Animais

Como os hipopótamos de Pablo Escobar podem ajudar o ecossistema colombiano?

Cientistas acreditam que os animais podem ajudar a preencher o lugar de uma megafauna há muito extinta na Colômbia, enquanto outros argumentam que eles devem partir. Wednesday, September 26, 2018

Por Christie Wilcox
Os hipopótamos de estimação do Escobar foram abandonados quando seu zoológico particular fechou, prosperando nos anos após a sua morte.

QUANDO O NOTÓRIO barão da droga Pablo Escobar foi morto, em 1993, o governo colombiano assumiu o controle de seus imóveis luxuosos no noroeste da Colômbia, incluindo seu zoológico particular. A maioria dos animais foi enviada embora, mas os quatro hipopótamos, aos quais Escobar era particularmente apegado, foram abandonados em um lago. Agora, há dúzias deles.

Por mais de uma década, o governo colombiano vem ponderando sobre a melhor maneira de frear a população crescente, estratégia amplamente apoiada por especialistas em conservação. Mas nem todos concordam com a ideia. Sem evidências concretas de que os animais estejam causando danos, alguns ecologistas argumentam que não há razão para abatê-los ou realocá-los. Na verdade, os hipopótamos poderiam preencher o espaço de espécies levadas à extinção pelo ser humano há milhares de anos, uma ideia conhecida como rewilding [ou renaturalização].

Os quatro hipopótamos originais geraram um bando com diversas dezenas.

Quando os hipopótamos foram deixados para trás, eles acidentalmente deram início a um experimento de renaturalização que, agora, já vem acontecendo há 25 anos. Os primeiros resultados da experiência começaram a ser revelados e, assim como os grandes animais, estão causando grandes debates.

Desconhecidos conhecidos

Os hipopótamos escaparam da antiga fazenda de Escobar e se deslocaram para o principal rio da Colômbia, o Magdalena. Espalhados em uma área crescente, ninguém sabe ao certo quantos animais existem, mas estimativas oscilam em uma população total de 40 a 60 animais, diz Jonathan Shurin, ecologista da Universidade da Califórnia em San Diego que estuda os animais. Todos os anos, nascem muitos filhotes, mas não se sabe quantos chegam à idade adulta.

Os hipopótamos representam um grande problema para o governo. David Echeverri, pesquisador da agência ambiental do governo colombiano Cornare e responsável pelo manejo dos animais, diz não ter dúvidas de que eles ajam como uma espécie invasora. Se deixados sem controle, eles deslocarão animais endêmicos, como lontras e peixes-boi, ele diz. Eles também representam uma ameaça para os habitantes locais, já que podem ser territoriais e agressivos, apesar de ferimentos graves ou mortes ainda não terem ocorrido.

Após o abate de um dos hipopótamos em 2009, o clamor público foi rápido, acabando com qualquer plano de sacrificá-los. Em vez disso, o governo vem investigando maneiras de esterilizar os bichos ou realocá-los da natureza para cativeiros, diz Echeverri. No entanto, os hipopótamos podem pesar mais de mil quilos e não gostam de serem manuseados por humanos, tornando seu deslocamento e castração perigosos, difíceis e onerosos. Um jovem hipopótamo foi realocado com sucesso para um zoológico colombiano no início de setembro, mas a operação custou 15 milhões de pesos, ou aproximadamente 5 mil dólares.

Para cientistas e conservacionistas, a principal questão ainda é como os hipopótamos impactam o ambiente. Os animais são estrangeiros e, em seus habitats naturais, podem causar impactos profundos em seus meios. Como eles se alimentam em terra e excretam seus dejetos na água, eles transferem nutrientes de ambientes terrestres para ambientes aquáticos. E, ao alteraram a composição química da água, eles podem tornar os peixes mais vulneráveis a predadores. O simples ato de mover seus enormes corpos por águas lodosas pode criar canais para o escoamento da água que alterarão a estrutura dos mangues.

Na verdade, eles afetam a ecologia local de forma tão drástica que são considerados “engenheiros do ecossistema.” E embora isso os torne membros cruciais das comunidades africanas, também significa que eles podem causar grandes impactos nos habitats que forem introduzidos.

Impactos

Para melhor compreender os impactos ambientais do animal, Shurin juntou-se a Nelson Aranguren-Riaño, da Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia, para um projeto custeado pela National Geographic Society. Os dois compararam lagos artificiais habitados pelos hipopótamos com locais não frequentados por eles, observando desde a diversidade ecológica da área aos seus micróbios e produtividade.

O projeto encontrou diferenças sutis, mas perceptíveis. Os hipopótamos estão fertilizando os lagos que frequentam com suas fezes, por exemplo, o que é geralmente visto como algo negativo para o ambiente, uma vez que pode levar à proliferação de algas tóxicas e até mesmo extinções (algo que os hipopótamos já causaram em bacias hidrográficas impactadas pelo homem na África).

Hipopótamos podem chegar a pesar duas toneladas e são notoriamente agressivos.

Mas Shurin destaca que as diferenças são muito sutis. “Mensuráveis, mas não drásticas”, ele diz. “Não foi como ir de um lago totalmente limpo de água cristalina para um lago super verde; foi como ir de um lago super verde para um lago ainda mais verde”. Além disso, alguns cientistas já sugeriram que o influxo de nutrientes e até mesmo a morte de peixes devido aos hipopótamos são na verdade uma característica, e não uma falha, de sua presença. Pesquisadores sugerem que a adição de nutrientes ou de águas com baixo nível de oxigênio pode influenciar de forma sutil quais espécies dominam as comunidades aquáticas, ou talvez até aumentar a diversidade total de espécies ao criar habitats variáveis em um mesmo rio. Mesmo grandes perecimentos de peixes podem ter servido como alimento para necrófagos.

Jens-Christian Svenning, biólogo da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, não acha que as pessoas devam supor o pior. Em uma carta no ano passado para o periódico Perspectives in Ecology and Conservation, ele e um colega argumentaram que os hipopótamos de Escobar são uma entre diversas espécies introduzidas na América do Sul que podem oferecer “serviços ao ecossistema”, antes prestados por grandes herbívoros já extintos.

No caso dos hipopótamos, tais serviços podem incluir a transferência de nutrientes da terra para a água, a alteração das estruturas dos mangues e o controle de gramíneas (ao comê-las).

A América do Sul perdeu dezenas de herbívoros gigantes nos últimos 20 mil anos, incluindo os toxodontes, animais parecidos com os hipopótamos e que podem ou não terem sido semiaquáticos. “Os hipopótamos podem talvez contribuir em parte com a restauração desses efeitos, beneficiando a biodiversidade nativa em geral” ele diz. Ele deixaria os hipopótamos em paz por enquanto, monitorando os animais para garantir que não se tornem um problema.

Shurin, no entanto, não está convencido de que os animais estejam preenchendo um nicho desocupado por uma megafauna extinta. “É certo que haviam muitos outros animais grandes, mas nenhum deles era exatamente como o hipopótamo”.

Sobrevivência

Para Arian Wallach, ecologista da Universidade de Tecnologia de Sidney, na Austrália, saber se eles podem preencher ou não um nicho perdido não é a questão. Ela enfatiza que os hipopótamos são considerados vulneráveis à extinção, e considera a existência de uma população refugiada fora da África uma vantagem. “O fato de haver hipopótamos selvagens na América do Sul é uma história incrível de sobrevivência, de realização, de inovação” ela diz.

Wallach não está sozinha em seus sentimentos positivos. Os animais também têm muitos fãs. “Há uma parcela local que vê valor neles e quer que eles fiquem” explica Shurin. “O carisma dos hipopótamos e o fato de serem celebridades cria uma situação bastante complexa” complementa Echeverri.

Eles também atraem turistas e dinheiro estrangeiro, o que pode ajudar a neutralizar algumas das preocupações com os animais. Aproximadamente 50 mil turistas visitam a Hacienda Napoles todos os anos, conforme algumas estimativas, embora nem todos sejam atraídos pelos hipopótamos, é claro.

Por enquanto, sem planos imediatos para a realocação ou esterilização de todos os animais, os hipopótamos continuarão a se virarem sozinhos. Apenas o tempo dirá se os “hipopótamos da cocaína” da Colômbia se tornarão uma exposição fixa na paisagem, ou um experimento que não deu certo.

Continuar a Ler