Em caso inédito, vermes parasitas são encontrados em olho humano

A infecção em uma mulher americana marca a primeira vez na história que uma espécie de verme de olho, normalmente encontrado em gado, foi visto em humanos.

Publicado 16 de fev. de 2018 11:30 BRST, Atualizado 5 de nov. de 2020 03:22 BRT
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Uma fêmea adulta de verme Thelazia gulosa é vista logo depois de ser removida do olho da paciente para análise.
Foto de CDC

Abby Beckley estava pescando salmão no Alasca quando sentiu algo em seu olho esquerdo.

“Foi igual quando um cílio cutuca você,” ela disse. Mas, por mais que ela tentasse, a mulher de 26 anos não conseguiu achar o cisco, ou outra coisa, em seu olho. Essa sensação não ia embora e, após cerca de cinco dias, Beckley estava frustrada.

“Então, uma manhã, eu acordei e pensei: ‘Mesmo que seja a última coisa que faça, vou tirar isso do meu olho, não importa o que seja,’” disse Beckley. Ela tomou coragem, levantou a pálpebra, apertou a pele inflamada por baixo e arrancou algo.

Quando ela olhou para baixo, ela disse: “tinha um verme no meu dedo.”

Beckley é a primeira pessoa no mundo conhecida por ter sido infectada por uma espécie particular de verme de olho. Chamado de Thelazia gulosa, o verme parasita é visto nos olhos de gados, algo normal no seu ciclo de vida, mas nunca no olho de um humano.

Além disso, o caso dela é apenas o décimo primeiro caso humano de vermes de olho Thelazia de qualquer espécie relatado na história dos Estados Unidos. O último caso conhecido, que os pesquisadores relataram hoje na American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, aconteceu há mais de 20 anos.

Apareçam

Beckley não sabia de nada disso enquanto encarava o verme em seu dedo no verão de 2016. A criatura pequena e quase transparente contorceu-se por uns segundos e depois morreu. Ela tinha visto vermes parecidos em salmão, então Beckley se perguntou se ela acidentalmente tinha transferido um para o seu olho. Mas então mais vermes começaram a aparecer e ficou claro que era um problema bem maior.

“Eu não parava de tirá-los, então eu sabia que tinha um monte,” ela disse.

Beckley já tinha tirado cinco vermes de seu olho quando visitou um médico em Ketchikan, no Alasca. Os médicos estavam “muito assustados”, disse Beckley. Eles não sabiam o que eram os vermes ou se eram perigosos.

O verme Thelazia gulosa pode ser visto na superfície do interior da pálpebra da paciente.
Foto de Dr. John Hoyt

Preocupados com a proximidade dos bichos rastejantes com o cérebro, Beckley decidiu voltar para Portland, onde o pai de seu namorado, um médico, preparou uma equipe médica na Universidade de Saúde e Ciência de Oregon (OHSU, na sigla em inglês) para a sua chegada.

No hospital, “eles basicamente abriram o tapete vermelho,” disse Beckley. Os médicos e os residentes se reuniram, esperando ver os raros vermes de olho. Segundo a paciente, eles pareciam um pouco céticos no começo e sugeriram que o que tinha parecido um verme para ela era, na verdade, apenas muco.

Mas Beckley continuou insistindo que tinha vermes em seu olho: “Eu pensava: ‘Apareçam!’ Vocês precisam aparecer!” ela disse. Pela próxima meia hora, ela se sentou e a equipe do hospital ficou encarando o seu olho, esperando o verme aparecer.

“Nunca vou me esquecer quando o médico e o residente viram o verme se mexer no meu olho,” disse Beckley. “Ele se assustou e deu um pulo para trás e disse: ‘Ai, meu Deus, eu vi! Eu vi!’”

Em relação à Beckley, “ela lidou bem com isso, com uma elegância notável e foi incrivelmente forte,” disse Erin Bonura, especialista em doenças infecciosas do OHSU que a tratou.

Verme misterioso

Oftalmologistas conseguiram pegar um dos vermes do olho de Beckley, apesar de ele ter se quebrado no meio, e enviaram os pedaços para o Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

Aquele verme e outros retirados do olho de Beckely chegaram nas mãos de Richard Bradbury, que comanda o Laboratório de Referência em Diagnóstico Parasitológico do CDC, a fonte principal do país para identificar parasitas raros. Eles analisaram quase 6.700 amostras misteriosas somente no ano passado.

“Quando não sabem o que é, acaba aqui na nossa mesa,” disse Bradbury.

“Todos esses parasitas são raros e esse aqui é extremamente raro,” referindo-se ao verme encontrado no olho de Beckley. Ele precisou desenterrar um artigo de pesquisa alemão de 1928 para finalmente identificar a espécie como sendo a Thelazia gulosa, fazendo-a a terceira espécie de Thelazia a acabar em um olho humano, juntamente com uma espécie na Ásia e outra na Califórnia.

Os vermes são carregados por um tipo de mosca que se alimenta de lágrimas de gado, cavalos e cachorros. Você pode tê-las visto voando persistentemente em volta dos olhos de um animal. Se você puder superar o horror dos vermes de olho e das moscas, eles são um exemplo fascinante de sobrevivência de parasitas.

Segundo Bonura, os vermes de olho não conseguem sobreviver sem as moscas. As larvas de verme podem amadurecer somente dentro do trato digestivo e órgãos da mosca e então eles encontram o seu caminho até o aparelho bucal da mosca. Quando a mosca pousa no globo ocular e começa a beber as lágrimas, as larvas de verme, em seu último estágio, saltam da probóscide da mosca para o olho. Lá, elas se transformam em adultos e produzem mais larvas, que podem ser pegas por outra mosca, ou os vermes morrem.

No olho de Beckley “não tinha como eles continuarem o ciclo de vida, então todos morreram,” disse Bonura. Ainda é um mistério exatamente como os vermes entraram no olho de Beckley, mas Bonura suspeita que isso possa ter acontecido quando ela passou por pastos de gados.

Isso poderia acontecer com você?

A boa notícia é que vermes não atravessam o globo ocular sozinhos e, ao invés disso, eles ficam em um tecido macio embaixo da pálpebra e em volta da órbita ocular. No entanto, uma vez dentro do globo ocular, não há muitas opções de tratamento. Algumas vezes medicamentos antiparasitas são usados para matá-los, mas esses remédios podem piorar a inflamação.

No caso de Beckley, o melhor tratamento era ela tirá-los gentilmente, um por um. No decorrer de 20 dias, Beckley tirou 14 vermes de seu olho. Ainda assim, os médicos envolvidos no caso concordam que esses vermes não são uma crise iminente de saúde pública.

“Não entrem em pânico pensando que todos terão vermes nos olhos,” disse Bonura. Não somente é extremamente raro para uma pessoa pegar uma mosca em seu olho, como também é mais raro ainda para uma mosca ficar por perto tempo suficiente para depositar larvas de verme. Segundo Bonura, a melhor prevenção é apenas afastar as moscas de perto. E se uma entrar no olho, tire-a imediatamente.

“Enquanto fizerem o que normalmente fazemos, tudo ficará bem,” ela disse.

Os vermes de Beckley não deixaram nenhum dano e ela diz que a sua visão está ótima. Um ano e meio depois, ela teve dificuldade até em lembrar em qual dos olhos os vermes estavam.

E caso você estiver se perguntando (eu me perguntei), ela não guardou nenhum: “Eu não queria passar mais tempo com aquelas coisas do que o necessário.”

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