Em busca de um lar definitivo para tarântulas contrabandeadas

Quando autoridades responsáveis pela proteção da vida selvagem confiscam animais contrabandeados, o próximo passo é descobrir o que fazer com eles.

Monday, September 21, 2020,
Por Jason Bittel
Caranguejeiras-rosa-salmão-brasileiras, como a desta foto, estavam entre as 250 tarântulas contrabandeadas que foram interceptadas pela polícia ...

Caranguejeiras-rosa-salmão-brasileiras, como a desta foto, estavam entre as 250 tarântulas contrabandeadas que foram interceptadas pela polícia em uma apreensão feita em dezembro de 2018, em Seattle, Estados Unidos. Animais apreendidos precisam ser direcionados a lares permanentes, mas muitos permanecem no esquecimento por meses ou anos.

Foto de Radosław Ziemniewicz, Getty Images

É UM NOVO dia para uma aranha gigante e peluda chamada Lil’ Kim.

Ela e outros 249 filhotes de tarântula não tiveram muita sorte. Os filhotes de aranha foram confiscados por fiscais do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos como parte de uma apreensão relacionada ao comércio de animais selvagens no Aeroporto de Seattle–Tacoma, no estado de Washington, em dezembro de 2018. Os filhotes eram tão pequenos que foram embalados em copinhos de plástico e embalagens de filme fotográfico de 35 milímetros.

Algo na documentação chamou a atenção de Danielle Abernethy, fiscal supervisora do Serviço de Pesca e Vida Selvagem, cujo território de atuação compreende os estados de Washington, Oregon e Idaho. “Às vezes percebemos o contrabando por meio da documentação, em que alguma informação está muito parecida, mas na verdade não é o que de fato está sendo transportado”, explica ela.

Depois de um uma pesquisa demorada, os fiscais determinaram que a remessa continha caranguejeiras-gigantes-de-patas-brancas e caranguejeiras-rosa-salmão-brasileiras. Isso foi um sinal, diz Abernethy, porque o Brasil não permite a exportação de suas tarântulas nativas.

O comércio ilegal internacional de animais selvagens — desde tarântulas para o comércio de animais de estimação até chifres de rinoceronte para a medicina tradicional e todos os outros produtos imagináveis provenientes de espécies e animais silvestres — chega à marca de bilhões de dólares a cada ano. Entre junho de 2018 e junho de 2019, por exemplo, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem apreendeu mais de nove mil aracnídeos, insetos e outros artrópodes, de acordo com os dados coletados pela National Geographic.

A agência não quis comentar sobre a procedência ou destino final dos filhotes de tarântula, e não deu detalhes sobre os supostos autores nem sobre o andamento da investigação. Mas muitas remessas ilegais de animais invertebrados enviadas para os Estados Unidos seguem uma rota tortuosa por países europeus onde podem ser mais brandas as restrições de importação e trânsito com base no país de origem.

Quando as autoridades tomam posse de animais que supostamente foram comercializados ilegalmente, eles passam a ser considerados uma prova de delito em um processo criminal. Após a conclusão dos processos jurídicos, são adotadas medidas para realocar os animais para um lugar onde possam receber cuidados permanentes, embora em algumas circunstâncias eles possam ser devolvidos ao país de origem, soltos na natureza ou até mesmo sacrificados.

Essa indefinição pode demorar — 20 meses no caso de Lil’ Kim — e ser estressante para os animais.

Um local específico para insetos

O Serviço de Pesca e Vida Selvagem consegue abrigar e cuidar temporariamente dos animais confiscados, mas não possui capacidade suficiente para hospedar 250 tarântulas a longo prazo, além dos milhares de outros animais apreendidos a cada ano. “Felizmente, temos muitos parceiros incríveis”, conta Abernethy.

“Não é o tipo de notícia que você deseja receber, porque significa que os animais estão sendo traficados”, diz Erin Sullivan, um desses parceiros e gerente de cuidados animais do Zoológico Woodland Park, em Seattle, estado de Washington. “Mas também é um pouco emocionante, pois você pensa: ‘O que será que vem por aí?’”

Nos últimos 20 anos, o zoológico — a apenas 20 minutos de carro do Aeroporto de Seattle-Tacoma — manteve o que Sullivan chama de “local específico para insetos”, incluindo o espaço e a equipe especializada em invertebrados.

Poucas horas depois do confisco no aeroporto, os filhotes de aranha dessa espécie brasileira foram acomodados no zoológico, cada um em seu minúsculo espaço com água e comida — filhotes de grilo, filhotes de barata e pequenos vermes.

Cuidar de animais confiscados é como realizar uma triagem. É preciso acomodá-los, alimentá-los e tentar simular uma vida normal. Para 250 filhotes de aranha menores do que um polegar, essa tarefa não é particularmente difícil, diz Sullivan — mas as tarântulas não ficam nessa fase da vida para sempre.

Quando adultas, as caranguejeiras-gigantes-de-patas-brancas e caranguejeiras-rosa-salmão-brasileiras podem chegar ao tamanho de um prato de sobremesa. Embora as tarântulas adultas peludas e com presas pareçam intimidantes, Sullivan afirma que são delicadas. “O abdômen da tarântula é como um balão cheio de água”, ela explica. Se deixar uma tarântula cair ou segurá-la de forma errada, ela pode “explodir”.

Tarântulas são criaturas solitárias que podem viver de 15 a 20 anos e, quando adultas, precisam ter casas individuais, do tamanho de um aquário de peixes. O Zoológico Woodland Park concordou em adotar 37 filhotes, mas abrigar todos os 250 estava fora de cogitação.

Lil’ Kim foi uma das duas caranguejeiras-de-pata-branca interceptadas em uma remessa contrabandeada para comércio de animais de estimação. Ela passou 20 meses no Zoológico Woodland Park de Seattle antes de encontrar um “lar definitivo” no Zoológico de Insetos da Universidade de Purdue.

Foto de Gwen Pearson

Esforço conjunto

Como os pequeninos filhotes tinham praticamente o mesmo tamanho, é provável que não tenham sido capturados na natureza, diz Sullivan. Provavelmente tenham sido incubados no laboratório ou no porão de alguém. Isso por si só não seria um impedimento para soltá-los na natureza, mas as tarântulas estão adaptadas a “microcosmos bioclimáticos muito específicos”, explica Sullivan, o que tornaria extremamente difícil devolvê-las ao tipo de habitat ideal.

Além de suas atribuições no Zoológico Woodland Park, Sullivan é presidente do Grupo Consultivo Taxonômico de Invertebrados Terrestres, formado por membros da Associação de Zoológicos e Aquários. Por meio dessa rede, ela identificou 10 organizações nos Estados Unidos com capacidade e experiência para dar um bom lar às tarântulas.

No primeiro semestre de 2019, com a aprovação do Serviço de Pesca e Vida Selvagem, Sullivan começou a colocar as aranhas em fase de crescimento em recipientes de plástico com espaço suficiente para esticarem as pernas, mas não tão grande a ponto de haver a possibilidade de se machucarem com um tranco durante o transporte. Em seguida, ela despachou os pacotes de animais felpudos para seus próximos destinos, incluindo o Museu de História Natural de Los Angeles; o Zoológico Brevard, em Melbourne, Flórida; o Parque Biológico de Albuquerque, no Novo México; e o Jardim Botânico e Zoológico de Cincinnati, em Ohio.

“Fazemos de tudo para que o deslocamento seja o menos estressante possível”, diz Sullivan, e o serviço de entrega expressa que chega no dia seguinte reduz o tempo de viagem.

Exposição corporal

O Zoológico de Insetos da Universidade de Purdue, em West Lafayette, Indiana, recebeu quatro caranguejeiras-rosa-salmão-brasileiras do tamanho de uma moeda no segundo semestre de 2019 e um par de caranguejeiras-gigantes-de-patas-brancas do tamanho de um punho no início de agosto de 2020.

Mesmo quando se toma cuidado durante o transporte, o processo pode ser traumático, e para uma delas — a caranguejeira-gigante-de-patas-brancas que ficaria conhecida como Lil’ Kim — ficou particularmente difícil. Quando chegou em Indiana, ela havia arrancado quase todos os pelos de seu abdômen, o que acabou revelando um “traseiro calvo de tarântula”, como tuitou Gwen Pearson, coordenadora de divulgação do Departamento de Entomologia da Universidade de Purdue e gerente do zoológico de insetos.

Os pelos farpados no traseiro da tarântula, que causam irritação ao entrar em contato com a pele ou com os olhos, ajudam a repelir predadores. Mas o estresse também pode fazer a tarântula perder os pelos, um comportamento semelhante ao de um papagaio que arranca sua plumagem.

Foi o que Lil’ Kim fez durante sua viagem de Seattle a Purdue. “Sinceramente, eu nunca tinha visto nada tão grave assim. Ela estava tão infeliz”, diz Pearson.

Em relação a como a aranha ganhou seu nome memorável, Pearson explica que o zoológico já tinha uma caranguejeira-gigante-de-patas-brancas fêmea adulta batizada em homenagem a Kim Kardashian. Então, quando apareceu a tarântula menorzinha, Pearson disse que fazia sentido chamá-la de Lil’ Kim, que é uma rapper norte-americana, cujo nome significa Pequena Kim.

Em busca de um propósito

Exibir tarântulas interceptadas por autoridades e contar suas histórias (principalmente quando têm um toque pessoal) pode ajudar na conscientização sobre o comércio ilegal e evitar que outros animais sejam roubados da natureza.

“Essas tarântulas são incrivelmente úteis para ensinar as pessoas”, diz Pearson. Mesmo que os visitantes não tenham permissão para manuseá-las (suas presas “poderiam atravessar um dedo”), vê-las de perto pode ajudar as pessoas a apreciar a beleza das aranhas gigantes.

Em alguns casos, as tarântulas salvas fornecem informações de diversidade genética para aprimorar os programas de reprodução em cativeiro. Assim como os zoológicos gerenciam a genética de leões e tigres em cativeiro, Pearson diz que cada aranha recebe um código que é inserido em um livro genealógico de tarântulas para determinar quais cruzamentos futuros seriam benéficos ou não. “Será preciso tomar cuidado para não fazer acasalamento com seus irmãos que foram adotados por outros zoológicos”, explica Pearson.

Enquanto espécies como a caranguejeira-gigante-de-patas-brancas são comparativamente comuns em cativeiro, muitas outras são raras, como a Poecilotheria metallica, uma tarântula de cor azul-cobalto nativa da Índia. Isso faz com que qualquer animal confiscado seja ainda mais valioso para a manutenção de populações cativas saudáveis.

 “Os animais selvagens estão sob forte pressão, mas é um fato muito pouco conhecido que os aracnídeos, e principalmente as tarântulas, enfrentam muita pressão no momento em que são capturadas”, conta Paige Howorth, Diretora da Família McKinney de Cuidado e Conservação de Invertebrados no Zoológico de San Diego, na Califórnia. Seu zoológico não recebeu nenhuma das 250 aranhas da apreensão no aeroporto de Seattle–Tacoma, mas cuida de outras tarântulas confiscadas anteriormente.

“É uma oportunidade dupla ensinar sobre a importância das tarântulas como predadoras do ecossistema e destacar sua perda de habitat e a captura em excesso”, diz Howorth. Também é uma oportunidade de mostrar aos visitantes “que podemos fazer a diferença na conservação da vida selvagem se tivermos consciência de tudo isso”.

Todos os especialistas entrevistados para esta matéria enfatizaram a importância de pesquisar antes de comprar um animal para ser criado como bicho de estimação. Os proprietários não somente devem entender o que é necessário para cuidar do animal, como também devem estar cientes se o comércio de uma espécie em particular é sustentável e legalizado.

Se os compradores não tiverem certeza, Erin Sullivan recomenda entrar em contato com um zoológico local. “Estamos sempre dispostos a ajudar”, diz ela.

Lil’ Kim parece ter superado suas adversidades. Apenas algumas semanas depois de chegar a Indiana com o traseiro calvo, a tarântula trocou seu exoesqueleto e ostentou um traseiro peludo, novinho em folha, conta Pearson.

O que é uma boa notícia porque essa aranha tem um trabalho importante a fazer.

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