Animais

Considerada extinta, rã de chifre peculiar ressurge no Equador

O estranho anfíbio, que incuba ovos nas costas, despareceu há mais de uma década antes de ser redescoberto. Sábado, 22 Dezembro

Por Jennifer S. Holland

DESAPARECIDA HÁ MAIS de uma década, a enigmática perereca-marsupial-de-chifre ameaçada de extinção ressurgiu em uma floresta do Equador, para o delírio dos biólogos.

A aparência dessa rã é impressionante: ela tem uma projeção na pele semelhante a um chifre em cima dos olhos e íris dos olhos douradas. Mas esse anfíbio noturno arborícola é mais conhecido pela forma bizarra como se reproduz, que lembra a de um canguru. Os ovos se desenvolvem em uma bolsa nas costas da mãe e eclodem como pequenas rãs totalmente formadas em vez de girinos

Uma equipe de biólogos descobriu essa rã ao explorar uma parte remota da região de Chocó no oeste do Equador, nas proximidades da Reserva Ecológica Cotacachi-Cayapas. Os biólogos, do grupo de conservação e ecoturismo Tropical Herping, ouviram gritos de anfíbios que não reconheceram e direcionaram as lanternas para as folhas de palmeiras.

Quando finalmente se chegou ao causador daquele barulho pelo brilho dos olhos e se percebeu que era a Gastrotheca cornuta, a perereca-marsupial-de-chifre, “ficamos tão empolgados que começamos a pular sem parar”, contou Sebastian Di Domenico, membro da equipe. Foi possível coletar quatro indivíduos, inclusive uma fêmea grávida, sugerindo uma população estável em um raro fragmento de floresta saudável.

O Equador é um local importante para a biodiversidade dos anfíbios. Ao menos 589 espécies vivem dentro de suas fronteiras (com relatos de novas descobertas a cada ano) e 45 por cento delas são endêmicas, o que significa que não são encontradas em mais nenhum lugar do mundo.

Ainda assim, esses animais estão em risco porque o país possui o maior índice de desmatamento da América do Sul, perdendo aproximadamente dois por cento de floresta ao ano (no sul, a perda é de quase três por cento), segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. O Equador agora é o segundo maior exportador de óleo de palma (dendê) da América Latina e ações comerciais como a agricultura, rodovias, lavouras de palmeira do dendê, cacau e banana e operações de mineração e perfuração estão expandindo.

“Encontrar uma rã rara ou considerada extinta como a G. cornuta foi uma grata surpresa”, afirma Luis Coloma, diretor do Centro Jambatu, uma organização de pesquisa e conservação de anfíbios localizada em Quito. Ele destaca que pelo menos cinco outras espécies de pererecas-marsupiais do Equador “não são avistadas há mais de três décadas”.

“Elas são sobreviventes das ameaças relativamente novas e altamente perigosas das mudanças climáticas e de patógenos como o fungo mortal quitrídio, além das ameaças tradicionais como a perda do habitat”, afirma. Mas sua sobrevivência, acrescenta ele, está longe de estar garantida.

Medidas de proteção

O Equador possui um sistema relativamente sólido de reservas federais que teoricamente protege do desmatamento e desenvolvimento pelo menos 20 por cento de sua área terrestre. Contudo conservacionistas afirmam que a fiscalização é escassa e a exploração da madeira persiste freneticamente dentro dos limites dos parques. Em resposta, um número limitado de organizações que trabalham em Chocó agora está comprando terras nas proximidades dos limites das reservas, replantando áreas derrubadas e trazendo o ecoturismo para ajudar a pagar a conta.

Embora não seja uma solução completa por si mesma, pois a aquisição de terras é normalmente pequena, “é uma forma eficaz de eliminar deficiências e criar uma proteção contra o desenvolvimento”, afirma Martin Schaefer, diretor da Fundação Jocotoco, que, até agora, comprou quase 21,5 mil hectares, incluindo o lar imediato da G. cornuta. Qualquer um pode doar: US$ 200 compram aproximadamente 0,40 hectare, valor equiparado pela fundação.

É claro que nem todos os proprietários locais estão preocupados com o declínio de anfíbios ou florestas em desaparecimento. “Alguns estão fazendo apenas o que podem para sobreviver, o que pode significar vender a terra para uma madeireira”, conta Di Domenico. No entanto alguns estão dispostos a se unir a essa ação de conservação. “Vi em primeira mão que, quando as comunidades locais participam da proteção de uma espécie, as pessoas se identificam e estabelecem uma ligação com esses animais. Elas passam a se importar”, prossegue.

Quando lideramos excursões de ecoturismo por essas paisagens, “tentamos transmitir a mensagem”, conta ele, “de que a biodiversidade tem um valor que as pessoas podem explorar de uma maneira positiva, sem destruí-la”.

Oficialmente conhecida como a ecorregião Tumbes-Chocó-Magdalena, contornada a leste pelos Andes, estendendo-se pela Colômbia até o Panamá e fazendo fronteira, descendo um pouco, com o noroeste do Peru, a área onde fica o lar da G. cornuta contém as florestas equatoriais de planície remanescentes mais intocadas do Equador—algumas das mais ameaçadas do mundo—e ostenta raros predadores do topo da cadeia alimentar, como jaguares. “Chocó tem quase tanta diversidade quanto a Amazônia, porém é mal explorada e está desaparecendo rapidamente”, lamenta Di Domenico.

E é por isso que alguns biólogos querem torná-la uma prioridade de conservação, afirma Martin Schaefer, da Jocotoco, “se quisermos salvar Chocó e seus animais silvestres, incluindo essa rara rã, a hora é agora”.

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