Depois de superar um grave acidente e um câncer, brasileiro alcança o topo do mundo

A jornada de Roman Romancini, o 18º brasileiro a atingir o cume do Everest, foi recheada de momentos dramáticos.sexta-feira, 3 de maio de 2019

Por Rafael Duarte
Fotos de Pasang Dawa Sherpa e Rafael Duarte
O dia nasce claro na Balcony, a 8.440 metros. Horas depois, Roman Romancini (na frente, de vermelho) vai se tornar o 18º brasileiro no topo do mundo.
Esta reportagem está na edição de maio de 2019 da revista National GeographicAssine agora para receber em casa.

Pasang Dawa Sherpa já pisou no cume do Monte Everest 21 vezes, uma a menos que o recorde mundial. Na última delas, em 2018, foi a que escalou mais leve: ele substituiu a carga dos pesados cilindros de oxigênio extras que carregaria por uma câmera fotográfica profissional para acompanhar seu parceiro de expedição, Roman Romancini. Coube a mim ensiná-lo a fotografar e a operar a câmera para que produzisse imagens que serão parte de um documentário sobre a história inspiradora do atleta.

Aos 44 anos, Roman Romancini foi o 18º brasileiro a chegar ao cume da montanha mais alta do planeta, e sua conquista teve adversidades incomuns – até mesmo quando flertou com a morte nas montanhas e longe delas. Em 2011,  a 40 dias da partida para a sua primeira expedição ao Everest, ele foi atropelado enquanto treinava de bicicleta e teve o fêmur estilhaçado. A volta ao esporte parecia condenada – alguns médicos chegaram a questionar se ele poderia caminhar como antes. Seis meses de cama, algumas cirurgias e inúmeras sessões de fisioterapia depois, o escalador sofreu um revés ainda maior: o diagnóstico de um câncer na tireoide.

O desgaste fica estampado no rostode Roman, retratado no Acampamento-Base com um intervalo de sete dias, antes e depois do último ciclo da escalada do Everest.

Para encarar o difícil momento, Roman decidiu agir como se estivesse nas montanhas: tomou as iniciativas com postura racional para se recuperar e recolocar logo a vida nos trilhos.  Já com o nódulo maligno removido, ele retomou seus treinos de bicicleta.

Eu o conheci nessa época, enquanto pedalávamos no mesmo percurso em que ele foi atropelado, nas estradas do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde vive. Logo viramos amigos e passei a admirá-lo pela força de vontade com que se dedicava ao seu grande sonho, ainda que isso contrariasse familiares que preferiam que ele não mais se expusesse a desafios extremos. De nada adiantou.

Em 2014, Roman finalmente foi ao Nepal para sua primeira tentativa. Mais uma vez, drama e frustração: minutos antes de começar o ciclo de aclimatação rumo ao Acampamento 1, uma avalanche histórica desabou para matar 16 sherpas que estavam logo à sua frente, no meio da Cascata de Gelo de Khumbu. O governo fechou a montanha e todas as expedições foram canceladas. Naquele ano, ninguém fez os 8.850 metros do cume. Foi nessa época que surgiu a ideia de contarmos a sua história em um documentário.

Roman atravessa uma fenda da Cascata de Gelo de Khumbu, com a ajuda de uma escada. A geleira, logo acima do Acampamento-Base, é um dos lugares mais perigosos da subida.
Roman e Padawa observam as montanhas do Himalaia no vilarejo de Namche Bazar, na véspera do início da caminhada rumo ao Acampamento-Base.

Nos anos seguintes, Roman se dedicou ao projeto Sete Cumes Invernais, cuja meta é alcançar o topo das montanhas mais altas de cada continente na estação mais fria do ano. Ele já escalou com sucesso o Aconcágua (6.961 metros, na América do Sul),  o Kilimanjaro (5.895 metros, na África), a Pirâmide Carstensz (4.884 metros, na Oceania) e o Elbrus (5.642 metros, na Europa), onde enfrentou temperaturas de até -65°C. Então, em 2018, Roman decidiu voltar ao Everest na companhia de Pasang Dawa Sherpa, o Padawa, seu parceiro em expedições anteriores no Himalaia – Ama Dablam (2008), Shishapangma (2010) e Everest (2014). O irmão de Padawa estava entre as 16 vítimas da avalanche de 2014. 

Como Padawa tinha a missão de fotografar, Roman contratou um segundo sherpa para ajudá-lo a transportar os cilindros extras de oxigênio acima dos  7 mil metros. A regra básica estabelecida com Padawa foi: a prioridade é a segurança da escalada. A câmera só devia ser tirada da mochila quando se sentisse fora de perigo. Começaria assim, de forma despretensiosa, uma valiosa troca de conhecimento ao longo da expedição. Enquanto o nepalês nos mostrava aspectos de sua cultura e nos apontava detalhes da geografia do Vale de Khumbu, eu ensinava a ele os fundamentos e conceitos básicos da fotografia e as técnicas que precisaria usar para filmar na montanha.

Os alpinistas precisam vencer um paredãode gelo do vizinho Monte Lhotse, a 6.800 metros, para poder chegar ao acampamento final antes do ataque ao cume do Everest.
Roman (no centro, de vermelho e máscara de oxigênio) descansa no cume do Everest. Para o brasileiro, o caminho foi mais gratificante que a conquista final, em meio a dezenas de alpinistas.

Quando Padawa segurou a câmera pela primeira vez, em silêncio e com um sorriso orgulhoso, colocou lentamente a correia em volta do pescoço, observando os detalhes dos botões do equipamento enquanto sentia o peso da objetiva apoiada entre o seu peito e a sua barriga. Aquele parecia ser o passaporte para um novo mundo que estava motivado a descobrir.

Ele e Roman evoluíam na escalada em um bom ritmo para vencer cada metro da altitude. Além de uma leve torção no tornozelo e de uma tosse que insistia em incomodá-lo havia dias, Roman não sentia nenhuma dor na perna lesionada no acidente. O câncer já era algo esquecido. A maior dificudade era a desidratação e as mudanças abruptas da sensação térmica. O peso de tanto esforço chegou de forma mais intensa à “zona da morte” do Acampamento 4, a quase 8 mil metros.

A geografia do topo do mundo, vista a partir da encosta do Monte Pumori, a 5.660 metros: as barracas coloridasdo Acampamento-Base estão em primeiro plano. O Everest é a montanha mais escura, ao fundo. Outros gigantes no horizonte: o Lhotse, no centro, no final da Cascata de Gelo de Khumbu, e o Nuptse, à direita.

Para o ataque ao cume, os dois se recompuseram com um cochilo na barraca, e ainda era noite quando retomaram a marcha. Então, Roman viu de perto uma realidade do Everest nos últimos anos: uma fila assustadora com centenas de alpinistas presos à mesma corda. Todos avançavam em um ritmo bem mais lento do que ele gostaria, num trecho que ainda duraria umas 18 horas ininterruptas de escalada. Muitos na fila aparentavam não ter o preparo físico e técnico ideal. “Um erro de qualquer pessoa na minha frente poderia impactar quem estivesse abaixo. E qualquer falha ali poderia ser fatal”, diz. Por tudo isso, “chegar ao cume não foi o momento de maior satisfação daquela longa jornada”.

Para Roman, ter Padawa como parceiro foi fundamental. “Na subida, a vida de um estava na mão do outro. Com ele ao meu lado, me senti à vontade para focar em sobreviver, fazendo uma escalada segura, enquanto via seu empenho e bom humor nos momentos mais difíceis em que produziu imagens incríveis”, diz o brasileiro.

Durante os ciclos de aclimatação, na volta ao acampamento, Padawa sempre me entregava o seu material para que, juntos, o analisássemos. Para mim, as cenas que ele registrou transcendiam o conceito de imagens bem compostas ou simplesmente bonitas. Elas expressavam uma grande força narrativa, com situações espontâneas e interações genuínas e intensas entre cinegrafista, personagem e a natureza. Em 16 de maio de 2018, Roman conquistou seu sonho ao lado do parceiro. E, lá do alto, Padawa criou imagens  únicas que revelaram um talento.

Esta reportagem está na edição de maio de 2019 da revista National GeographicAssine agora para receber em casa.
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