Animais

Além de pássaros, os louva-a-deus caçam e comem peixes

Conhecidos por capturarem animais grandes, os insetos predadores foram vistos pescando pela primeira vez fora de cativeiro.Wednesday, September 26, 2018

Por Jake Buehler
Este louva-a-deus asiático gigante (Hierodula tenuidentata) é pego no flagra enquanto come seu peixe recém-pescado.

Animais tão grandes quanto beija-flores podem ser presas das patas rápidas de um louva-a-deus. Agora, parece que nem mesmo peixes estão seguros do abraço mortal desse caçador.

Agora, observações publicadas no Journal of Orthoptera Research descrevem um louva-a-deus pescando, retirando pequenos peixes da água e comendo – algo nunca antes visto em louva-a-deus em ambiente natural.

Louva-a-deus estão entre os insetos predadores mais ambiciosos, ocasionalmente capturando e devorando presas enormes, como sapos, ratos e lagartos. Pensando nisso, os peixes não são algo tão inacreditável.

Dado o funcionamento da visão do louva-a-deus, os cientistas ficaram surpresos que os animais enxergassem bem o bastante dentro da água para pegar peixes. O achado também sugere que os animais possam ser capazes de aprender coisas complexas.

Apesar de encontrar vídeos no YouTube de louva-a-deus comendo peixes de aquário, esses encontros são forçados, diz Roberto Battison, entomólogo no Musei del Canal di Brenta, na Itália, e autor principal do estudo. Esses encontros envolvem colocar louva-a-deus cativos em contato próximo com peixes para estimular uma reação predatória, assim como algumas pessoas armam “brigas” entre louva-a-deus e tarântulas ou escorpiões em pequenos espaços.

Pego no flagra

Battiston descobriu a existência desse louva-a-deus pescador quando um amigo conservacionista e coautor do estudo, Niyak Manjunath, lhe mandou uma foto de um louva-a-deus asiático gigante macho (Hierodula tenuidentata) comendo um peixe.

Outro conservacionista, Rajesh Puttaswamaiah, pegou o louva-a-deus no flagra enquanto “pescava” um peixe de um lago artificial no jardim de seu prédio em Karnataka, Índia.

Battiston diz que seus coautores monitoraram o lago para ver se o louva-a-deus buscaria por mais peixes. Para sua surpresa, o louva-a-deus voltava para buscar mais.

“O louva-a-deus voltou não apenas uma, mas cinco noites, como uma raposa caçando galinhas em uma fazenda”, diz Battiston.

O louva-a-deus iria até o meio do lado, usando uma flor ou folhas flutuantes como plataforma de pesca. Lá, ele esperava pacientemente até que um peixe se aproximasse da superfície, lançando suas pernas mortais na água no momento preciso para capturar seu prêmio.

O louva-a-deus conseguiu matar e comer nove peixes desse jeito, cerca de dois por dia.

Feito visual

A descoberta é surpreendente não apenas por causa da escolha de menu do louva-a-deus, mas também porque a pesca é um desafio visual para um louva-a-deus. Os olhos do louva-a-deus são feitos para capturar presas à luz do dia, mas todos os nove peixes foram pegos com pouca iluminação ou no meio da noite. Adicione a dificuldade da água, que Battiston chama de “barreira visual”, e a pesca do animal parece ainda mais impressionante.

Mas Battiston acha que sabe como o louva-a-deus detectou sua vítima.

“Os olhos de um louva-a-deus não funcionam como os nossos”, diz Battiston. “Eles veem movimento melhor do que formatos e cores. Os [peixes] têm um rabo grande que balançam como uma bandeira enquanto nadam, isso pode ter parecido, aos olhos do louva-a-deus, com um pequeno inseto correndo por aí.”

Jenny Read – uma neurocientista especializada na visão do louva-a-deus na Universidade de Newcastle que não participou do estudo – está surpresa que o louva-a-deus tenha conseguido ver o que estava fazendo.

“Não imaginaria que um peixe dentro da água, à noite, teria contraste o bastante para atrair a atenção de um louva-a-deus e desencadear um ataque”, diz ela.

Esfaqueamento inteligente?

As visitas repetidas para pesca também podem indicar uma habilidade de aprendizado nunca antes notada nos louva-a-deus, sugerem os autores. O louva-a-deus pode ter lembrado das presas fáceis de capturar no lago e usado essa informação para voltar à noite.

É impossível saber quais foram as motivações do louva-a-deus, diz Gavin Svenson, um entomólogo no Cleveland Museum of Natural History que não estava envolvido no estudo. No entanto, ele não eliminaria a possibilidade de um processo cognitivo sofisticado.

“Acredita-se que insetos sejam organismos simples. Na realidade, são capazes de comportamentos incrivelmente complexos”, diz Svenson.

No entanto, Frederick Prete, um neurobiólogo e especialista em louva-a-deus da Universidade Northeastern Illinois que não estava envolvido no estudo, não está convencido de que o louva-a-deus tenha “aprendido” a caçar, ou que reconhecer peixes como presas seja incomum.

“Pequenos [vertebrados] são uma parte normal do que eles caçam, desde que a presa se encaixe nos critérios visuais”, diz Prete.

No mínimo, é seguro incluir louva-a-deus entre outros animais terrestres que surpreendentemente aprenderam a pescar – como morcegos ou aranhas.

Mas como esse é um comportamento de um único louva-a-deus, não se sabe o quão comum é o comportamento. Svenson e Read concordam que seja importante agora ver se outros louva-a-deus pescam, no laboratório ou na natureza.

Para Svenson, está claro que esses predadores elegantes podem ter mais cartas na manga do que acreditamos. “Acho que só estamos começando a aprender sobre eles.”

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