Como as águas-vivas dominam os mares mesmo não tendo cérebro

Embora sejam compostas basicamente de água, as águas-vivas contam com diversos superpoderes.

Publicado 23 de ago. de 2018 16:30 BRT, Atualizado 5 de nov. de 2020 03:22 BRT
Águas-vivas-caixa, vistas nas águas de Table Mountain, África do Sul, têm um dos venenos mais letais ...
Águas-vivas-caixa, vistas nas águas de Table Mountain, África do Sul, têm um dos venenos mais letais do planeta.
Foto de Thomas P. Peschak, National Geographic Creative

Ao pensarmos em animais perigosos, é provável que não venha em mente algo parecido com uma bolsa d'água sem cérebro. Mas, quando o banhista ouve o grito "água-viva!", ele logo fica de pé, feito um suricato, porque as águas-vivas deixam todo mundo ligado.

Admiradas por uns e temidas por outros, as águas-vivas são um gelatinoso amontoado de contradições. É hora de conhecer os incríveis superpoderes desses animais.

Algumas águas-vivas são compostas por 98 por cento de água

A parte principal da água viva, o corpo, é composta por duas finas camadas de células com material aquoso não vivo entre elas, afirma o biólogo especialista em águas-vivas Lucas Brotz, pesquisador de pós-doutorado na Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver.

Essa estrutura simples é um "truque evolutivo interessante", segundo o biólogo, que as permite crescer e comer em maior quantidade sem o ônus de um metabolismo acelerado.

"Elas sobreviveram a todas as extinções em massa", diz Brotz. Se por um lado a maioria das espécies já existentes no planeta está extinta, "esse grupo de bolsas d'água deu algum jeito de sobreviver" por mais de 600 milhões de anos.

... e muito rápidas

O ataque da água-viva é "um dos processos mais rápidos da biologia", explica Sean Colin, ecologista da Roger Williams University, em Rhode Island. E também é bem complicado para um animal aparentemente simples.

Águas-vivas douradas seguem o sol todos os dias pelo Lago das Águas-Vivas, lago de água salgada em Palau.
Foto de Michael Melford, National Geographic Creative

As células urticantes da água-viva são chamadas de cnidócitos, uma característica única desses animais e de parentes seus, como os corais e as actínias. Dentro dessas células se encontra uma organela chamada nematocisto, que contém o que Colin descreve ser uma cápsula com pequenos arpões enrolados dentro dela.

Quando provocada para o ataque, centenas desses nematocistos são lançados para fora. Toda essa pressão liberada se traduz em golpes super-rápidos, com duração de apenas  700 nanossegundos, com força suficiente para rachar a concha de um crustáceo em seu ponto mais frágil.

Elas não querem te machucar

Os nematocistos são ativados pelo simples toque de qualquer matéria orgânica, inclusive o nosso corpo.

Os ataques de algumas águas-vivas, como as das águas-vivas-caixa do norte da Austrália e Indo-Pacífico, podem ser letais, mas outras dispõem de nematocistos que não penetram na pele humana.

No entanto, as águas-vivas não se ferem entre si. Brotz afirma que provavelmente existem mecanismos químicos para evitar isso. 

Águas-vivas fazendeiras

Nem todas as águas-vivas flutuam com o corpo virado para cima. As águas-vivas do gênero Cassiopea ficam de ponta-cabeça e vivem no fundo do mar em águas tropicais do Indo-Pacífico, Flórida, Caribe e Havaí.

Esses animais ficam com o corpo no fundo do oceano, tal qual um turista pegando um sol, que é mais ou menos o que elas fazem. Elas mantêm algas microscópicas em seus tecidos e as "apoiam na direção do sol, dando a elas oportunidade de crescimento", segundo Brotz, usando-as em seguida como fonte de nutrição.

As Águas-Vivas Douradas do Lago das Águas-Vivas, de Palau, também são criadoras de algas, seguindo o sol deslocando-se de um lado a outro do lago durante o dia e fertilizando sua "plantação" à noite, afirma Brotz.

Água-viva da espécie hidromedusa flutua no Aquário do Pacífico, em Long Beach, Califórnia. Um gene de bioluminescência presente nessa espécie foi transformado em tecnologia biomédica ganhadora do Prêmio Nobel.
Foto de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark

Águas-vivas vencedoras indiretas do Prêmio Nobel

Muitas das 3.000 espécies de águas-vivas identificadas até hoje, Brotz observa, são bioluminescentes, o que significa que elas produzem a própria luz. Parte importante desse truque empregado por uma dessas espécies, a hidromedusa, é o gene chamado de proteína fluorescente verde, ou GFP, na sigla em inglês, diz ele.

Quando utilizada por cientistas como biomarcador, essa proteína literalmente esclarece os funcionamentos internos do corpo, rastreando processos que vão desde a produção de insulina e infecção por HIV até a estrutura muscular.

Os pesquisadores que desenvolveram essa tecnologia venceram o Prêmio Nobel de Química em 2008—pegando carona nos tentáculos de uma água-viva.

São perigosas mesmo mortas

Os nematocistos urticantes da água-viva são como aqueles assassinos de filme de terror que nunca desistem. É possível se ferir com um simples tentáculo solto, ou mesmo com o corpo de uma água-viva morta.

E se a pessoa comer uma lula que tenha ingerido uma água-viva sem a digerir completamente, essa água-viva também pode feri-la, diz Colin.

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