Animais

Coleta de impressões digitais pode ajudar mamífero mais traficado do mundo

Pesquisadores desenvolveram um método simples e fácil para a coleta forense de impressões digitais a partir das escamas dos pangolins. Quinta-feira, 19 Julho

Por Rachael Bale

PESQUISADORES BRITÂNICOS TESTARAM um método de coleta de impressões digitais a partir das escamas dos pangolins, animal ameaçado que se alimenta de formigas e é considerado o mamífero mais traficado do mundo. Utilizando levantadores de gelatina padrão, pequenas folhas com uma face adesiva comumente utilizadas por investigadores em cenas do crime na coleta de impressões digitais e outras evidências, pesquisadores da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, em conjunto com a ONG Zoological Society of London (ZSL), conseguiram coletar com sucesso impressões digitais nítidas a partir das escamas de pangolins. Comprovar que isto é possível significa que autoridades policiais em todo o mundo poderão utilizar esta simples tecnologia para identificar os traficantes que manusearam as escamas de pangolim.

Na última década, aproximadamente um milhão de pangolins foram capturados e traficados, principalmente para uso em medicamentos tradicionais orientais e como iguaria em restaurantes na Ásia. As quatros espécies de pangolins asiáticos são consideradas criticamente ameaçadas, enquanto as quatro espécies africanas encontram-se em risco, particularmente agora, uma vez que os traficantes começaram a capturá-los no lugar de seus parentes asiáticos, que se tornaram mais difíceis de serem encontrados. O comércio internacional de todas as espécies de pangolins e suas partes foi banido.

“Até onde sabemos, ninguém está usando os levantadores na investigação de crimes contra vida selvagem, e esta foi a primeira vez que impressões digitais em nível comprobatório foram coletadas das escamas de um pangolim” disse Christian Plowman, antigo detetive da New Scotland Yard e consultor da ZSL, por e-mail. Plowman e seu antigo superior na Polícia Metropolitana, Brian Chappell, agora docente sênior na Universidade de Portsmouth, tiveram a ideia enquanto tomavam café.

“Estávamos discutindo um método simples e fácil, viável em uma vasta gama de ambientes geográficos, e com o mínimo de complicações possíveis”, diz Plowman.

Coletores de impressões digitais que utilizam pó, pincéis e fitas podem ser complexos e demorados demais para guardas-florestais em campo, que precisam entrar e sair rapidamente do local, minimizando sua exposição aos caçadores que ainda podem estar por perto, diz Chappell. “Por que não tentamos os levantadores?”, eles pensaram.

Escamas valiosas

A técnica foi testada por pesquisadores da universidade, que conseguiram as escamas de pangolim da Força Fronteiriça do Reino Unido. Os pesquisadores pediram que diversas pessoas manuseassem as escamas, utilizaram os levantadores de gelatina para obter as imagens das digitais e, então, as passaram por um digitalizador próprio para a leitura de impressões digitais.

Os resultados iniciais eram promissores. Quase 90% das folhas coletadas resultaram em imagens nítidas e detalhadas das impressões digitais das escamas dos pangolins de diversas espécies. Guardas-florestais dos Camarões e do Quênia já estão testando o método em campo. Anteriormente, guardas-florestais quenianos já haviam utilizado os levantadores de gelatina para coletar impressões digitais de peças de marfim, e pesquisadores de Portsmouth também conseguiram obter digitais a partir das penas de pássaros, disseram Chappell e Plowman.

Jac Reed, técnico forense sênior na Portsmouth e antigo investigador de cenas do crime que participou do projeto, disse que parte do que faz o método tão valioso é a utilização de “tecnologia de baixo nível”.

“Ele também é importante para as autoridades policiais em países em desenvolvimento que podem não ter acesso a tecnologias mais avançadas e equipamentos forenses mais caros” disse Reed em uma declaração.

“Este novo avanço é uma ferramenta promissora no combate ao comércio ilegal de pangolins”, disse Paul Thomson, biólogo conservacionista e cofundador da ONG Save Pangolins, que não participou do projeto. O método poderá ajudar a conduzir os investigadores aos traficantes ou seus intermediários, mas Thomson enfatizou que derrubar os chefes do crime por trás das operações é essencial.  “Precisamos ver técnicas avançadas como esta, empregadas em todos os passos da cadeia de crimes contra vida selvagem”, disse ele por e-mail.

Os traficantes aprendem rápido e, caso esta técnica seja amplamente implementada, é possível que aqueles que manuseiam as escamas comecem a utilizar luvas, alertou Chappell. Mas além do potencial investigativo e de ação legal desta técnica está a prova de conceito quanto a existência de técnicas forenses que podem ser empregadas no combate ao crime contra vida selvagem.

Precisamos manter o passo para mostrar que há pessoas utilizando outras técnicas inovadores na prevenção e detecção do tráfico, ele disse.