Animais

Pode haver um pouco de tubarão em seu protetor solar

Óleo derivado do fígado do animal é um ingrediente comum em cosméticos, e a demanda por ele pode estar colocando os tubarões do fundo do mar em perigo. Sexta-feira, 27 Julho

Por Annie Roth

Milhões de tubarões raros são mortos todos os anos para sustentar uma indústria multimilionária - mas essa indústria pode surpreender você.

Em regiões remotas do mundo, os pescadores pescam os tubarões das profundezas e retiram seus fígados. Os fígados de tubarão contêm um óleo, conhecido como esqualeno, que é muito utilizado em produtos como protetor solar, batom, base, loção e muitos outros cosméticos.

Rico em ácidos graxos e antioxidantes, o esqualeno é um dos principais agentes hidratantes e sua fonte varia de acordo com a marca. O esqualeno pode ser extraído de azeitonas, gérmen de trigo e outras plantas, mas obtê-lo de tubarões é mais fácil e significativamente mais barato, dizem os especialistas.

Embora o esqualeno de origem de tubarão possa ser encontrado em outros tipos de bens de consumo, como suplementos vitamínicos e vacinas, até 90% do esqualeno de tubarão produzido é vendido para empresas de cosméticos, segundo um relatório publicado em 2012 pela ONG francesa BLOOM.

Em resposta ao aumento da conscientização do público com a conservação dos tubarões, muitas empresas no mundo ocidental fizeram a mudança para o esqualano à base de plantas, mesmo que seja cerca de 30% mais caro de produzir.

(Veja: "Como uma incrível foto de tubarão se tornou viral")

Andriana Matsangou, porta-voz da empresa anglo-holandesa Unilever, diz que a empresa "obtém esqualeno inteiramente de fontes vegetais para evitar o abate de espécies de tubarão".

Da mesma forma, Alexander Habib, porta-voz da L'Oréal, afirmou que a empresa francesa parou de usar o esqualeno de tubarão há 10 anos, e que desde então, a L'Oréal “implementou medidas rigorosas para controlar a origem do esqualeno de nossos fornecedores”.

Impactos desconhecidos

Mas a indústria cosmética global ainda é amplamente suprida pelo esqualeno de tubarões - e o impacto dessas atividades sobre o equilíbrio da vida na camada mais baixa do oceano ainda é desconhecido, de acordo com David Ebert, diretor do Pacific Shark Research Center do Moss Landing Marine Laboratory.

“O problema é que realmente não sabemos o que está acontecendo lá embaixo”, diz Ebert. “Muitas dessas atividades de pesca ocorrem em partes do mundo que estão fora do radar”.

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Das 60 espécies de tubarões abatidas pelo seu óleo, 26, incluindo o tubarão lixa, são consideradas vulneráveis à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza.

Os tubarões já estão sob pressão da indústria alimentícia: cerca de cem milhões de tubarões de uma variedade de espécies são mortos anualmente, para alimentar, principalmente, a demanda chinesa por sopa de barbatana de tubarão.

Em grandes apuros

Os pescadores de esqualeno atacam os tubarões de águas profundas - como os tubarões-lixa, os tubarões-peregrinos e os cações-bico-doce – pois eles possuem fígados muito oleosos que os ajudam a permanecer flutuantes sob a imensa pressão das profundezas, de acordo com Ebert.

“Estes animais são particularmente vulneráveis à sobrepesca porque a maioria cresce lentamente e se reproduz com pouca frequência”, acrescenta.

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A pesca de esqualeno, que ocorre principalmente nos oceanos Índico, sudeste do Atlântico e Pacífico Ocidental, também é cronicamente desregulada, de acordo com um relatório de 2011 publicado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.

Devido à disponibilidade de outras fontes, “a demanda por esqualeno provavelmente não é tão grande quanto era há 50 anos, mas não acho que alguém esteja monitorando o que está acontecendo”, diz Ebert.

Organizações de conservação dos oceanos, como a Oceana, pediram o aumento da regulamentação da pesca de esqualeno, bem como o aumento das proteções para os tubarões de águas profundas. Em 2006, a União Europeia impôs limites rígidos para a pesca de tubarões no nordeste do Atlântico, mas poucos países os impuseram.

Ebert, que descobriu mais de 20 novas espécies de tubarões de águas profundas nas últimas duas décadas, teme que, sem mais proteção, “podemos estar criando uma situação em que estamos perdendo espécies de tubarões sem perceber”.