Animais

Conheça o homem que vive com hienas

A incrível relação entre homem e fera tem se mantido viva por 50 anos graças a uma tradição familiar. Quarta-feira, 8 Novembro

Por Alexandra Genova
Fotos de Brian Lehmann

O sol está se pondo na antiga cidade murada de Harar e o silêncio é quebrado apenas por um uivo ocasional. Na quase escuridão, cinco hienas famintas circundam um jovem agachado no chão. Suas orelhas, semelhantes às de um morcego, mexem-se para frente e para trás ao mesmo tempo em que os maxilares se flexionam para revelar os dentes. Está na hora da refeição.

Mas, apesar das hienas-malhadas serem conhecidas como necrófagos vorazes, os habitantes desta pequena cidade etíope não parecem temê-las. O jovem tira um pedaço de carne da cesta e o balança no ar. Em vez de pular para atacar, uma hiena se aproxima e tira a carne das mãos do homem com a delicadeza de um cão domesticado.

Abbas Yusuf, conhecido como o homem-hiena, aprendeu a alimentar esses animais selvagens com seu pai, Yusuf Mume Salleh, que costumava jogar restos de comida para atraí-los para longe de seu gado. Anos depois, a tradição continua viva e, embora tenha se tornado uma popular atração turística, a relação notável entre homem e animal ainda é muito forte.

O fotógrafo Brian Lehmann, que passou algum tempo documentando o fenômeno, diz que essa conexão profunda – quase transcendente – era o que mais lhe interessava. "Eu fiquei maravilhado com o relacionamento", diz Brian à National Geographic. "Pessoas do país inteiro morrem de medo das hienas, exceto nesta pequena cidade da Etiópia. Elas são capazes de devorar e transformar uma pessoa em uma poça no chão em questão de minutos. A poucos quilômetros dali, encontramos uma menina que foi mordida no rosto e arrastada para um rio, mas, aqui, as crianças não têm medo".

A cidade tem um longo histórico de convivência pacífica com as hienas. Há séculos, os animais atacavam e, às vezes, matavam os moradores da cidade, disseram os locais para Brian. A solução encontrada foi fazer buracos nos muros da cidade e começar a jogar restos de comida para o outro lado, "assim, elas comeriam a comida, não os moradores". De acordo com o povo Harari, não há ataques de hienas há 200 anos.

Assim como as generosas ofertas de Yusuf, as hienas se banqueteiam no aterro sanitário da cidade. Diariamente, e com a precisão de um relógio, os animais ouvem o som do caminhão de lixo – uma sirene que toca ao amanhecer e anuncia a descarga de restos. Ao anoitecer, outro ruído chama as hienas para se alimentar. "Abbas fica parado nesta colina e chama por elas para que venham à sua casa para que ele possa alimentá-las e mostrar aos turistas", diz Brian. Todas as noites, Abbas fica em uma colina e chama por elas, convidando-as para vir se apresentar para os turistas. Ele deu nomes para todas, embora algumas respondam mais do que outras. Ele até desenvolveu um tipo especial de dialeto para atraí-las em suas cavernas.

Embora Brian não seja um fotógrafo de vida selvagem, ele já havia documentado animais selvagens e sabe que "a realidade é que você precisa estar perto para que seja visualmente impactante". Em vez de usar uma armadilha de câmera, o relacionamento de Abbas com as hienas era a sua 'entrada'. “Quando estava com Abbas, podia fazer o que fosse, mas quando estava sozinho, levava bastante tempo para ganhar a confiança delas", acrescenta.

Um exemplo aconteceu em uma noite, quando uma hiena – com quem Abbas tem uma relação especialmente próxima – levou ele e o fotógrafo para o seu covil. "Naquele momento, você hesita e pensa: é agora que ela vai me matar?", ele diz. "Mas é aí que você percebe o incrível relacionamento que Abbas tem com elas." Um dos covis em que Yusuf entrou tinha filhotes de hienas dentro. "Você podia ouvir as outras hienas correndo por perto. Elas são capazes de matá-lo em dois segundos, mas não o fizeram", acrescenta. "Elas deixaram ele fazer o que quisesse."

A tradição peculiar, passada de geração em geração, ultrapassa a ordem natural das coisas e mostra como um animal – temido pelo homem e vilipendiado pelo folclore – pode ser mal compreendido. Como Brian diz, "não há dúvida que são criaturas feias. Mas há beleza nelas".

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