Problemas cardíacos após vacinação são raros – e pacientes recebem alta rapidamente

Novos dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) sobre ocorrências de miocardite em pacientes após terem tomado a segunda dose de uma vacina de RNAm sugerem que os benefícios ainda superam os riscos.

Publicado 2 de jul. de 2021 12:00 BRT
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Um profissional de saúde coloca um band-aid em um paciente após administrar uma dose da vacina da Pfizer-BioNTech contra covid-19 no Centro Médico de Boston em Massachusetts, em 17 de junho de 2021. Durante a primeira onda da pandemia, os leitos ficaram lotados. O hospital chegou a ter 229 leitos ocupados por pacientes internados com coronavírus no segundo trimestre, o que representa quase dois terços do total de leitos disponíveis. Na última semana, o número de leitos ocupados por pacientes com covid-19 no Centro Médico de Boston chegou a zero.

Foto de Adam Glanzman, Bloomberg via Getty Images

Um adolescente chegou ao Hospital Universitário de Ciência e Saúde de Oregon no final de abril se queixando de dores no peito que começaram repentinamente. Uma ressonância magnética detectou miocardite: um inchaço do músculo do coração. Segundo Judith Guzman-Cottrill, infectologista pediátrica, ocorrências envolvendo miocardite não são tão raras entre pacientes jovens atendidos pelo hospital de Portland.

Mas a data em que o jovem deu entrada no hospital chamou a atenção da infectologista: poucos dias antes de seus sintomas começarem, o jovem havia tomado a segunda dose da vacina contra covid-19 da Pfizer. Algumas semanas depois, Guzman-Cottrill recebeu um telefonema de um colega de Atlanta que comentou sobre um quadro semelhante de miocardite que começou dois dias após tomar a segunda dose da vacina da Pfizer. No mesmo dia, ela soube por um e-mail de notícias sobre mais dois casos semelhantes em Connecticut.

“A miocardite em si não é algo raro a ponto de pensarmos que deva ser uma nova doença. Mas quando soube que já se tratava de quatro novos casos, todos envolvendo jovens saudáveis com dor no peito, concluí que talvez pudesse não ser coincidência”, afirma Guzman-Cottrill.

Em 11 de junho, o CDC confirmou 323 casos de miocardite e pericardite entre pessoas de 12 a 29 anos. A maioria dos casos documentados ocorreram dentro de uma semana após cada paciente ter recebido vacinas de RNAm contra covid-19 fabricadas pela Pfizer-BioNTech e Moderna. O número, anunciado essa semana pelo Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização do CDC, é uma revisão dos números anteriores e incluem dados de crianças de 12 a 15 anos, grupo que teve autorização para ser vacinado em maio.

Até agora, o maior número de casos de miocardite pós-vacinal ocorreu entre adolescentes e jovens pouco acima dos 20 anos, de acordo com o relatório do comitê. A condição é mais frequente em pacientes que tomaram a segunda dose da vacina e acomete mais meninos e homens jovens do que meninas e mulheres.

Segundo Tom Shimabukuro, da Força-Tarefa de Vacinas Contra covid-19 do CDC, na reunião do comitê de 23 de junho, que anunciou esses resultados, as taxas de miocardite e pericardite pós-vacinal superam as que normalmente se observam decorrentes de outras causas. Mas os casos ainda são considerados raros, e a grande maioria dos pacientes respondeu rapidamente ao tratamento.

“Ainda são considerados casos raros. Os resultados até o momento indicam que os pacientes se recuperam dos sintomas e ficam bem”, disse Shimabukuro.

O que é miocardite?

Geralmente as causas de miocardite e pericardite (inflamação do revestimento do coração), em jovens, são infecções virais. Tipos de enterovírus, como a febre aftosa, estão entre as causas mais comuns, e ocorrem com mais frequência no verão, diz Jeremy Asnes, chefe de cardiologia pediátrica da Escola de Medicina de Yale em New Haven, Connecticut. Também há casos de miocardite após a vacinação contra a varíola.

Para entender o aumento de casos de miocardite em adolescentes em abril, Guzman-Cottrill e alguns colegas analisaram detalhadamente os casos de sete garotos saudáveis, de 14 a 19 anos, que procuraram atendimento para dores no peito em abril ou maio. Em todos os casos, os sintomas começaram quatro dias após o recebimento da segunda dose da vacina Pfizer-BioNTech contra a covid-19. Os exames confirmaram miocardite ou pericardite. Todos os sete pacientes se recuperaram rapidamente. A equipe relatou em um artigo publicado este mês que três desses pacientes receberam apenas analgésicos comuns, como ibuprofeno, para o tratamento da doença cardíaca.

Na reunião do Comitê Consultivo em Práticas de Imunização (Acip, na sigla em inglês), Matthew Osterna, cardiologista pediátrico, epidemiologista do Children’s Healthcare de Atlanta e membro da Força-Tarefa de Vacinação contra covid-19 do CDC afirmou que essas constatações refletem diversos outros relatos de casos semelhantes nos Estado Unidos e em Israel. Os novos casos sugeriram também que a miocardite pós-vacinal ocorre com mais frequência em jovens, especialmente homens. Nesses relatórios, os casos geralmente foram leves e a recuperação tende a ser relativamente rápida, com alta hospitalar entre dois a quatro dias em vez de seis, como é comum nos casos tradicionais de miocardite e pericardite.

“Casos relacionados ao período pós-vacinal parecem ter um tempo de recuperação mais rápido do que os casos de miocardite típica. Estou otimista em relação a isso”, disse Oster na reunião do Acip.

Os novos dados são compatíveis com as evidências anteriores. Segundo Shimabukuro, dos 323 casos confirmados até agora, 309 foram hospitalizados. Entre estes, 295 tiveram alta e 218 já se recuperaram de todos os sintomas; nove permanecem internados e apenas dois estão na UTI. A maioria das notificações de casos de miocardite ocorreu nos primeiros dias após os pacientes terem se vacinado, principalmente após a segunda dose. Os casos são mais numerosos entre pacientes que estão no final da adolescência e início dos 20 anos e diminuem gradualmente com pacientes acima de 50 anos.

Os números do CDC se associam com o que os médicos relatam ver em suas próprias instituições. Asnes, do hospital de New Haven, relata que sua equipe recebeu 10 pacientes com miocardite pós-vacinal de até 21 anos, que é, ainda segundo Asnes, aproximadamente o mesmo número de todos os outros pacientes com mais de 21 anos. Stuart Berger, cardiologista pediátrico da Escola de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern, em Chicago, diz que sua equipe observou seis casos confirmados de miocardite, principalmente em garotos maiores de 16 anos. Os pacientes se queixaram de dor no peito, mas todos os casos foram leves e os sintomas passaram rapidamente.

“Essa é a experiência que o CDC descreveu e tem sido a experiência que nossos colegas e outras instituições também relatam”, diz Berger, que também é porta-voz da Academia Americana de Pediatria.

Detectando efeitos colaterais raros

Com base nos dados do Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas (Vaers, na sigla em inglês), que permite a qualquer pessoa notificar qualquer problema que possa estar relacionado a vacinas, e do Vaccine Safety Datalink, que utiliza dados eletrônicos de saúde de nove organizações de saúde de todo o país, a equipe do Acip calculou uma taxa de 12,6 casos de miocardite ou pericardite por milhão no período de 21 dias após administração da segunda dose de qualquer vacina de RNAm em pessoas com idade entre 12 a 39 anos.

O CDC continua a investigar os relatórios enviados ao Vaers e o Dr. Shimabukuro alertou contra o foco excessivo na taxa de casos estimada como orientação para a tomada de decisões em ambientes clínicos. Mas, em entrevistas, os especialistas dizem que o risco é baixo em relação ao número de vacinas administradas.

Nos Estados Unidos, até o dia 22 de junho, mais de três milhões de jovens entre 16 e 17 anos haviam recebido pelo menos a primeira dose da vacina contra a covid-19 e mais de quatro milhões de jovens de 12 a 15 anos começaram a vacinação. “Isso é muito reconfortante para mim”, diz Guzman-Cottrill, cujos filhos de 16 e 13 anos já foram vacinados. Um deles possui uma doença autoimune.

A infectologista acrescenta: “As taxas de miocardite não são tão altas, mesmo com o aumento do número de pessoas vacinadas. Nossas salas de emergência não estão cheias de adolescentes com dores no peito”.

Relação entre as vacinas e a miocardite

Os cientistas ainda não sabem de que forma a vacina pode estar causando miocardite. Segundo Oster, uma das principais teorias explica que o problema é causado por uma resposta das citocinas — a reação de moléculas inflamatórias que levam as células do sistema imunológico a reagir. Isso pode explicar por que a condição aparece imediatamente após a vacinação, nos casos em que ocorre. Os ensaios clínicos mostraram taxas mais elevadas de efeitos colaterais, como febre, dores musculares, calafrios e fadiga em jovens do que em adultos mais velhos, e esses sintomas são causados por inflamação, diz Guzman-Cottrill. Portanto, faria sentido que a miocardite fosse outra resposta inflamatória no espectro mais grave.

O organismo reage de forma diferente à vacinação. Em vez da invasão direta de um vírus no tecido cardíaco, como é o caso dos enterovírus, é o próprio sistema imunológico que afeta o coração após a vacinação.

“Em alguns pacientes deve haver alguma reação cruzada entre a resposta imunológica à vacina e os músculos do coração”, acrescenta Asnes.

Os hospitais têm adotado abordagens diferentes para o tratamento da miocardite pós-vacinal, que vão desde analgésicos de venda livre até medicamentos intravenosos e esteroides. Uma compreensão mais ampla desses mecanismos, bem como estudos de acompanhamento de longo prazo, devem auxiliar as decisões para melhores estratégias de tratamento. Um estudo mais aprofundado também pode explicar por que a condição é mais comum entre os homens e estimar o tempo de recuperação. Guzman-Cottrill planeja examinar novamente seus sete pacientes em agosto, três meses após o diagnóstico inicial.

Dados os números mais recentes e o risco ainda legítimo de complicações graves de covid-19 entre os jovens, como a síndrome inflamatória multissistêmica, os especialistas continuam recomendando a vacinação para adolescentes.

“Entre os pacientes afetados pela covid-19 dessa faixa etária observados pela nossa equipe, houve alguns casos muito graves, então ainda acho que a vacinação seja apropriada”, diz Asnes. “Como em qualquer novo tratamento, temos que manter nossos olhos abertos. E é isso que estamos fazendo”.

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