Por que viagens ruins podem gerar ótimas histórias

Jornadas desastrosas tendem a ser transformadoras e mais memoráveis do que as perfeitas — e nos proporcionar mais felicidade.

Publicado 24 de abr. de 2021 15:30 BRT
Entering the Pack; Fo'castle of the Terra Nova

A história da desastrosa expedição Terra Nova, realizada por Robert Falcon Scott em 1910 à Antártica, foi contada vividamente por Apsley Cherry-Garrard no clássico de aventura “A Pior Viagem do Mundo”.

Foto de Herbert Ponting, Royal Geographical Society/Getty Images

Boas viagens vêm e vão. Viagens ruins duram para sempre. Não há nada mais fácil de esquecer do que uma jornada que ocorre exatamente conforme planejada. É por isso que eu prefiro fazer uma viagem ruim em vez de uma boa, o que é uma ideia aparentemente distorcida, que diz muito sobre a natureza humana, a maneira como guardamos nossas memórias — e por que viajamos, para começo de conversa.

Pode haver vários contextos para uma viagem ser considerada “ruim”. Algumas viagens não saem conforme o planejado apenas ligeiramente: uma conexão perdida, um evento cancelado. Outras se desviam tanto do planejamento que se tornam notícias. A trágica expedição Terra Nova à Antártica, em 1910, narrada lindamente em A Pior Viagem do Mundo, de Apsley Cherry-Garrard, transformou essa viagem desastrosa em um clássico da literatura de aventura. Uma viagem não precisa envolver temperaturas abaixo de zero para ser considerada ruim. Se viajarem constantemente, um dia, todos os viajantes terão sua própria “pior viagem do mundo”.

Não é à toa que as palavras “travel” e “travail” (respectivamente “viagem” e “provação”, em inglês) têm uma raiz comum.

O teste da viagem

Nas últimas décadas, cientistas sociais têm analisado e estimulado nossa psique, em busca do segredo para pessoas e lugares felizes. Uma descoberta consistente: não somos muito bons em prever o que nos deixará felizes ou não. Acreditamos que acumular coisas nos trará satisfação, mas estudos consistentemente indicam que são as experiências, não os bens materiais — fazer, e não ter — que proporcionam o maior contentamento.

Viajantes podem presumir que uma viagem perfeitamente tranquila aumentará a felicidade; mas experiências sugerem que alguns solavancos no caminho tornam a jornada memorável.

Acredito que o verdadeiro motivo de viajarmos é para sairmos da zona de conforto, nos testar e descobrir habilidades que não sabíamos que tínhamos. Nós viajamos para sermos provados. Viagens ruins fornecem o arco narrativo da nossa jornada do herói, aquele arquétipo antigo elucidado por Carl Jung e Joseph Campbell, entre outros. As etapas são sempre as mesmas. Primeiro passo: o herói embarca na aventura. Segundo passo: o herói é testado. Terceiro passo: o herói passa no teste. Quarto passo: o herói volta para casa transformado. Viajantes ao longo dos séculos, de Marco Polo até Ibn Battuta e Gertrude Bell aperfeiçoaram a jornada do herói.

A noção de uma viagem ruim é diferente para cada pessoa. Para a autora e jornalista norte-americana Martha Gellhorn, nada era pior do que uma viagem chata e nada mais chato do que um cruzeiro. (“Fico entediada só de pensar em uma viagem dessas.”) Em 1944 ela se viu atravessando o Atlântico a bordo de um navio norueguês de dinamite. O porão do navio estava carregado de explosivos. A comida era horrível, não havia bebidas, a tripulação não tinha nenhum humor. Não havia barcos salva-vidas. Quando o navio chegou a Liverpool em segurança, ela ficou aliviada, mas também estranhamente melancólica. Ela tinha gostado daquela viagem ruim. “Se tivesse que escolher entre um navio de cruzeiro e um navio de dinamite, eu não teria dúvidas.”

Também há aqueles viajantes teimosamente otimistas, como a escritora britânica Jan Morris, que “fez da jornada feliz uma especialidade profissional”. Nenhuma dificuldade ou revés poderia abalar sua alegria. Certa vez, para provar seu argumento, ela sugeriu um experimento mental. E se os diversos contratempos que ela enfrentou ao longo de uma vida inteira de viagens convergissem para uma única jornada? Se ela se encontrasse “com o passaporte e passagem de avião roubados, a bagagem perdida no voo, sofrendo de diarreia extrema durante uma onda de calor no verão e uma grave escassez de água enquanto o fornecimento de eletricidade e o serviço telefônico locais tivessem sido cortados devido a interferências políticas.”

Viagem terrível, certo? Não, diz Morris. “Ora, eu teria dito a mim mesma: ‘que sorte eu tenho por não estar chovendo’.” Para ela, uma viagem ruim é a exceção que comprova a regra, o buraco na estrada que torna os trechos suaves mais agradáveis.

Amigos e lembranças

Viagens ruins adoram companhia. Nada testa a resistência de um relacionamento antigo, ou consolida um novo, como uma jornada que deu errado.

Também explica por que A Pior Viagem do Mundo é uma leitura tão atraente e estranhamente inspiradora. O autor, um zoólogo assistente que se aventurou bem longe de sua zona de conforto, relata em detalhes dolorosos como ele e outros dois exploradores embarcaram em uma busca ousada por ovos de pinguim-imperador. Cherry, como o jovem era conhecido, descreve uma provação quase inimaginável: alimento escasso, frio brutal (com temperaturas chegando a 60 graus negativos) e escuridão implacável. No entanto, os homens nunca perderam a esperança ou sua calorosa amizade.

Viagens ruins revelam muito sobre o funcionamento da memória humana. Normalmente pensamos na memória como uma espécie de fotografia ou registro digital que podemos consultar à vontade, mas na verdade, ela é muito mais fluida e complexa do que isso. Não consultamos memórias, mas sim as formamos, construímos, como um edifício cognitivo que se curva e se dobra ao longo do tempo.

Pesquisas mostram que eventos negativos causam impressões mais profundas do que os positivos. É o chamado “viés da negatividade” e, de uma perspectiva evolutiva, faz sentido. Para sobreviver, era mais importante que os primeiros humanos lembrassem a localização da cova dos leões, em vez daquela bela formação rochosa.

O viés da negatividade, porém, é equilibrado por outra força psicológica: o “viés do afeto desvanecido”. De forma simples, com o tempo, esquecemos as coisas ruins e nos lembramos das boas. E, como descoberto em um estudo recente, focar no contexto de um evento negativo diminui seus efeitos prejudiciais. Pesquisadores submeteram 19 participantes a exames de imagem cerebrais enquanto mostravam a eles uma série de fotografias perturbadoras sobrepostas em um fundo neutro. Quando lhes foi pedido que mudassem o foco para o fundo neutro, os participantes classificaram as fotos como menos negativas e retiveram menos memórias detalhadas. Nossas psiques descartam memórias negativas e preservam as positivas, uma tendência que se torna mais acentuada à medida que envelhecemos.

A memória é mais do que simples cognição. Nossas emoções desempenham um papel importante. Pesquisas mostram que o que sentimos durante um evento determina a probabilidade de nos lembrarmos dele e em que grau de detalhes. Emoções intensificadas também intensificam as memórias.

A maneira como contamos a história de uma viagem muda com o passar do tempo. Aquele peixe grande que alguém pescou fica um pouco maior a cada versão. Surpreendentemente, pelo menos um estudo descobriu que essas histórias revisadas levam a uma memória revisada. Não nos limitamos a contar aos amigos incrédulos que o peixe que pescamos “era do tamanho de um carro pequeno”; nós passamos a acreditar nisso; nos lembramos dessa maneira.

Todas essas pesquisas revelam uma verdade essencial sobre viajar: não é apenas uma atividade física e cognitiva, mas também criativa. Mais importante do que um itinerário completo é uma imaginação rica, pois não é a viagem que é memorável; a lembrança a torna assim.

Em outras palavras, uma viagem, seja ela boa ou ruim, não termina ao voltar para casa. Em um sentido muito real, ela apenas começou.

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