Será que temperaturas mais altas desacelerarão o surto de coronavírus?

A temporada de gripe geralmente enfraquece com o clima quente, mas o coronavírus apresentará o mesmo comportamento? Surtos anteriores podem oferecer indícios.quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

AINDA NÃO SE SABE se o coronavírus que se alastra rapidamente pelo mundo será como a gripe e enfraquecerá com a chegada da primavera no Hemisfério Norte, e muitos cientistas afirmam que é cedo demais para saber como o perigoso vírus se comportará em um clima mais quente.

Existem dezenas de vírus na família dos coronavírus, mas apenas sete afetam o homem. Quatro deles são conhecidos por causar resfriados leves nas pessoas, enquanto outros são mais novos, mortais e acredita-se que tenham sido transmitidos a partir de animais como morcegos e camelos. Autoridades de saúde denominaram esse novo vírus de SARS-CoV-2 e sua doença de COVID-19.

Seria uma ótima notícia a confirmação da ideia de que o verão poderia interromper uma pandemia. No início deste mês, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump tuitou sobre os esforços da China para conter o vírus, afirmando que seriam bem-sucedidos, “sobretudo quando o clima começar a ficar mais quente”.

Os vírus causadores da gripe ou de resfriados mais leves do coronavírus de fato tendem a diminuir nos meses mais quentes porque esses tipos de vírus possuem o que os cientistas chamam de “sazonalidade”, de modo que os comentários do presidente têm algum fundamento científico. Mas é uma grande incógnita se o comportamento do SARS-CoV-2 será semelhante. Os cientistas que atualmente estudam a doença afirmam que é muito cedo para que suas pesquisas possam prever a reação do vírus às mudanças nas condições climáticas.

“Espero que haja sazonalidade, mas é difícil ter certeza”, afirma Stuart Weston, pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, onde o vírus está sendo estudado intensamente.

O que sabemos?

De forma simplista, é possível pensar na gripe e nos coronavírus como um conjunto de proteínas e lipídios. Eles são transmitidos de pessoa para pessoa por contato físico, mas também podem sobreviver em superfícies rígidas ou em gotículas respiratórias da tosse de um doente.

Fora do corpo humano, forças externas provocam a degradação do vírus. O álcool no desinfetante para as mãos, por exemplo, decompõe essas proteínas e lipídios, desestabilizando o vírus e reduzindo a chance de causar uma infecção.

Pesquisas sobre o motivo da sazonalidade de alguns vírus vêm se concentrando predominantemente nos vírus causadores da gripe, doença há muito associada aos meses de inverno. A “temporada de gripe” geralmente vai de outubro a abril ou março no Hemisfério Norte, quando é inverno. Os cientistas possuem várias teorias para explicar esse fato.

Alguns sugerem que seja devido aos ambientes fechados: para escapar do frio, as pessoas se aglomeram em locais fechados, onde o contágio entre pessoas é mais fácil. Para entender por que as latitudes do Norte apresentam um aumento nos casos de gripe durante o inverno, os pesquisadores analisaram como o vírus se alastra em diferentes graus de temperatura e umidade.

Pesquisas relativamente recentes sugerem que o ar frio e seco também seja propício para que o vírus permaneça intacto no ar ou seja transportado por maiores distâncias.

Um dos primeiros estudos a testar como as condições ambientais afetam a transmissão viral foi publicado em 2007 e analisou como a gripe era transmitida entre porquinhos-da-índia infectados em laboratório. As altas temperaturas e, em particular, a alta umidade desaceleraram a transmissão da gripe e, com níveis muito altos de umidade, o vírus interrompeu o contágio por completo. O ar mais quente retém mais umidade, o que impede que os vírus transportados pelo ar percorram distâncias tão grandes quanto percorreriam no ar seco. Em condições úmidas, as pequenas gotículas da tosse ou do espirro acumulam mais umidade ao serem expelidas. Acabam ficando pesadas demais para permanecer suspensas no ar e caem no chão.

Estudos fora do laboratório mostram resultados semelhantes, embora algumas regiões tropicais apresentem mais casos de gripe durante a estação chuvosa, quando as pessoas também se aglomeram em ambientes fechados.

Os cientistas formularam a hipótese de que a baixa umidade, geralmente presente no inverno, possa prejudicar a função do muco no nariz, que o corpo utiliza para aprisionar e expulsar corpos estranhos, como vírus ou bactérias. O ar frio e seco pode deixar o muco, que é normalmente viscoso, mais seco e menos eficiente na captura de um vírus.

Ian Lipkin, diretor do Centro de Infecção e Imunidade da Universidade de Colúmbia, estuda o novo coronavírus. Ele afirma que a luz solar, menos abundante no inverno, também pode contribuir para degradar os vírus presentes em superfícies.

“A luz ultravioleta decompõe o ácido nucleico. Essa luz praticamente esteriliza as superfícies. Ambientes ao ar livre são geralmente mais limpos do que ambientes fechados simplesmente devido à luz ultravioleta”, afirma ele.

A luz ultravioleta é tão eficaz para matar bactérias e vírus que é bastante empregada em hospitais para esterilizar equipamentos.

Repercussões

Embora ambos o coronavírus e a gripe sejam infecções respiratórias, não se sabe o suficiente sobre o SARS-CoV-2 para prever se ele apresentará os mesmos padrões sazonais.

Para entender melhor esse surto, os cientistas estão analisando surtos comparáveis como os do SRAG e do MERS. O SRAG, que começou a se alastrar no fim de 2002, compartilha quase 90% de seu DNA com o vírus atual. O surto de SRAG teve início em novembro e persistiu até julho, um indício discreto de sazonalidade, afirma Weston, e sua contenção pode ter sido resultado da intervenção precoce. Em outras palavras, o vírus desapareceu com o clima mais quente ou será que simplesmente tiveram êxito as iniciativas de tratamento e prevenção?

O MERS teve início em setembro de 2012 na Arábia Saudita, onde as temperaturas são geralmente elevadas. Ao contrário do SRAG, o MERS nunca foi totalmente contido e novos casos são relatados ocasionalmente. O novo coronavírus também começou a circular em determinadas regiões do Oriente Médio, principalmente no Irã e nos Emirados Árabes Unidos.

“Não encontramos muitas evidências de sazonalidade no MERS”, conta Weston.

Mas não se sabe ao certo se o SRAG e o MERS foram mesmo sazonais ou se esse novo vírus imitará o SRAG. Weston afirma que o laboratório está concentrado no desenvolvimento de tratamentos e vacinas para o vírus, que ele alerta que provavelmente não estarão disponíveis em menos de um ano, nem talvez por vários anos.

O que vem a seguir?

Marc Lipsitch, epidemiologista de Harvard, não acredita que uma mudança na estação do ano possa afetar a transmissão do vírus. O COVID-19 já foi documentado em todo o mundo. Se o vírus possuir alguma semelhança com um vírus da gripe comum, pode piorar no Hemisfério Sul à medida que as estações mudarem.

David Heymann, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, afirma que não se sabe o suficiente sobre esse novo vírus para prever seu comportamento ao longo das diferentes estações do ano.

“O risco de se fazer previsões sem evidências é que, caso se revelem falsas, elas podem ser consideradas verdadeiras e proporcionar uma falsa sensação de segurança”, afirma Heymann por e-mail.

“O objetivo atual deve continuar sendo a contenção para que se alcance uma eliminação sempre que possível”, adverte ele.

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, as pessoas são mais contagiosas quando manifestam sintomas. No entanto, alguns especialistas suspeitam que as contagens oficiais possam subestimar o número de infectados e afirmam que nem todos os infectados evoluem para uma doença grave.

“Estamos observando apenas os episódios mais graves”, afirma Weston. “Pode haver infecções não detectadas”.

Muitos especialistas afirmam que o SARS-CoV-2 provavelmente se tornará endêmico, juntando-se aos demais quatro coronavírus existentes que provocam resfriados leves ou se tornando um risco sazonal à saúde, como a gripe.

Para evitar contrair uma doença por qualquer vírus, a Organização Mundial da Saúde recomenda lavar as mãos com frequência, evitar contato próximo com pessoas que apresentarem sintomas como tosses ou espirros e procurar tratamento se estiver doente.

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