Narendra Modi. "Ele vai ser um motor de transformação econômica."

Essa é, talvez, a dualidade da modernização – ela tem o potencial para melhorar drasticamente as vidas enquanto aumenta, simultaneamente, a atrofia espiritual.

Henry David Thoreau prescreveu uma "dose de natureza selvagem" para escapar o ritmo voraz da urbanização. Mas em um país com 1,3 bilhões de pessoas, natureza selvagem é um estado de espírito – uma vontade de confrontar a vida em todas as suas confusas iterações. Com mais de 22 milhões de passageiros por dia, 1,3 milhões de funcionários e 66 mil quilômetros de trilhos, a ferrovia indiana é repleta de vida.

"Somos uma massa coletiva nos movendo com o ritmo, vibrando, em permanente evolução", diz Matthieu. "Se você prestar atenção, pode se envolver com o puro prazer de viajar. Para mim, é o sentimento de estar unido mesmo com todas as nossas diferenças."

O trabalho de Matthieu Pailey já estampou as páginas da revista National Geographic. Veja imagens de sua viagem de trem pela China em seu Instagram.

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