Animais

O que o DNA das raposas de estimação pode nos ensinar sobre cães – e sobre os seres humanos

Experimento realizado na era soviética para criar raposas dóceis e agressivas fez descobertas surpreendentes sobre comportamento social e domesticação.Wednesday, August 15

Por Jason G. Goldman
Raposas-prateadas são criadas na Rússia desde 1959 para serem dóceis ou agressivas. O experimento selecionou determinados genes relacionados a comportamentos dóceis e características anatômicas únicas, que podem ser estudados em mais detalhes agora que o sequenciamento dos genomas dos animais foi concluído.

Por quase 60 anos, cientistas russos criaram raposas para que fossem dóceis ou agressivas. Novo estudo sobre os genomas dos dois grupos demonstra que o experimento alterou o DNA dos animais de forma surpreendente. A pesquisa é importante para compreender o comportamento social dos animais e até mesmo dos humanos.

Foi um longo caminho até aqui. Em 1959, um homem chamado Dmitri Belyaev iniciou um experimento que tinha como objetivo entender como os cães foram domesticados. Belyaev e outros biólogos acreditavam que cães domésticos eram descendentes de lobos, mas ainda não sabiam como todas as diferenças anatômicas, fisiológicas e comportamentais entre os dois animais haviam surgido.

Contudo, Belyaev tinha um palpite. Ele suspeitava que o componente-chave era a docilidade do cão. Ele imaginava que as mudanças biológicas ocorridas nos animais domésticos - manchas brancas, caudas enroladas, orelhas caídas, crânios menores - haviam sido resultado de um processo de seleção evolucionário envolvendo características comportamentais e não anatômicas.

Agressividade e docilidade

Belyaev acreditava que, ao cruzar as raposas mais dóceis umas com as outras, ele pudesse domesticá-las, imitando, artificialmente, o processo que levou milênios para ser concluído, aquele em que os lobos se tornaram cães. Ele comprou algumas raposas-prateadas de uma fazenda de peles no Canadá e trabalhou em seu laboratório na União Soviética.

O experimento russo envolvendo a reprodução de raposas gerou animais dóceis, assim como a reprodução seletiva ao longo de milênios gerou cães domésticos.

No fim, Belyaev provou que estava certo. O cruzamento das raposas menos agressivas gerou não apenas animais mais dispostos a buscar conexão social com os humanos, como também animais que exibiam o conjunto de características anatômicas associadas à domesticação: manchas brancas, caudas enroladas, orelhas caídas, etc.

Era possível provocar todo o conjunto de modificações associadas à domesticação simplesmente cruzando as raposas de acordo com a resposta que tinham com a aproximação do homem. Elas se aproximariam do pesquisador com curiosidade e permitiriam contato físico? Ou elas se afastariam, emitindo sons e uivos de medo?

O cruzamento de raposas para produção de animais dóceis provocou alterações anatômicas associadas à domesticação, como orelhas caídas.

Belyaev morreu em 1985, mas o experimento é realizado até hoje. Pesquisadores cruzaram mais de 40 gerações de raposas dóceis e agressivas. E agora, pela primeira vez, concluíram o sequenciamento do genoma da raposa para ajudar a compreender a genética por trás da transição entre o selvagem e o doméstico, conforme descrito no estudo publicado na revista científica Nature Ecology and Evolution.


Os pesquisadores concluíram o sequenciamento dos genes de 10 raposas das populações agressiva e dócil, e obtiveram o genoma completo da raposa-prateada (Vulpes vulpes). Isso permitiu (e continuará permitindo) que eles descobrissem diferenças genéticas que podem ser responsáveis pelos diferentes aspectos da domesticação, disse Anna Kukekova, bióloga da Universidade de Illinois, que liderou o estudo.

Até então, os pesquisadores possuíam apenas o genoma do cão doméstico como referência. Mas, ao passo que os lobos e as raposas viraram espécies distintas apenas há 10 milhões de anos, os cães e as raposas possuem estilos de vida totalmente diferentes.

Segredos da genética

Kukekova e seus colegas concentraram seus esforços em uma das 103 regiões genômicas que diferenciam as raposas dóceis das agressivas. Essa análise revelou que as raposas mais dóceis possuíam uma versão de um gene chamado SorCS1 que não era encontrada nas raposas agressivas ou nas raposas reproduzidas de modo convencional. Por outro lado, uma versão diferente do SorCS1 mais comumente encontrada em raposas agressivas foi incrivelmente incomum nos outros grupos.

Não havia nenhuma razão prévia para suspeitar que o SorCS1 estivesse associado ao comportamento social. “Sabíamos que esse gene estava associado ao autismo e à doença de Alzheimer [em humanos],” disse Kukekova. E um recente estudo realizado em camundongos descobriu que o SorCS1 está envolvido na formação de sinapses e na sinalização neuronal. Isso ajuda a entender como o gene pode afetar o comportamento social, explica a bióloga.

Animais domesticados sofrem menos estresse do que animais selvagens quando confrontados com pessoas ou objetos desconhecidos, e o estudo descobriu genes que podem estar envolvidos nessa diferença comportamental, que está relacionada a uma resposta menos intensa no eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal, ou HPA. Essa série de estruturas biológicas cria uma conexão entre o cérebro e o sistema endócrino no organismo, que é ativada em resposta ao estresse.

O estudo também descobriu uma região genômica de interesse que foi associada à domesticação nos cães e à Síndrome de Williams-Beuren em humanos, uma condição genética caracterizada por comportamento excepcionalmente amigável. Entretanto, de forma surpreendente, a “região Williams-Beuren” aparece nas raposas agressivas, e não nas raposas dóceis.

Kukekova destaca que a Síndrome de Williams-Beuren também é caracterizada por ansiedade extrema e que, de fato, é consistente com a resposta de medo das raposas ao homem. Ainda, Bridgett von Holdt, bióloga evolucionária da Universidade de Princeton, que não participou do estudo, afirma que alguns cães podem ser extremamente agressivos, mesmo tendo criado vínculos fortes e de docilidade com seus donos. Ela conclui que mais pesquisas serão necessárias para realmente identificar e compreender as sutilezas.