Tempestades solares podem atrapalhar a navegação das baleias e fazê-las encalhar

O sol eventualmente libera rajadas de radiação eletromagnética, o que pode desorientar as baleias, segundo novo estudo.quinta-feira, 5 de março de 2020

As baleias-cinzentas migram por mais de 16 mil quilômetros ao longo da costa oeste da América do Norte, alcançando distâncias maiores do que quase todos os outros mamíferos. No verão, seguem para o norte, geralmente até as Ilhas Aleutas do Alasca, e no inverno, viajam para o sul para darem à luz na costa do México.

Uma nova pesquisa sugere que tempestades solares podem interferir temporariamente em sua capacidade de navegação por esses longos trajetos, o que talvez as leve a encalhar. Esse estudo levanta a possibilidade de que as baleias-cinzentas talvez usem os campos magnéticos da Terra para navegar. Até o momento, o que se sabe com certeza é que utilizam a visão como forma de orientação.

Tempestades solares — eventos no sol em que grandes quantidades de partículas de alta energia são ejetadas — bombardeiam a Terra com níveis extraordinariamente altos de radiação eletromagnética, podendo interferir nas tecnologias humanas, como satélites e redes de energia. Acredita-se que a maioria dos animais, inclusive os humanos, não é significativamente afetada por tempestades solares, principalmente porque o campo magnético da Terra protege o planeta de grande parte dessa radiação.

A descoberta de que as tempestades solares podem contribuir para que as baleias encalhem é descrita em um estudo publicado em 24 de fevereiro na revista científica Current Biology, acrescentando outro fator à lista de fenômenos ligados às baleias encalhadas. Atualmente, a recorrência de baleias-cinzentas encalhadas aumentou exponencialmente, o que pode ocorrer devido à fome resultante da menor abundância de presas. Mais de 180 animais ficaram encalhados desde janeiro de 2019, um número bastante acima da média.

Para entender melhor quais fatores podem estar associados aos encalhes, Jesse Granger, ecologista sensorial da Universidade Duke, e seus colegas examinaram os registros de baleias-cinzentas que ficaram encalhadas vivas desde 1985 na costa oeste da América do Norte. Esses encalhes foram escolhidos com o propósito de rechaçar outras hipóteses — os animais não pareciam estar doentes ou feridos ao chegarem à praia. Então, por que haviam encalhado?

Os pesquisadores descobriram que em dias com altos níveis de ruído de radiofrequência, causados pelas tempestades solares, a probabilidade de ocorrer encalhes de baleias era quatro vezes maior.

Sinais de interferência

Para alguns outros animais, como o pisco-de-peito-ruivo, a pesquisa mostrou que o ruído de radiofrequência em banda larga pode impedi-los temporariamente de usar seu sentido geomagnético. Essa habilidade permite que os animais detectem as variações no campo magnético da Terra, que variam de acordo com a localização, permitindo que saibam onde estão e para onde vão.

Os cientistas supõem que seja isso o que está acontecendo com as baleias, segundo Granger, que está atualmente cursando doutorado.

“Embora esse estudo não apresente evidências conclusivas sobre a magnetorecepção dessas baleias, ele traça um caminho para entendê-la, pois elimina algumas outras possíveis causas de encalhes, como capturas acessórias, ataques a navios ou doenças óbvias”, explica Ellen Coombs, pesquisadora da University College London, que não participou do estudo. “Além disso, são analisados em detalhes os parâmetros geofísicos que são afetados pelas tempestades solares e o efeito que produz na navegação das baleias”.

Sabemos com certeza que outros animais marinhos — como tartarugas-marinhas e salmões — migram por longas distâncias debaixo d’água por meio da detecção desses campos magnéticos, acrescenta Ken Lohmann, da Universidade da Carolina do Norte. Esse sentido também foi constatado em animais tão diversos quanto as abelhas, aves, formigas, cupins e, provavelmente, alguns anfíbios. (Não se sabe se as tempestades solares afetam a capacidade de navegação desses animais).

Os cientistas provaram que alguns animais usam o sentido magnético ao colocá-los dentro das bobinas de grandes ímãs — mas as baleias são grandes demais para esse tipo de experimento.

As baleias-cinzentas passam grande parte do tempo submersas, sem nenhum tipo de indicação visual. Por essa razão, devem usar algum sentido além dos olhos, diz Coombs.

Atordoadas e confusas

No estudo, os cientistas analisaram outros fatores, como ciclos climáticos e variação sazonal, que não demonstraram nenhum impacto sobre os encalhes. Também examinaram quanto o campo magnético da Terra oscilava, uma medida chamada índice AP, para entender se havia alguma relação com os encalhes. Mas não havia. Esse resultado a princípio chocou Granger, porque ela esperava que variações locais no campo magnético pudessem deixar as baleias confusas sobre sua localização, o que poderia levá-las para terra firme.

A teoria era “de que a baleia acreditava estar na Rua Quatro, mas na verdade estava na Rua Seis”, complementa Granger. Mas esse não parece ser o caso. Em vez disso, os animais talvez fiquem temporariamente “cegos”, deixando-os desorientados e encalhados, ela conclui.

Acredita-se que os pássaros usem proteínas especiais em suas retinas, denominadas criptocromos, para detectar o campo magnético da Terra. Além disso, é possível que o ruído de radiofrequência interfira nesse processo, que depende do cérebro para distinguir entre variações eletroquímicas bastante sutis. No entanto, existem outras maneiras de detectar o magnetismo, incluindo, por exemplo, o uso de pequenos pedaços de um mineral de ferro chamado magnetita, encontrado no sistema nervoso de alguns animais.

Granger reitera que existem muitos outros fatores ligados a encalhes, como doenças, fome, colisões de navios e tecnologias humanas, tais como o sonar naval e armas sísmicas utilizadas na exploração de petróleo.

“É muito provável que não exista uma causa única para os encalhes, e tampouco há como impedir que todos aconteçam”. Lohmann diz: “Mas, sem dúvidas, é de grande utilidade que os conservacionistas conheçam os fatores que tornam a ocorrência de encalhes mais propensa”.

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