Anêmonas-do-mar às vezes se alimentam de formigas. Mas por quê?

Nova pesquisa mostra que sabemos muito pouco sobre a dieta de alguns dos animais que vivem no fundo do mar — e as complexas relações entre as teias alimentares terrestre e marinha.

Publicado 12 de jul. de 2021 16:30 BRT
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O pesquisador Christopher Wells ficou surpreso ao descobrir que essas anêmonas-emplumadas-gigantes se alimentam de formigas. “Eu realmente não esperava por isso.”

Foto de Gina Kelly / Alamy Stock Photo

Ao mergulhar ao longo da costa do noroeste do Pacífico é bastante possível que se consiga observar tapetes subaquáticos de criaturas marinhas carnívoras e incrivelmente brancas, que mais se parecem pompons. Os cientistas chamam esses animais de anêmonas-emplumadas-gigantes e, ultrapassando um metro de altura, são as maiores anêmonas-do-mar da Terra.

Embora as anêmonas-emplumadas-gigantes (Metridium farcimen) sejam grandes, fáceis de observar e absolutamente dominantes nos ecossistemas que habitam, pouco se sabe sobre elas — inclusive, de que se alimentam exatamente.

Parte da dificuldade em estudar sua dieta está no fato de que ao passo que a maioria das anêmonas-do-mar têm tentáculos longos e espessos para capturar e subjugar suas presas, elas exibem um denso conjunto de antenas minúsculas e finas — uma “indicação de que se alimentam de presas muito pequenas”, afirma Christopher Wells, ecologista marinho da Universidade de Buffalo, em Nova York. E, após a ingestão, esses pequeninos animais se transformam em pedaços ainda menores no estômago.  

Em vez de tentar classificar esse material visualmente sob um microscópio, Wells analisou o conteúdo intestinal de 16 indivíduos de Friday Harbor, no estado de Washington, com uma tecnologia conhecida como código de barras de DNA. Essa ferramenta isola fragmentos de DNA de uma amostra e então pesquisa bancos de dados existentes para encontrar alguma correspondência com espécies conhecidas.

Após concluir todas as análises, Wells começou a estudá-las. Todos os suspeitos marítimos foram confirmados — copépodes, cracas, larvas de caranguejo e animais semelhantes — criaturas minúsculas que não seriam capazes de escapar das garras lisas e venenosas das anêmonas-emplumadas-gigantes. Havia também uma quantidade curiosa de DNA de inseto, incluindo três moscas, uma abelha e um besouro. Mas as correspondências mais estranhas vieram de uma espécie conhecida como formiga-do-campo, ou Lasius pallitarsis, responsável por 98% do DNA de inseto encontrado nas vísceras das anêmonas-do-mar.

“Foi uma grande surpresa”, conta Wells, o principal autor de um estudo que anunciou, na revista científica Environmental DNA, o uso de metabarcoding de DNA em conteúdo de intestinal de anêmonas-do-mar pela primeira vez. “Eu realmente não esperava por isso.”

Enigma da formiga

As anêmonas-emplumadas são encontradas do Alasca à Califórnia e sobrevivem filtrando pequenas criaturas da coluna de água. Sua dieta consiste principalmente de animais tão pequenos quanto algumas células a tão grandes quanto uma formiga. Ao contrário de suas primas, que usam tentáculos longos para colocar pedaços de comida em suas bocas, essas anêmonas marinhas capturam pequenas presas e então as canalizam para o estômago utilizando uma série de ranhuras interligadas.

A maioria dos organismos cujo DNA foi encontrado no estudo de fato passa as primeiras fases de seu ciclo de vida como ovos flutuantes ou larvas microscópicas nadando pela água. Desta forma, faz sentido que as anêmonas marinhas se empanturrem deles. Quanto às formigas, porém, os cientistas não sabem exatamente como elas foram parar na boca de um predador subaquático. Mas eles têm uma teoria bastante convincente.

Quando as formigas dessa espécie estão prontas para se reproduzir, elas voam em grande número para encontrar parceiros. Em seguida, as fêmeas pousam e tentam iniciar suas próprias colônias. Suas histórias estão apenas começando. Mas para os machos, só resta morrer.

Embora Wells não se lembre de ter observado um número particularmente alto de formigas voadoras durante os levantamentos que fez das anêmonas-do-mar, ele diz que sempre há muitos insetos voando ao redor de Friday Harbor. Outros cientistas registraram o acasalamento ou voos nupciais das formigas-do-campo em agosto, quando as amostras de anêmonas-do-mar foram coletadas. Em tese, tudo o que os insetos teriam que fazer seria cair na água e afundar até chegarem a um bosque de plantas carnívoras. Provavelmente também não é coincidência que os outros insetos encontrados na análise de DNA também sejam voadores.

“Muitos animais aproveitam o aumento no número de formigas voando para acasalar”, explica Corrie Moreau, especialista em formigas, diretora e curadora do acervo de insetos da Universidade Cornell. “É bastante razoável imaginar que algumas dessas formigas reprodutoras sejam sopradas sobre as águas oceânicas próximas e se tornem presas de organismos marinhos.”

A anêmona-emplumada-gigante (Metridium giganteum ou Metridium farcimen) é uma grande anêmona marinha.

Foto de agefotostock / Alamy Stock Photo

No lado aquático da história, a especialista em anêmonas-do-mar Michela Mitchell afirmou que é possível, embora incomum, que insetos terrestres façam parte da refeição de predadores marinhos.

Na verdade, pesquisadores já observaram as anêmonas-do-mar de tentáculos grossos — que são mais comuns, tendem a buscar alimentos em áreas mais amplas e conseguem capturar presas maiores — se alimentando de todos os tipos de coisas, de migalhas de pão a coelhos inteiros.

“Ainda há poucas pesquisas sobre a ecologia da alimentação das anêmonas-do-mar”, afirma Mitchell, que é pesquisadora honorária do Museum of Tropical Queensland, na Austrália.

Aguardando “confirmação em campo”

Mesmo que pareça provável que as anêmonas-do-mar tenham devorado algumas formigas, até que alguém veja o comportamento em ação — o que os cientistas chamam de “confirmação em campo” — Mitchell ressalta que outras explicações precisam ser consideradas. Por exemplo, é possível que as anêmonas-do-mar tenham ingerido predadores de formigas, e não as próprias formigas.

“É como se estivéssemos em um corredor repleto de espelhos onde o conteúdo intestinal de outro animal é refletido e a teia alimentar avança, ao mesmo tempo em que se tenta identificar o tipo de alimento”, diz ela.

Gustav Paulay, coautor do estudo, afirma que é possível que ocorra esse tipo de erro considerando a natureza do metabarcoding do DNA. Mas, nesse caso, ele acha improvável.

“A maior parte da dieta das anêmonas-do-mar inclui animais do tamanho de uma formiga. Desta forma, é improvável que o cardápio delas inclua um predador grande o suficiente para conseguir comer um número suficiente de formigas a ponto de elas serem detectadas nas sequências”, argumenta Paulay, curador de Zoologia de Invertebrados do Museu de História Natural da Flórida. “A maioria dos outros alimentos são pequenos animais planctônicos que não conseguiriam se alimentar de uma formiga.”

Os pesquisadores também encontraram um aracnídeo dentro do conteúdo estomacal das anêmonas-do-mar: um tipo de ácaro oribatídeo, minúscula criatura que é terrestre na maioria das vezes, mas que também pode viver no oceano.

A questão revela uma das desvantagens do método de metabarcoding do DNA — é possível identificar a presença de uma espécie, mas não necessariamente como ela foi parar lá. Ainda assim, o estudo é outro exemplo emocionante de como essa tecnologia pode ser utilizada para revelar interações ocultas entre os animais. E à medida que os cientistas continuam a adicionar mais genomas de novas espécies aos bancos de dados, a técnica se tornará mais robusta, útil e surpreendente.

Tudo que você precisa é de uma célula em algum lugar da amostra que contenha DNA, diz Wells. Com isso, “é possível identificar até mesmo a sarda de um copépode”.

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