Aranhas podem comer cobras? Sim – e em todo o planeta

Diferentemente das tarântulas tropicais, as viúvas-negras norte-americanas têm um gosto particular por répteis. Isso é o que revelam os dados de uma análise que abrange seis continentes.

Publicado 30 de jun. de 2021 06:00 BRT
Wandering Spider

Uma aranha grande ataca uma cobra na floresta amazônica do Peru.

Foto de Anton Sorokin / Alamy Stock Photo

Uma aranha consegue matar e comer uma cobra?

Essa ideia pode até parecer imaginação de criança, mas é o assunto de um novo estudo publicado no periódico Journal of Arachnology. E a resposta para essa pergunta é um grande sim: aranhas conseguem matar e comer cobras, surpreendendo até mesmo os cientistas que conduziram o estudo.

“Fiquei surpreso com o fato de que essas aranhas comedoras de cobras podem ser encontradas em todos os continentes (exceto na Antártica)”, disse Martin Nyffeler, especialista em aranhas da Universidade de Basileia, na Suíça, que liderou o estudo. “A quantidade de grupos diferentes de aranhas que conseguem matar e comer cobras também nos surpreendeu, assim como a variedade de espécies de cobras que podem ser mortas por esses aracnídeos.”

“Isso tudo é inédito”, afirmou Nyffeler, por e-mail.

Nyffeler e J. Whitfield Gibbons, coautor do estudo e especialista em cobras, da Universidade da Geórgia, pesquisaram toda a literatura científica a que tiveram acesso, bem como sites de mídia social, notícias e até mesmo edições antigas da National Geographic, e observaram mais de 300 casos de aranhas que mataram cobras. Os dados da pesquisa contêm mais de 40 espécies de aranhas e mais de 90 espécies de cobras.

Uma viúva-negra ataca uma cobra no Parque Nacional New River Gorge, na Virgínia Ocidental.

Foto de Julia Statler

Talvez fosse mais plausível imaginar aranhas maiores, como as tarântulas, enfrentando um réptil. Mas não são elas as campeãs quando o assunto é devorar cobras. Em vez disso, uma família de aranhas conhecida como teridídeos, que inclui viúvas-negras e seus parentes, são responsáveis pela captura da maioria das cobras nos casos observados. O que é ainda mais curioso é que a grande maioria desses relatos não ocorreu nos trópicos, mas em territórios de toda a América do Norte.

Nyffeler acrescenta que a pesquisa amplia significativamente o conhecimento sobre os hábitos predatórios das aranhas, que pode desempenhar um papel mais importante no equilíbrio do ecossistema do que se pensava.

“Juntas, todas as aranhas do mundo pesariam cerca de 25 milhões de toneladas e matariam cerca de 400 a 800 milhões de toneladas de presas por ano”, diz o cientista. “Para entender completamente o papel das aranhas no equilíbrio da natureza, é necessário entender todo o espectro de seus hábitos alimentares.”

Como as aranhas atacam

Em média, as cobras caçadas pelas aranhas são pequenas, tendo geralmente cerca de 25 centímetros de comprimento. Mas mesmo essas pequenas serpentes são muito maiores do que os aracnídeos, que medem aproximadamente 1,27 centímetro.

Na maioria dos casos (como é o caso dos teridídeos), essas pequeninas aranhas constroem teias extremamente resistentes, que podem se estender até o solo para prender cobras desavisadas. Tendo capturado o réptil, a aranha ataca com sua picada venenosa para paralisar a vítima, envolve a cobra em seda e puxa seu jantar para cima. As enzimas digestivas na picada da aranha liquefazem as partes moles do corpo da cobra, assim como acontece com as moscas. Então, a aranha lentamente lambe as entranhas da cobra, que podem ainda conter algumas refeições de dias ou até semanas atrás.

“Apesar de sempre falar sobre a resistência da seda de aranha, creio que ainda subestimava este incrível material”, afirmou Sebastian Echeverri, aracnólogo e editor da revista científica Arachnofiles, também por e-mail. E acrescentou: “Pensava que as cobras conseguissem destruir a estrutura de seda e se livrar da armadilha das aranhas. O corpo das cobras é basicamente composto de músculos abdominais duros como uma rocha!”

Cerca de 30% das cobras também eram venenosas, como as cobras-corais, as cobras-marrons australianas, as cascavéis e as jararacas neotropicais. Mas de que serve o veneno se o inimigo é pequeno demais para ser picado?

“Não é fácil para uma cascavel se defender de uma aranha usando seu veneno”, afirma Emily Taylor, bióloga especialista em cobras e diretora do Laboratório de Ecologia Fisiológica de Répteis da Universidade Politécnica Estadual da Califórnia.

Pequena, mas poderosa: aranha cheia de marra detona cobra-marrom
Apesar do feito ser impressionante, especialistas acreditam que a verdadeira causa da vitória do aracnídeo tenha sido a mais pura sorte.

Bons samaritanos

Como muitas capturas de cobras feitas por aranhas ocorreram na natureza e foram testemunhadas por pessoas comuns, os cientistas analisaram outro aspecto presente nos dados observados: a intervenção humana.

Das 319 ocorrências de embate entre aranhas e cobras, as aranhas foram vitoriosas em 87% das vezes. Em 1,5% dos incidentes, as cobras conseguiram escapar sem ajuda humana. Mas nos 11% restantes, as pessoas intervieram para salvar as serpentes.

Mesmo na Austrália, onde a maioria dos confrontos acontece entre as cobras-marrons e as aranhas-vermelhas — duas espécies letais para os humanos — houve ocasiões em que as pessoas não apenas libertaram as cobras, como também removeram as teias de aranha antes de soltá-las.

“Visto que a maioria dos humanos abomina tanto aranhas quanto cobras, é muito surpreendente para mim que existam pessoas dispostas a resgatar uma cobra”, diz Nyffeler, que também sofre de uma “fobia severa de cobras”.

Considerando essa dieta mais diversificada dos aracnídeos, o estudo também pode inspirar outras pesquisas sobre como funciona o veneno das aranhas.

“Embora saibamos como as toxinas da viúva-negra afetam o sistema nervoso dos vertebrados, ainda não entendemos bem como agem as toxinas de diversas outras famílias de aranhas”, diz o cientista.

Taylor acrescenta que o estudo é “bastante intimidador” por apresentar dois animais que metem medo em tanta gente.

“Para muitos, esse seria o pior pesadelo: oito patas contra nenhuma”, diz ela. “Mas, para mim, é o país das maravilhas.”

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