Perto ou longe? Cascavéis usam truque para enganar humanos

Ao alterar a frequência de seu guizo, essas cobras peçonhentas avisam os invasores quando estão próximos demais.

Publicado 28 de ago. de 2021 08:00 BRT
western diamondback rattlesnake

Cascavel-diamante-ocidental em posição de bote. Uma nova pesquisa descobriu que cascavéis mudam o ritmo de seus guizos quando uma possível ameaça se aproxima.

Foto de Karine Aigner

O som de alerta da cascavel, o som de chocalho, é um dos ruídos mais arrepiantes da natureza: se puder ouvi-lo, já está perto demais.

Contudo, de acordo com um novo estudo publicado em 19 de agosto no periódico Current Biology, essa comunicação é mais complexa do que se imaginava.

Ao analisar as vibrações de alerta da cascavel-diamante-ocidental (Crotalus atrox), cientistas constataram que o chocalhar das serpentes se mantém a frequências mais baixas de até 40 hertz, ou mais lentas, quando uma ameaça está distante. Mas quando um invasor se aproxima demais — uma distância que difere a depender da cobra individual — as cascavéis mudam abruptamente para um sinal de alerta mais rápido e de alta frequência entre 60 e 100 hertz.

Quando foi solicitado a participantes de um experimento que ouvissem e estimassem a distância de uma cascavel em uma pastagem em realidade virtual, eles acertaram com bastante precisão quando os sons dos guizos estavam mais lentos ou a baixas frequências. Ao acelerar o ritmo dos guizos, entretanto, os humanos foram levados a pensar que as cobras estavam muito mais próximas do que realmente estavam.

Quando uma cascavel balança a cauda lentamente, o ouvido humano é capaz de discernir cada som individual do guizo. No entanto, a frequências mais elevadas, os sons individuais se fundem em uma melodia contínua, que parece “completamente diferente ao ouvido humano”, afirma Boris Chagnaud, neurocientista da Universidade de Graz, na Áustria, e autor principal do novo estudo.

Além disso, devido a uma peculiaridade da percepção humana, os guizos de alta frequência soam mais altos para nós, apesar de terem basicamente a mesma amplitude ou volume, explica Chagnaud.

“Talvez essa seja outra função do guizo: confundir predadores”, observa Bree Putman, herpetóloga da Universidade Estadual da Califórnia, em San Bernardino, que não participou do estudo.

Cascavel-diamante ocidental se prepara para dar o bote.

Foto de Joel Sartore

A linguagem secreta do guizo

Mais de 35 espécies de cascavéis vivem nas Américas, entre o sul do Canadá e a Argentina. Quando ameaçadas, as cobras balançam rapidamente as pontas das caudas como castanholas biológicas, chacoalhando seções interligadas de queratina oca, a mesma substância de que são feitas as unhas e os cabelos humanos.

Embora os humanos estejam começando a entender só agora as complexidades da comunicação da cascavel, outras espécies já estão atentas ao chocalho das serpentes há muito mais tempo.

Por exemplo, os esquilos-terrestres podem usar a frequência sonora do chocalho de uma cascavel para identificar se a cobra é perigosa.

Isso é possível porque as cobras são ectotérmicas ou animais de sangue frio. “Seu desempenho depende de sua temperatura”, explica Putman. “Assim, uma cobra mais quente é mais perigosa e seu guizo é mais rápido.”

Os guizos de cascavéis também variam por outros motivos. Cascavéis prenhes ou que tiveram filhotes há pouco tempo geralmente são mais agressivas, enquanto as que estão escondidas em segurança sob uma rocha ou em um buraco têm menos tendência a recorrer ao guizo. Algumas cascavéis dificilmente usam o guizo e contam com sua camuflagem especializada para se esconderem dos perigos.

Embora Putman não tenha ficado surpresa com a codificação de informações sobre a distância nos movimentos de caudas de cobras, ela ficou intrigada com o fato de que os humanos geralmente calculavam mal a distância da serpente.

Não destinado a ouvidos humanos

As cascavéis já existiam há milhões de anos antes da migração dos humanos às Américas e, por isso, os cientistas acreditam que o guizo dos répteis evoluiu como uma forma de afastar outras ameaças. Aliás, alguns cientistas acreditam que o guizo pode ter sido originalmente uma evolução para evitar que o bisão pisasse sobre as cobras camufladas.

“O mais interessante a um biólogo como eu é que muitas comunicações entre animais são ouvidas por nós, mas ainda não compreendemos a maioria de seus significados”, observa Chagnaud.

Predadores também podem estar atentos a essa comunicação. Devido a sua boca repleta de veneno capaz de destruir a pele e as células sanguíneas, algumas pessoas podem pensar que as cascavéis são totalmente imunes a predadores. Mas nada poderia estar mais longe da verdade.

Scott Boback, ecologista evolucionário da Faculdade Dickinson, na Pensilvânia, usa câmeras remotas para estudar cascavéis como parte de um experimento denominado Projeto RattleCam. Ele afirma ter ficado chocado ao notar quantas criaturas — como falcões-de-cauda-vermelha, pegas, guaxinins e gambás — se arriscam a morrer para se alimentar de cobras.

“Esses répteis têm de enfrentar diversos predadores”, revela Boback, em referência ao desafio de sobrevivência das cascavéis.

Como as cascavéis são presas de tantos predadores, é bastante possível que alguns animais usem o guizo de uma cascavel não como um aviso para se afastar, mas como um sinal indicativo de sua próxima refeição.

“Talvez as cascavéis utilizem o som de alta frequência dos guizos, em que o predador não consegue determinar sua distância, como um último recurso para não serem encontradas”, cogita Boback.

O que fazer se encontrar uma cascavel

Até mesmo para quem está acostumado a encontrar esses animais na mata, o som característico do guizo da cascavel nunca deixa de assustar.

“É sempre um momento em que o coração dispara”, conta Asia Murphy, ecologista da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. “Adoro encontrá-las, embora o som me assuste.”

É comum Murphy encontrar cascavéis ao estudar suas interações com outros predadores, como linces, raposas e coiotes. Ela explica que existem algumas regras simples para se manter em segurança.

“Sempre fique atento ao local onde senta e coloca as mãos e os pés”, recomenda Murphy. “Nunca tente tocá-las, até mesmo com um pedaço de pau ou uma vara. E é lógico, não as manuseie.”

Mantenha uma distância mínima de um metro e oitenta e resista ao impulso de mover galhos próximos ou outros elementos de seu habitat para observar melhor.

Há uma razão lógica para temer qualquer animal venenoso, e as cascavéis também merecem respeito.

“Esses ofídios são extremamente corteses”, prossegue Murphy, em referência a sua consideração “por avisarem que estão próximos”.

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