‘Covid longa’: doença pode ser persistente também em crianças

Muitas crianças também podem apresentar sintomas persistentes depois de contraírem a covid-19. Contudo, ainda não há respostas científicas definitivas.

Por Meryl Davids Landau
Publicado 8 de jul. de 2021 07:00 BRT
Children Long Covid

Garoto faz teste de covid-19 gratuito em clínica móvel do St. John's Well Child & Family Center, instalada do lado de fora da Igreja Walker Temple AME, no sul de Los Angeles, Estados Unidos, em julho de 2020.

Foto de Mario Tama, Getty Images

Aos 11 anos de idade, em um mundo antes da pandemia de covid-19, Wednesday Lynch adorava participar de competições com sua equipe de animadoras de torcida. Ela havia aperfeiçoado sua técnica em fazer cambalhotas sem as mãos e saltos acrobáticos para trás. Wednesday também gostava muito de sair com amigos e andar de bicicleta pelo seu bairro em Dallas, no estado americano da Carolina do Norte.

Tudo isso mudou em setembro do ano passado, quando Wednesday foi exposta à covid-19 enquanto assistia a aulas virtuais com outros alunos na quadra da escola, respeitando o distanciamento social. “Uma adolescente que estava presente não sabia que estava infectada na época”, recorda a mãe dela, Melissa. Logo depois, Wednesday testou positivo.

Ela apresentou muitos sintomas clássicos da covid-19: exaustão, baixos níveis de oxigênio e perda do olfato. Melissa Lynch cuidou de sua filha em casa e, depois de algumas semanas, o médico disse que ela podia retomar suas atividades normais.

Mesmo assim, 10 meses depois, ainda não foi possível. Ocasionalmente, Wednesday tem o que sua mãe descreve como uma onda da doença — um período de três dias a uma semana em que ela fica tão cansada que mal consegue se sentar, seu coração dispara, a cabeça lateja, às vezes apresenta febre e, na onda mais recente, ela teve uma convulsão. Melissa levou a filha a vários médicos, alguns deles não ajudaram muito; depois que um médico cogitou que o novo coronavírus poderia ter danificado o coração de Wednesday, um cardiologista insistiu que não havia nada de errado. Wednesday agora está sendo avaliada por uma Clínica de Recuperação de covid-19 especial na Faculdade de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, embora os tratamentos ainda sejam escassos. “É frustrante que não haja nada disponível de fato. Como um dos médicos me disse, estamos todos perdidos”, lamenta Melissa.

Se os médicos ficam perplexos com a síndrome pós-covid-19 em adultos, as dúvidas são ainda maiores quando ela acomete crianças. A condição, mais comumente conhecida como covid-19 persistente, refere-se a uma série de sintomas que perduram após a fase aguda da doença. Os pacientes se queixam regularmente de vários problemas, em geral fadiga, dificuldades respiratórias, palpitações cardíacas, dores de cabeça, dores musculares e articulares, febre, tonturas, fadiga, confusão mental e muito mais.

Da mesma forma que ocorre com os adultos, essa síndrome pode atingir crianças após um caso inicial leve ou até mesmo assintomático de covid-19, como também com a forma mais grave da doença. É diferente da síndrome inflamatória multissistêmica, ou MIS-C, na sigla em inglês, a inflamação sistêmica rara e grave associada à covid-19 que afetou cerca de quatro mil crianças e causou 36 mortes nos Estados Unidos. Embora esta última também ocorra posteriormente, a maioria dos especialistas considera que ela seja uma afecção separada.

Quantas crianças apresentam covid-19 persistente?

Ninguém sabe exatamente quantas crianças estão na mesma situação que Wednesday. Mas muitos estudos pequenos sugerem que pode ser um número significativo.

Quando pesquisadores de Roma acompanharam 129 crianças (com idade mediana de 11 anos) que haviam sido diagnosticadas com covid-19, mais da metade apresentava pelo menos um quadro clínico persistente após sua suposta recuperação. Entre esses casos, havia 14 crianças, ou mais de 10% do total, que após quatro meses ainda apresentavam três ou mais sintomas incômodos.

Pesquisadores australianos monitoraram 171 crianças mais novas (idade mediana de 3 anos) que haviam testado positivo para covid-19 e foi constatado que 8% relataram manifestações pós-covid-19 até dois meses depois. Nesse estudo, porém, todas elas haviam se recuperado em até seis meses.

No início de junho, pesquisadores holandeses realizaram um levantamento com pediatras em seu país, que indicaram que 89 crianças sob seus cuidados haviam sido afetadas. Segundo Caroline Brackel, coautora do estudo e pneumologista pediátrica dos Centros Médicos da Universidade de Amsterdã, o mais preocupante foi que em mais de um terço dessas crianças os sintomas eram graves o suficiente a ponto de causar “restrições significativas na vida cotidiana, principalmente devido ao cansaço excessivo, problemas de concentração e dificuldades para respirar”.

Reconhecendo esse problema crescente, o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido acaba de anunciar que desembolsará o equivalente a US$ 138 milhões para criar centros de tratamento em todo o país e para instruir os pediatras sobre o atendimento de crianças com covid-19 persistente.

Até o momento, nenhum estudo documentou o índice equivalente nos Estados Unidos, algo que Alicia Johnston, infectologista pediátrica do Hospital Infantil de Boston, atribui ao fato de que, inicialmente, todos estavam preocupados com pessoas mais idosas, as quais eram mais propensas a ser hospitalizadas ou falecer. “Havíamos descartado isso porque a covid-19 não afeta as crianças gravemente, mas agora percebemos que elas podem ter esses sintomas persistentes”, explica ela.

Com mais de quatro milhões de crianças e adolescentes nos Estados Unidos com resultado positivo de covid-19 até o momento — 14% do total de casos — está claro que isso pode ser um importante problema para crianças, famílias, escolas e sociedade. (Nos Estados Unidos, o número de casos em crianças, assim como em adultos, caiu acentuadamente nas últimas semanas, mas foi relatado que 14,5 mil crianças testaram positivo na semana passada.)

Pais unem esforços

Como ainda não existem pesquisas aprofundadas ou respostas satisfatórias, os pais se uniram para compartilhar suas próprias experiências.

Sammie McFarland, moradora de Dorset, na Inglaterra, estava exasperada quando finalmente conseguiu uma consulta médica para sua filha de 15 anos, embora todos no consultório tenham subestimado suas queixas. Após sua batalha contra a covid-19, Kitty, que era uma adolescente ativa e enérgica, mal conseguia se sentar ou comer. Uma enfermeira lhe disse que era ansiedade e que “ela se sentiria melhor quando o confinamento terminasse”, lembra McFarland.

Embora Sammie McFarland também estivesse sofrendo de sintomas semelhantes e mal conseguisse se levantar do sofá, ela sentia que precisava fazer algo. Então, há oito meses, ela criou um grupo no Facebook chamado Long Covid Kids, para os pais se conectarem; cresceu tanto que já tem mais de três mil membros. No mês passado, o grupo gerou uma ramificação formada apenas por membros norte-americanos, o Long Covid Kids USA, liderado por Melissa Lynch.

Os pais se sentiram ignorados por muitos na comunidade médica e foram até mesmo acusados de inventar a doença de seus filhos ou serem pais excessivamente insistentes, relata McFarland. “Se não tivéssemos o apoio dos outros membros do grupo, não teríamos nada.” (Kitty melhorou nos últimos meses, mas não se recuperou totalmente.)

O grupo criou uma pesquisa de opinião on-line anônima com o objetivo de chamar atenção para o problema. Centenas de pais responderam, sendo que a maioria descreveu que seus filhos estavam debilitados, ainda apresentavam quatro ou mais sintomas meses após a infecção, de acordo com resultados que foram analisados por cientistas na Itália e no Reino Unido e divulgados em um servidor de pré-publicação em março. Na metade dos casos, os problemas desapareciam periodicamente antes de retornar. Apenas 10% das 510 crianças haviam retornado ao nível de atividades com o qual estavam acostumadas antes da doença.

“Os pais estão com medo e frustrados”, indica Johnston. “Eles querem fazer tudo o que puderem para aliviar o sofrimento dos filhos.”

Parte do problema, tanto para crianças quanto para adultos, é que essa síndrome geralmente é invisível para os médicos. “A maioria dos exames realizados indicará resultados normais, diz Marcos Mestre, diretor médico do Hospital Infantil Nicklaus, em Miami. Por exemplo, fadiga, confusão mental, tontura e muitos outros sintomas comuns não têm indícios em exames de sangue ou de imagem, uma das razões pelas quais alguns médicos acreditam que os pais estão exagerando.

Nas crianças mais novas, entender o que está acontecendo é especialmente complicado, diz Carlos Oliveira, infectologista pediátrico que participou do novo Programa de Tratamento Abrangente Pós-covid-19 infantil administrado pela Faculdade de Medicina de Yale e pelo Yale New Haven Children’s Hospital. “Os adolescentes conseguem verbalizar quando sentem dor de cabeça ou dificuldade para respirar, mas as crianças mais novas geralmente não conseguem”, compara ele. Mesmo a fadiga pode ser difícil de detectar, pois muitas vezes faz com que a criança fique hiperativa em vez de sonolenta, como já observou qualquer pai ou mãe ao tentar colocar seu filho cansado para dormir.

Os especialistas ainda não sabem por que qualquer pessoa pode apresentar esses sintomas pós-infecção. As teorias incluem inflamação crônica desencadeada por proteínas virais inativadas, talvez uma quantidade persistente de baixo nível de vírus ativo ou mesmo o próprio trauma que o corpo sente devido ao estresse físico para combater a covid-19, sobretudo em casos graves.

Para tentar compreender melhor as causas, os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos anunciaram em março que será lançada uma nova iniciativa de pesquisa denominada CARING for Children with covid, com o intuito de desvendar como a covid-19 afeta especificamente crianças e jovens. Embora grande parte da pesquisa tenha como objetivo descobrir as causas e os tratamentos para a MIS-C, os especialistas em pediatria esperam que ela também revele novas informações sobre a covid-19 persistente.

Opções de tratamento atuais

Com tantas incógnitas, os médicos recorrem a outras infecções pós-virais em busca de orientação, observando que as crianças costumam enfrentar outras dificuldades por meses depois de superar doenças como a mononucleose ou doença de Lyme.

Basicamente, isso significa minimizar os sintomas em vez de atingir a raiz do problema. “Não há cura. Mas quanto mais depressa conseguirmos reduzir a carga dos sintomas, melhor será para a criança em longo prazo. Não queremos, por exemplo, que a fadiga faça com que percam um ano letivo”, esclarece Oliveira.

“Eu gostaria que houvesse um remédio que agisse de forma rápida e mudasse as coisas, mas o tratamento geralmente requer vários profissionais com muitos cuidados de suporte”, admite Johnston. Se a criança estiver sofrendo com dores no corpo, por exemplo, os médicos do Hospital Infantil de Boston podem prescrever medicamentos, mas também acrescentar terapia cognitivo-comportamental ou meditação com atenção plena para aliviar uma dor mais intensa, diz ela.

Em alguns hospitais infantis e grandes centros médicos, estão começando a surgir clínicas multidisciplinares especializadas. Os pais que levam seus filhos a uma delas recebem tratamentos coordenados de vários profissionais que possam ser necessários, incluindo neurologistas pediátricos, gastroenterologistas, cardiologistas, fisioterapeutas e outros especialistas.

Os pais que não têm acesso a esses centros ainda devem buscar uma abordagem envolvendo diversas especialidades, recomenda Mestre. “Comece com o pediatra, mas busque outros especialistas conforme necessário”, diz ele.

É importante lembrar que, às vezes, os sintomas se resolvem com o tempo, afirma Johnston. “Muitas vezes, com outros quadros pós-inflamatórios, os sintomas duram meses, mas depois a criança se recupera.”

Os pais cujos filhos não contraíram covid-19 devem fazer tudo o que puderem para continuarem assim. “A melhor maneira de evitar a síndrome pós-covid-19 é evitar que contraiam a doença”, ressalta Oliveira.

As crianças mais novas, para as quais a vacina ainda não foi aprovada, ficam protegidas de certo modo quando seus pais e outras pessoas de seu círculo social são vacinados, esclarece Oliveira. Os adultos também devem seguir outras precauções de segurança, como fazer com que as crianças usem máscaras e pratiquem distanciamento social em ambientes de alto risco.

Crianças de 12 anos ou mais, que atualmente já podem ser vacinadas nos Estados Unidos, devem ser imunizadas o mais rápido possível, alerta Mestre. “Já ouvi pais dizendo que as crianças sobrevivem à covid-19, mas não se trata apenas de sobrevivência. Ao fazer uma análise dos riscos e benefícios da vacina para o seu filho, é preciso levar tudo em consideração, inclusive a possibilidade de ele desenvolver covid-19 persistente”, afirma ele.

Wednesday Lynch recebeu a vacina, o que proporcionou à família um certo alívio porque ela provavelmente não será infectada outra vez. Sua mãe cancelou todas as atividades programadas para o segundo semestre para que ela possa descansar e receber o atendimento necessário na clínica especializada em covid-19. Ela espera que a filha tenha recuperado sua antiga forma de acrobata quando o ano letivo recomeçar, em setembro.

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