Após 17 dias de luto, orca finalmente separa-se do corpo de filhote morto

O animal provavelmente desenvolveu uma relação afetiva com o filhote antes de ele morrer, o que poderia explicar sua jornada emocionante e sem precedentes.segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Por Lori Cuthbert e Douglas Main

Uma orca batizada de J35 finalmente deixou de carregar seu filhote morto, o qual ela vinha empurrando com a cabeça por pelo menos 17 dias e quase 1,6 mil km pela costa noroeste do Pacífico. A demonstração de luto sem precedentes atraiu a atenção de todo o mundo.

O triste espetáculo foi um grande exemplo, e confirmação, da complexidade emocional desses sofisticados cetáceos, dizem os especialistas.

Outras orcas, e animais similares como golfinhos, já foram vistos passando por um aparente luto, mas essa foi, de longe, a demonstração mais longa já registrada.

J35, apelidada de Tahlequah, é um membro de quase 20 anos de idade do amplamente estudado tanque J de baleias assassinas residentes do sul que, com sua grande família de animais em extinção — junto com os tanques K e L — habitam uma enorme território que inclui as águas de Seattle, Vancouver e Victoria, na Colúmbia Britânica.

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Pesquisadores temiam que essa “cerimônia” poderia prejudicar seriamente a saúde de J35, mas, felizmente, ela parece ter passado por ela sem nenhum ferimento físico. “Imagens digitais feitas por telefoto da costa mostram que essa mãe parece estar em boas condições físicas”, informou o Center for Whale Research em uma atualização logo após a baleia quebrar o recorde.

Enquanto a jornada de J35 continuava, alguns cientistas se perguntavam por que ela estava tão ligada ao filhote. Seria porque ele viveu por quase 30 minutos depois de ter nascido? Jenny Atkinson, diretora executiva no The Whale Museum em Friday Harbour, na Columbia Britânica, acredita que o luto de Tahlequah é profundo porque, depois de 17 meses de gestação, ela teve a chance de criar um laço emocional com seu bebê antes de ele morrer.

“Eu acho que é muito possível”, diz John Ford, especialista em orcas da Universidade da Colúmbia Britânica. “As baleias possuem um instinto muito forte de cuidar de sua prole e isso evidentemente se estende a recém-nascidos que morrem ao nascer”.

A morte de outro filhote é um forte golpe para o tanque J, que ainda não viu um nascimento de sucesso em três anos. Combinados, os três tanques contêm 75 membros, e o tempo está acabando para manter sua viabilidade. Ken Balcomb, fundador e principal investigador no Center for Whale Research, dá a ele cinco anos.

(Leia mais: "Baleias, orcas e golfinhos choram por seus mortos, assim como nós")

“Temos no máximo mais cinco anos de vida reprodutiva nessa população para conseguirmos mantê-la”, ou seja, para nascer uma prole saudável — “mas se não fizermos isso em cinco anos, não vai dar”, ele escreve.

Balcomb indica a falta de comida como culpada. “Nós demonstramos há muito tempo que essas baleias que se alimentam de peixes estão ficando cada vez mais magras, e o índice de mortalidade vem crescendo”, escreveu ele no site do centro.

“Baleias nesta população ameaçada são dependentes do salmão-rei como sua fonte primária de alimento. Infelizmente, esse tipo de peixe também está escasso”, acrescenta ele.

Especialistas expressaram grande alívio ao saberem que Tahlequah sobreviveu. Tendo 20 anos de idade, o tanque precisa dela para se reproduzir.

“Mesmo sem essa morte, a população está em crise”, diz Atkinson. “Eles precisam de nossa ajuda e suporte para sobreviverem”.

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